Clara Fagundes: “Saúde é Democracia” não pode ser impulsionada nas redes?
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Rejeição de anúncio com lema histórico da Reforma Sanitária expõe os limites da “liberdade de expressão” em redes sociais
Por Clara Fagundes*, no site do Cebes
O Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), entidade que há 50 anos atua na defesa da saúde como direito e teve papel central na luta pela criação do SUS, lançou uma campanha para atrair novos associados.
A ideia era modesta: investir R$ 50 no impulsionamento de três cards (“carrossel”). Neles, a entidade lembrava que a saúde está na Constituição, mas ainda não chega a todas as pessoas como direito, e que defender o SUS é também defender a democracia.
A Meta, controladora de redes como Instagram e Facebook, rejeitou o impulsionamento. O Cebes insistiu. Tentou impulsionar novo anúncio, já publicado gratuitamente na contracapa da Revista Radis da Fiocruz. A imagem destacava mote da Reforma Sanitária, eternizado no discurso histórico de Sérgio Arouca, na 8ª Conferência Nacional de Saúde: “Saúde é Democracia, Democracia é Saúde”. Novamente, rejeitado.
O Cebes ficou sem anúncio — e a Meta, com a tarefa de explicar por que “Saúde é Democracia. Democracia é Saúde” contraria as diretrizes da plataforma. Qual o limite da “liberdade de expressão” defendida pela empresa?
Desde 2025, a Meta encerrou o programa de checagem de fatos realizada por empresas independentes. Ao anunciar a mudança, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, alegava que pretendia ampliar a “liberdade de expressão”.
Ainda naquele ano, em dezembro, perfis ligados ao campo progressista registraram queda abrupta de visualizações — conhecida como “shadow ban”, uma restrição do alcance sem notificação. O caso foi tão acintoso que, após denúncia da Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) e do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) ao Ministério Público Federal (MPF), a empresa recuou e atribuiu o problema a falhas técnicas.
A dez dias das eleições, a Meta suspendeu, em 23 de setembro de 2026, a conta de anúncios oficial da campanha de Lula (“Eleições 2026 Luiz Inácio Lula da Silva Presidente”) pelo Facebook e Instagram. Diante do ultraje, a conta foi rapidamente restaurada, com explicações vagas sobre os “padrões da comunidade”.
Os padrões são elásticos, quando interessa. Dados da Biblioteca de Anúncios da Meta analisados pela Agência Pública revelam que ao menos 1.069 anúncios com menções a Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) no Facebook, Instagram e Threads foram pagos em dólar durante a campanha eleitoral deste ano. Os anúncios circularam sem rótulo de conteúdo político, mecanismo exigido pelas regras da Meta, entre 16 de agosto e 30 de setembro. O anúncio do Cebes não mencionava governantes ou candidato.
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O episódio do Cebes é um grão de areia no deserto das plataformas digitais: eram apenas R$ 50 para ampliar o alcance de uma campanha de associação.
Quando uma plataforma é capaz de interferir no que milhões de pessoas veem e compartilham veta a divulgação de uma entidade da sociedade civil que há cinco décadas defende o direito à saúde, o horizonte é turvo.
*Clara Fagundes é jornalista, especialista em Comunicação e Saúde (Fiocruz) e Comunicação para o Desenvolvimento (IIMC-Delhi). Coordena a comunicação do Cebes
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