Gustavo Guerreiro: A proposta ‘nacionalista’ de Ciro Gomes, entregar o Ceará ao Serviço Secreto de Israel

Tempo de leitura: 6 min
Ao propor o Mossad, Serviço Secreto de Israel, para orientar a segurança pública do Ceará, o candidato Ciro Gomes parece ignorar a atuação dessa agência em Gaza e Cisjordânia. O Mossad faz parte das forças militares israelenses responsáveis pela matança de milhares e milhares de palestinos, a maioria crianças. Ou seja, o Mossad está envolvido no genocídio do povo palestino: Fotos: MSF, OCHA e reprodução de redes sociais

Por Gustavo Guerreiro*

Ninguém em sã consciência nega o tamanho da tragédia que se abate sobre a segurança pública, não só no Ceará, mas em todo o Brasil. Há anos as facções criminosas atuam de forma brutal, demarcando territórios, impondo toques de recolher, executando jovens e transformando bairros inteiros em zonas de conflito permanente.

São mães que enterram filhos com cada vez com mais regularidade. Isso, por si só, já deveria envergonhar toda a classe política. Mas esse debate merece algo melhor do que a leviandade oportunista de Ciro Gomes, que decidiu inserir na equação trágica das periferias a participação do Mossad, o famigerado serviço secreto de Israel.

Em entrevista ao programa Jangadeiro Eleições, da Band News FM, Ciro afirmou que pretende preparar um grupo de mil profissionais com treinamento da inteligência (agência de espionagem) israelense. Nega ser sionista e justifica que se trata do “melhor experimento de inteligência e de tecnologia, dado que eles vivem ali cercados”.

Astuto como é, ele inverte a ordem. Israel é a ponta de lança do imperialismo e empreende guerras de extermínio desde 1948, com apoio dos EUA e potências da Europa. A quem pensa que engana?

Ciro tem grande capacidade de analisar cenários e de propor estratégias para o enfrentamento de vários problemas. Mas é frequente em sua retórica, recheada de aspectos técnicos, números e percentuais na ponta da língua, a inserção de armadilhas retóricas que escapam aos mais desavisados.

Na segurança pública, ele oferece uma falsa solução, entregando as chaves de um problema à espionagem sionista, acostumada a confinar em guetos, bombardear e exterminar populações inteiras, sobretudo crianças e mulheres.

Primeiramente, permita-me explicar o embuste mais utilizado como argumento: a violência em nosso estado não se deve à incompetência desse governo, mas a processos contínuos ao longo de décadas. O narcotráfico no Brasil e na América Latina é uma tragédia social, ao negar oportunidades e dignidade às camadas mais vulnerabilizadas, empurrando-as para um poder paralelo que hoje devora a própria sociedade que o criou.

Culpar o governo atual tornou-se o atalho preferido por qualquer um que deseje evitar falar sobre algumas causas em questão, para não mencionar soluções. Ciro compreende esta questão particular e todos os seus problemas inerentes. Por isso, suas propostas nos deixam espantados diante de seu ágil raciocínio: porque ele tem mais conhecimento do que a média, mas escolhe uma abordagem que o faz parecer o mais espetacular e mais honesto.

Adotar o Mossad como um parceiro para a segurança pública dificilmente pode ser considerado um mero detalhe; representa nada menos do que o atestado completo de seus objetivos. Portanto, caro leitor, antes de prosseguir com outros argumentos, permita-me explicar exatamente o que essa agência realmente é.

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Quanto ao próprio Serviço Secreto de Israel: o Mossad nada mais é do que uma organização de inteligência que trabalha com missões fora de suas fronteiras. Serviços de inteligência dessa natureza geralmente se especializam em assassinatos seletivos no exterior, casos de sabotagem contra outros países e espionagem envolvendo operações secretas que frequentemente violam as fronteiras territoriais de vários países.

Assim faz Israel, viola frequentemente o direito internacional. Isso não é a mesma coisa que combater grupos de criminosos de bairro. O Mossad não é um órgão policial. Esta agência refere-se a uma organização estabelecida puramente para fins de guerra, atuando em áreas consideradas fora do alcance dos direitos humanos. Seu modus operandi, guerra de cerco acoplada à vigilância total, seguida pela aniquilação física de massas de habitantes anteriormente desumanizados, levou-os a diversos absurdos.

Nesse sentido, Gaza e Cisjordânia atuam como campos de teste contínuos, nos quais certos valores da humanidade são destroçados em cenários da vida real. E, portanto, a ideia da “segurança total” deve ser vendida ou tornada útil aos brasileiros que vivem perto das partes empobrecidas do nosso país.

Afinal, quem mais teria tanta capacidade quanto quem consegue se defender de terroristas e de Estados hostis? A partir disso, são oferecidos serviços específicos para problemas daqui, permitindo que se livrem rapidamente desses problemas e lucrando horrores!

A aliança com o Mossad não permaneceria como um caso isolado, mas seria mais um passo na estratégia de equiparar criminosos a terroristas. À primeira vista, a equação poderia parecer apenas retórica, se analisada por sua própria aparência. 

De forma pragmática, os resultados seriam desastrosos, pois, com facções criminosas descritas como terroristas, forças estrangeiras ganhariam ainda mais força para classificar áreas do território nacional como zonas de operações antiterroristas, envolvendo a suspensão de garantias sobre algumas liberdades civis.

Com essa proposta, as periferias do Ceará se transformarão em campos de operação com serviços de espionagem internacionais com interesses obscuros. O estado seria transformado pelos próprios cidadãos em um território sob a influência de um serviço secreto controlado por forças externas, mantendo toda a sua população sob vigilância constante. Este serviço reporta-se unicamente a objetivos alheios à soberania nacional.

E aqui a pergunta incômoda se impõe. Qual o real intuito dessa colaboração? Em que uma agência voltada para espionagem externa poderia contribuir para o combate à criminalidade cearense? Atividade de inteligência não é caridade! A coleta, o mapeamento, a espionagem, o treinamento de forças locais, nada disso é gratuito ou sem compensação estratégica.

Entregar a segurança pública a um Estado estrangeiro para espionar significa abrir arquivos e redes brasileiras para outros interesses geopolíticos. Protegemos nossa soberania não com discursos inflamados, mas com a guarda do sistema nervoso da defesa nacional. Inserir uma agência de um país terrorista fere os princípios da Constituição Federal, como o respeito à autodeterminação dos povos, a não intervenção e à solidariedade internacional.

A proposta de Ciro é um ato de autossabotagem. O pretenso nacionalista, que construiu sua carreira denunciando que o Brasil cedia a interesses estrangeiros, agora pretende a rendição mais íntima e perigosa que existe.

Em diversas entrevistas e debates, Ciro Gomes expôs seu programa de governo na área de segurança pública. Suas principais propostas focam no uso intensivo de tecnologia e no isolamento rigoroso de lideranças criminosas em presídios de segurança máxima para retomar o controle das ruas e na luta contra a cooptação de jovens pelo crime.

É a fórmula básica, mas é apenas retórica. A proposta concreta de enviar contingentes inteiros para treinamento com a inteligência terrorista de Israel coloca em xeque todo seu discurso. Qual é o intuito, de fato? É combater facções por meio de uma guerra de estilo colonial e transformar as áreas periféricas das cidades em territórios oficialmente ocupados? Os moradores perderão todos os direitos civis e de cidadania e serão transformados em danos colaterais de uma guerra não declarada?

Quando Israel controla Gaza por meio do estrangulamento do espaço urbano, encontra bairros para cercar e separar e estradas para segregar e conter. Executa uma arquitetura de controle espacial. Adotar o modelo israelense para o Ceará é aceitar que a vida tem menos valor dentro desses territórios. A necropolítica descrita por Achille Mbembe encontra sua versão alencarina. O poder de determinar quem deve viver ou morrer passará para as mãos de quem há muito tempo provou ser mestre na gestão industrial da morte.

A covardia sistêmica da proposta de Ciro não levou em conta como as armas e drogas passam pelos portos privatizados, nem o sistema bilionário de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas por meio de bancos e da Faria Lima. Não dialoga com o esforço do governo federal em combater a essência do crime, como mostrado na Operação Carbono Oculto. Nenhum tipo de esquema em que o empresariado e instituições insuspeitas possam se beneficiar da circulação de recursos ilícitos é questionado.

Ao propor treinamento do Mossad, Ciro foca no elo mais descartável, atacando a partir daí: aquele jovem na periferia que empunha armas com estradas de terra sob seus pés.

A violência sistêmica do capital permanece intocável na medida em que a repressão atinge o corpo mais fraco. A proposta de Ciro apenas seguiria a antiga lei, aquela que deixa o burguês no tráfico de drogas e esmaga o pobre; essa é a punição seletiva brasileira por excelência. Deixa os ricos intocados enquanto esmaga os pobres.

Aqui a desculpa clássica de que isso era apenas um comportamento “duro, prático” surge facilmente. É, na verdade, apenas uma cópia patética da extrema direita – a qual se agarra com sofreguidão –, um exemplo desse colapso vergonhoso de reacionários que tentam lucrar com a impotência de uma população cheia de medo.

Este episódio é singularmente perturbador devido à contradição insolúvel experimentada por qualquer um (político) que se declare arauto da soberania nacional. Como poderia um líder nacionalista declarado querer entregar dados e informações secretas sobre as vidas de seus compatriotas diretamente nas mãos de um serviço de inteligência não brasileiro?

A única coisa que parece ser revelada aqui, é o desastre do projeto, que, desesperado para retornar à agenda das pesquisas eleitorais, abandona todo e qualquer princípio ético de autonomia para se ajoelhar diante da guerra imperialista e de suas políticas.

Enfim, restarão dois caminhos. De um lado, o direito à vida e à plena cidadania para os jovens negros, indígenas e periféricos do Ceará, com investimento, presença do Estado e confrontação séria das finanças do crime. Do outro, a institucionalização de um gueto militarizado, conduzido por mercenários mundiais sob as bênçãos de um pretenso estadista.

A catástrofe, que para Walter Benjamin é o acúmulo perpétuo de ruínas sob a falsa aparência de progresso, deixa de ser uma abstração histórica e se torna uma realidade palpável, inscrita na carne e no território.

Ciro não oferece futuro. Ele oferece a administração da barbárie com selo de importação. O ponto não é discutir se esse” modelo funciona” o que realmente importa é: até quando os cearenses aceitarão transformar a si mesmos e seus próprios filhos em alvos de uma guerra que não é deles?”

*Gustavo Guerreiro é indigenista, doutor em Políticas Públicas e pesquisador do Observatório das Nacionalidades

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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