Marcelo Zero: Lula x Trump (É a geopolítica, estúpido!)

Tempo de leitura: 4 min
Os presidentes Lula e Trump. Fotos: Ricardo Stuckert/PR e reprodução

Por Marcelo Zero*

Flávio Bolsonaro é apenas um proxy do seu pai, Jair Bolsonaro. Tivesse outra ascendência e sobrenome, não seria candidato nem a síndico de barracos controlados pela milícia do Rio de Janeiro. Na Kopenhagen, não passaria de vendedor. Esse sujeito, devido às suas conhecidas (des) qualificações intelectuais, éticas e políticas, não tem a menor condição de ser presidente do Brasil.

Sua eventual vitória significaria, portanto, a volta ao poder de Jair Bolsonaro, um condenado por tentativa de golpe de Estado, um admirador de ditaduras, um aliado das milícias e o grande responsável pela morte de 700 mil brasileiros na pandemia. Significaria eleger, de novo, o pior presidente da história do país.

Jair só se destacou, na política nacional, a partir do lavajatismo e da onda da antipolítica, do antipetismo e do antiesquerdismo que tomou de roldão o país depois do golpe contra a presidente Dilma, com o apoio da extrema-direita dos EUA.

Não fosse isso, seu brilho opaco teria ficado restrito, ad aeternum, aos meandros corruptos do baixo clero do Congresso e às ligações perigosas com as milícias do Rio de Janeiro. Essa é a sua real dimensão. A dimensão do mau militar, como definida por Geisel, e a envergadura nanica do pior tipo possível de político.

Mas Jair, por sua vez, é apenas, nas atuais circunstâncias, um proxy de Trump.

Temos, assim, dois proxies do real candidato ao poder no Brasil: Donald Trump. Candidato a imperador, diga-se. E a um imperador draconiano, à moda antiga, bem longe da moderação de um Pedro II, por exemplo. Está mais próximo de figuras como Nero ou Calígula, que deixaram marcas indeléveis na história da infâmia mundial.

As revelações, trazidas ao público recentemente, sobre as exigências que Trump apresentou ao governo brasileiro, em outubro de 2025, para negociar o abrandamento das tarifas políticas impostas injustamente ao país, por sugestão do clã Bolsonaro, mostram a extensão e a profundidade da agenda de vassalagem que o candidato a Imperador do Brasil pretende impor ao país.

Destacamos, na tabela a seguir, as principais.

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O governo Lula, obviamente, rejeitou essas exigências dos EUA porque elas atentavam, tanto no âmbito político como no econômico, contra a soberania nacional. O governo Lula persistiu, frise-se, na defesa dos interesses nacionais mesmo depois que algumas dessas exigências estapafúrdias foram relativamente abrandadas.

Afinal, não existe meia soberania. Ou se é soberano ou não se é.

Não há dúvida possível: Trump e Marco Rubio querem transformar o Brasil “na bola da vez” geopolítica, com o prestimoso e sabujo auxílio do clã Bolsonaro e dos seus aliados, espalhados pela mídia, por outros partidos e por setores de oligarquias entreguistas e reacionárias.

Querem transformar o Brasil em um estado vassalo, em uma espécie de protetorado. Eles sabem que a submissão geopolítica do país é vital para que os EUA possam impor a chamada Doutrina Donroe em todo o continente. Nosso país pesa muito nessa estratégia neoimperial.

Até a Abin já sabe que o imperador Trump está intervindo no processo eleitoral brasileiro, com o intuito de beneficiar seus proxies, Jair e Flávio Bolsonaro.

Alguém duvida?

Trump tem à sua disposição, entre outros vastos recursos, a NSA, a CIA e as grandes Big Techs. É um arsenal político e comunicacional de extremo poder, já testado em inúmeras ocasiões pelo mundo todo em “câmbios de regimes”.

Será que a recente virada política da América do Sul praticamente toda para o campo da direita e da vassalagem geopolítica se deu de maneira realmente espontânea? Ocorreu somente devido a fatores internos?

Será que a crise do nosso Supremo, tão oportuna para certos interesses eleitorais, ocorreu de forma automática e natural, como fungos que crescem depois da chuva?

Será que a decisão de trazer sofisticados drones de ataque para a América do Sul destina-se somente à cândida intenção de combater “criminosos”?

Todo o mundo possui o direito de acreditar no que quiser, mas ninguém tem o direito, em um momento crucial como este, de ser estúpido ou ingênuo. Nem na Groenlândia há mais esse direito. Todos têm o dever de proteger o Brasil, sua soberania, sua democracia e seu povo.

Às vezes não é a economia, ou a percepção da economia, ou a comunicação falha ou a suposta falta de propostas.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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