Danilo Santana: O triatlo da hegemonia

Tempo de leitura: 4 min
A mobilização é vital para a conquista da hegemonia. Fotos: Danilo Santana e MST

Por Danilo Santana*

A luta de classes não é uma “corrida de 100 metros”, mas sim um “triatlo armado de ideias, esforços, erros, idas e vindas” que exige fôlego prolongado e estratégia em múltiplos terrenos. Nesse horizonte, as eleições deste ano configuram-se como o ponto inicial e incontornável para a decisão da disputa da hegemonia ideológica do Brasil.

Sabemos perfeitamente que essa não é uma tarefa fácil. Enfrentamos uma máquina de destruição brutal, alimentada por um ecossistema digital global, por recursos financeiros colossais e por uma extrema direita capilarizada e agressiva que não hesita em usar a mentira, o medo e o ódio como armas cotidianas.

Nessas eleições, o Partido dos Trabalhadores, o presidente Lula e os partidos da coligação carregam a responsabilidade de dar os primeiros passos de uma tarefa histórica colossal para frear esse avanço neofascista, consolidando o freio que começamos a impor em 2022.

Não se trata de um mero debate eleitoreiro, mas do ponto de partida para qualquer discussão possível sobre o futuro nacional. É preciso enxergar que a família Bolsonaro atua como a representante atual dos interesses da burguesia brasileira e norte-americana, mas que as ideias e projetos encarnados por figuras como Tarcísio de Freitas e Renan Santos são tão perigosos quanto para os anos seguintes, representando a mesma sanha de destruição dos direitos sociais sob novas e mais sofisticadas roupagens.

Como bem aponta a dinâmica da política nacional, o lulismo realizou a proeza de articular a liderança popular, mas a reflexão sobre onde está o trabalhador formal e precarizado é um alerta que não pode ser ignorado.

Embora Lula tenha estruturado com força a clivagem entre ricos e pobres, o campo progressista não pode perder de vista os trabalhadores que ganham de 2 a 5 salários mínimos, setores fundamentais que sentem o peso cotidiano do custo de vida, do endividamento e das pressões econômicas.

Para dialogar e recuperar esse recorte estratégico, o governo buscou responder a demandas concretas desse público através de iniciativas como o programa Desenrola, a isenção do imposto de renda e o novo Minha Casa, Minha Vida, costurando respostas materiais cruciais para esse mundo do trabalho.

Contudo, o grande nó górdio reside no fato de que essas medidas, embora vitais, esbarram na contradição de que o alívio econômico imediato e o consumo assistido não garantem, por si só, a adesão política duradoura.

Sendo um setor bombardeado cotidianamente pelo individualismo meritocrático e espremido pela inflação, essa base de trabalhadores frequentemente oscila, tornando-se suscetível a discursos reacionários que se colocam radicalmente contra qualquer ruptura do status quo, se o Estado não for capaz de politizar essa relação e oferecer um horizonte coletivo que vá muito além da sobrevivência econômica.

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Para além dessas medidas econômicas e institucionais que mudam a vida do povo, todas as ações governamentais precisam vir acompanhadas de um profundo debate ideológico para a conscientização da população. Afinal, não é fácil governar um país continental e riquíssimo em minérios, assim como não era fácil o torneiro mecânico se tornar presidente de um país continental.

É preciso enfrentar de frente a guerra de exploração e expropriação que o Norte Global tenta impor, compreendendo que o capitalismo opera como uma ordem social institucionalizada que vai muito além da economia de mercado, alimentando-se do confisco bruto de riquezas, terras e energias das periferias globais, o que torna a defesa implacável da soberania nacional diante da ofensiva dos Estados Unidos uma pauta central de sobrevivência.

O grande perigo que enfrentamos é que a inclusão material, por mais fundamental que seja, quando desacompanhada de conscientização política, deixa o campo vulnerável para que a reação conservadora coopte as insatisfações legítimas do povo. Quando a ação do Estado se restringe exclusivamente à gestão técnica e institucional, abre-se um vácuo que os discursos autoritários preenchem com bodes expiatórios e cortinas de fumaça.

Por isso, a disputa pela hegemonia exige transformar o Estado em uma ferramenta ativa de educação popular, onde cada avanço econômico venha umbilicalmente ligado à politização das bases e ao enfrentamento aberto das narrativas hegemônicas da burguesia.

Dar o ânimo necessário à militância e garantir a vitória nestas eleições cruciais, bem como pavimentar o caminho para um eventual governo Lula 4, exigirá encarar de frente uma autocrítica fundamental sobre os ciclos anteriores.

O grande calcanhar de Aquiles dos três governos anteriores de Lula e dos dois governos de Dilma foi justamente a falta de mobilização popular e a desmobilização do ânimo da militância, confiando excessivamente na estabilidade institucional e abrindo mão da disputa ideológica cotidiana nas bases.

Por incrível que pareça, o período recente entre 2023 e 2026 demonstrou sinais vitais muito mais promissores de disputa na sociedade através de debates combativos puxados por lideranças como Guilherme Boulos, Érika Hilton, Rick Azevedo, Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias, Glauber Braga, Sâmia Bomfim e Rui Falcão, que colocaram na ordem do dia o enfrentamento a um congresso inimigo do povo, a luta pelo fim da escala 6×1 e a defesa intransigente da soberania nacional.

Vivenciamos o cenário do clássico interregno em que “o velho está morrendo e o novo não pode nascer; e, neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”. Para superar esse impasse, é preciso abandonar a acomodação e resgatar essa energia de base.

Em última análise, a batalha que se avizinha, tanto agora nas urnas quanto nos desafios complexos de um próximo mandato, exige que as forças progressistas rejeitem qualquer acomodação. Não se trata de acreditar de forma absoluta que a esquerda está 100% institucionalizada e engessada, mas sim de compreender que devemos ter os pés tanto na institucionalização quanto na massa.

Se quisermos construir um Brasil soberano, democrático e livre das amarras da expropriação, a vitória deve funcionar como a faísca que acende a fogueira da transformação permanente, provando que a verdadeira emancipação não se decreta de cima para baixo, mas se conquista cotidianamente enfrentando adversidades gigantescas no suor da militância e na marcha coletiva de todo o povo.

Danilo Santana é secretário de formação da Juventude Estadual do PT de São Paulo

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