Ângela Carrato: Jornal Nacional manipula Lula na ONU

Tempo de leitura: 4 min
Presidente Lula discursa na abertura da Assembleia Geral da ONU. Para manipular, Jornal Nacional reduz importância. Fotos: Ricardo Stuckert/PR e tela do JN

Por Ângela Carrato*

Qualquer estudante de primeiro período de Jornalismo sabe que a principal chamada do Jornal Nacional, na edição desta terça-feira (22/9), deveria ter sido para o discurso do presidente Lula, na abertura dos trabalhos da ONU.

Nos meios políticos, nacional e internacional, a fala de Lula estava sendo muito aguardada, porque representava um momento de confronto da posição multilateralista e em defesa da soberania nacional com o autoritarismo e o imperialismo expressos por Donald Trump.

Apesar de ter feito um discurso exemplar, abordando a falência do atual modelo da ONU, em que algumas potências possuem o anacrônico poder de veto, de reafirmar a soberania nacional -“o Brasil não cabe no quintal de ninguém” – de criticar, sem citar nomes, os Estados Unidos pelas guerras em várias partes do mundo e pela ingerência na América Latina, os editores do JN, do alto de sua subserviência à família Marinho, decidiram que o assunto que deveria abrir a edição era a morte do cantor sertanejo Rick, num acidente de helicóptero.

Morte de artista em acidente é sempre notícia, mas ela poderia ter sido dada no segundo, terceiro ou mesmo no último bloco do JN, como foi feito com a morte do consagrado jornalista Zuenir Ventura.

Ao abrir a edição desta forma e, na sequência, dar destaque para a mirabolante defesa do ministro André Mendonça no sentido de que o STF não acolha o pedido de investigação contra ele feito pelo também ministro Alexandre de Moraes, o JN deixou patente a sua posição: minimizar a importância de Lula, como se seu discurso fosse algo de rotina, e transformar o ministro “terrivelmente evangélico”, em novo “salvador da pátria”.

O problema é que Mendonça deve muito mais explicações envolvendo seu relacionamento com o corrupto ex-banqueiro Daniel Vorcaro do que o próprio Moraes.

Isso, claro, o JN simplesmente esconde dos telespectadores.

Essas foram algumas pirotecnias contra o discurso de Lula, mas estavam longe de dar conta de toda a manipulação colocada em prática nesta edição do JN.

Ao invés de mostrar a enorme repercussão e acolhida do discurso de Lula junto aos presidentes e líderes políticos presentes na sessão, como indicam os aplausos que recebeu, o JN diluiu o fato numa chamada insossa e burocrática do tipo: o primeiro dia na agenda de reunião da ONU.

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E a manipulação não parou aí.

Ao invés de mostrar o discurso de Lula na ordem em que aconteceu, após apenas o do secretário-geral da entidade, António Guterres, que se despediu do cargo, o JN se deu o direito de divulgar o discurso de Trump, que foi após o de Lula, antes do de Lula.

Para quem não acompanha política internacional, a inversão pode ter passado despercebida, mas foi gravíssima.

Ficou parecendo que Trump pautou o discurso de Lula, quando foi exatamente o contrário.

Lula, com elegância, deixou nítida a prepotência e o imperialismo de Trump em relação ao Irã, à Venezuela e Cuba e, sobretudo em relação ao próprio Brasil.

Criticou a tentativa de ingerência nas eleições de outubro, reafirmou o compromisso democrático do seu governo e a excelência de nosso sistema eleitoral.

Ao discursar após Lula, Trump gastou 40 minutos – o dobro do tempo sugerido pelo evento – atacando meio mundo, dizendo que faz e acontece e insistindo em designar facções criminosas como o PCC e o CV como terroristas semelhantes à Al Quaeda.

Na maior cara de pau, César Tralli, Renata Vasconcellos e alguns repórteres dedicaram minutos e mais minutos para explicar a nova relação de Trump com a Groenlândia, mas não falaram absolutamente nada sobre a pressão de Trump sobre as eleições brasileiras.

Pressão que a própria Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) vê risco de aumentar.

Não é nenhuma novidade o Grupo Globo atuar contra a democracia e contra os interesses da maioria da população. Antes isso demorava a vir à tona, mas agora, com as redes sociais, é algo imediato.

Se depender da família Marinho e da maior parte da classe dominante brasileira, um preposto de Trump, como é o caso do lesa-pátria e corrupto, Flávio Bolsonaro, pode entregar o Brasil de porteira fechada para o Laranjão, desde que ela continue vivendo nababescamente.

Ainda bem que Lula resolveu se confrontar a esta turma, ao denunciar o fascismo que ronda a nossa democracia.

Ele é o único dentre os candidatos à Presidência da República, que não quer privatizar, que é pela ampliação das políticas públicas e entende que riquezas, como petróleo e terras raras, devem ser exploradas em benefício da maioria da população.

Como a família Marinho não quer nem ouvir falar nestes assuntos, não foi feita qualquer repercussão com políticos, empresários, líderes sindicais ou lideranças sociais. Repare que o JN acertadamente repercutiu as mortes de Rick e de Zuenir, mas impôs repercussão zero ao importantíssimo discurso de Lula.

Dito de outra forma, o JN está fingindo que cobre o governo Lula e a campanha eleitoral. Fingimento que se estende à tal “agenda dos candidatos”.

Neste espaço no JN, os candidatos de oposição falam qualquer coisa e não há contraditório.

Jornalismo não é isso. O fato de ser candidato não isenta a pessoa de ter compromisso com os fatos.

Em nenhum telejornal minimamente sério, por exemplo, Flávio Bolsonaro diria que quer ampliar o ensino tecnológico, sem ser perguntado como fará isso cortando verbas públicas para a educação, como sua equipe de campanha já deixou claro.

O mesmo em relação à proposta de Zema no sentido de pedagiar todas as rodovias brasileiras para melhorá-las. A péssima situação em que se encontram as rodovias mineiras, depois de dois mandatos seus, indica o desacerto da proposta.

O papel da mídia é mostrar isso para o cidadão e não apenas dar espaço para candidatos falarem qualquer coisa e ficar por isso mesmo.

Na ânsia de tentar derrotar Lula, o JN está se enterrando e enterrando o tal ”jornalismo profissional” que diz colocar em prática.

Se Lula, com este magnífico discurso na ONU, fez história, esta edição do JN também vai entrar para a história.

Só que pela porta dos fundos, como material para aula sobre manipulação jornalística.

*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG, a Universidade Federal de Minas Gerais.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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