Jamil Chade: Brasileiros vão às urnas sob a maior ingerência estrangeira desde 64

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O presidente Lula. Foto: Ricardo Stuckert

Ofensiva dos EUA que dura mais de um ano envolveu tarifas, chantagens, declarações, sanções e difusão de desinformação

Por Jamil Chade, no ICL Notícias

Não existem porta-aviões nas costas do Brasil. Mas, pela primeira vez desde 1964, milhões de brasileiros irão às urnas neste domingo sob a maior ofensiva estrangeira desde o golpe de estado que instaurou o regime militar.

Estratégico para os interesses americanos de redesenhar o mapa do Hemisfério Ocidental e sua própria posição de hegemonia global no século 21, o Brasil passou a ser considerado como crítico para qualquer plano dos EUA de enterrar a autonomia latina-americana.

Conter o avanço chinês e garantir o acesso à segunda maior reserva de terras raras do mundo estão entre os principais argumentos do interesse americano pelo país.

Asfixiar uma política externa independente por parte do Brasil, portanto, passou a ser uma prioridade no Departamento de Estado. Para o governo norte-americano, seu perímetro de segurança não termina em suas fronteiras. A influência sobre todo o continente é considerada como parte central da estratégia de defesa nacional.

Não por acaso, a operação para tentar moldar o destino da eleição brasileira começou mais de um ano antes do momento do voto, em estreita colaboração com a extrema direita brasileira. Os escolhidos para agir como “força local” – os membros do clã Bolsonaro – foram instrumentalizados como forma de garantir que, uma vez no poder, sucumbam aos interesses norte-americanos e retribuam os serviços prestados pela CIA, pelo Departamento de Estado, Tesouro e pela Casa Branca.

Se o projeto vinha sendo germinado desde janeiro de 2025, foi em 9 de julho daquele ano que ele seria colocado em marcha. Trump enviou uma carta para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na qual anunciava tarifas de 50% contra os produtos brasileiros, uma das mais elevadas do mundo. Como argumento, alega que seriam impostos cobrados como resposta aos ataques que Jair Bolsonaro estaria sofrendo por parte da Justiça do país.

No final daquele mês, o ministro Alexandre de Moraes seria alvo de sanções na Lei Magnitsky, uma vez mais numa tentativa de criar um constrangimento nas instituições brasileiras que julgavam a tentativa de golpe de estado por parte de Bolsonaro.

Um mês depois, autoridades brasileiras teriam seus vistos revogados, supostamente por terem feito parte da estruturação do programa Mais Médicos, com a presença de profissionais cubanos. Entre os atingidos estava Alexandre Padilha, ministro da Saúde.

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Em setembro foi a vez da imposição de sanções contra a mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes, e a empresa LEX – Instituto de Estudos Jurídicos, que pertence à família do magistrado.

A barganha sobre a mesa

A barganha começava a ser desenhada. Em outubro daquele ano, o governo Trump entregaria uma proposta de acordo comercial com o Brasil. Para rever as tarifas de 50% contra os produtos nacionais, exigiam que “dissidentes políticos” fossem libertados da prisão, uma forma de exigir o fim da condenação contra Bolsonaro.

A esperança era de que, pressionados pela elite econômica do Brasil, Lula, seu governo e as cortes cedessem. Isso não ocorreu.

Em 2026, a pressão continuou. Nas primeiras semanas do ano, uma nova proposta foi apresentada pelo governo Trump ao Brasil. Desta vez, a questão do ex-presidente não estava colocada. Mas os americanos exigiam, entre tantos pontos, que o Brasil garantisse que não venderia terras raras para a China.

Enquanto isso, a operação nos bastidores continuava. Em março, Darren Beattie, assessor de Trump, tentou visitar Jair Bolsonaro na prisão. Mas teve seu visto rejeitado pelas autoridades brasileiras, depois que ele omitiu que esse seria um dos objetivos de sua viagem ao país.

Maio foi um momento decisivo. Com o escândalo do Banco Master desembarcando na campanha de Flávio Bolsonaro, a Casa Branca abriu espaço para que Trump recebesse o senador. O ato foi interpretado como uma operação para salvar sua candidatura. Em troca, Flávio ofereceu acesso às terras raras brasileiras e a adesão do país no Escudo das Américas.

Dias depois, ainda naquele mesmo mês, o governo Trump anunciaria a classificação do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas, e colocando o tema da segurança pública no centro do debate eleitoral. Mais uma vez, o objetivo era encurralar o governo Lula e abrir espaço para que Flávio Bolsonaro pudesse se apresentar como o interlocutor predileto para supostamente “lutar contra o crime organizado”.

O Palácio do Planalto chegou a apresentar um projeto de cooperação aos EUA para lutar contra as entidades do narcotráfico. Mas a Casa Branca jamais respondeu. O objetivo, apontam negociadores, não era combater o crime.

A operação ainda envolvia uma tentativa de desestabilizar a confiança nas urnas e no processo eleitoral. Em julho, dois funcionários do Departamento de Estado americano, Riley Bernes e Samuel Samson, tentaram viajar ao Brasil para averiguar o sistema eleitoral brasileiro. Ambos tiveram seus vistos rejeitados.

Um mês depois, o consulado dos EUA em São Paulo convocou influenciadores para uma reunião supostamente sobre liberdade de expressão, em mais um gesto considerado como uma operação para promover uma ingerência num momento político complicado no país.

O passo seguinte foi a adoção de tarifas contra produtos brasileiros, em parte alegando que o sistema de pagamentos digitais do Brasil seria injusto para a concorrência estrangeira. Uma vez mais, o foco era colocar um preço elevado sobre o governo por sua audácia de manter uma autonomia em relação aos interesses dos EUA.

O processo de ingerência foi permeado por críticas de assessores de Trump e autoridades como Marco Rubio contra Lula e contra o Brasil.

Em setembro, faltando poucas horas para encerrar o prazo para aprovação de orçamentos no Senado americano, o governo Trump ainda aprovaria o envio de US$ 1 milhão a grupos no Brasil que se oponham ao Supremo Tribunal Federal. O pacote tinha como finalidade financiar uma ofensiva contra o Poder Judiciário.

O governo Lula, porém, sempre temeu que uma operação poderia ocorrer nos últimos dias da campanha, causando turbulência para o processo eleitoral. O que era apenas uma análise de risco deu demonstrações de poder ser uma realidade.

Nesta sexta-feira, dois dias antes do primeiro turno, o governo dos EUA anunciou o fechamento de seus postos diplomáticos no Brasil supostamente por conta de uma ameaça de bomba.

A Polícia Federal esclareceu que não encontrou qualquer indício de um possível crime sendo preparado e que a ameaça era apenas uma mensagem numa conta de uma rede social.

Mas, enquanto as investigações eram realizadas, o submundo da internet já propagava a desinformação de que o PCC estaria disposto a atacar a embaixada dos EUA diante do risco de uma vitória de Flávio Bolsonaro.

A disseminação de um clima de tensão era tudo o que a Casa Branca pedia.

*Jamil Chade  percorreu mais de 70 países, cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade. É colunista do ICL Notícias

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