Por Marcelo Zero*
É óbvio que a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas abre caminho para toda sorte de intervenções no Brasil, inclusive militares.
Isso aconteceu na Venezuela, na Colômbia, no México e no Equador, principalmente em ataques contra embarcações supostamente a serviço do narcotráfico.
Até 25 de março de 2026, pelo menos 163 pessoas haviam sido mortas (incluindo 3 que estão desaparecidas e presumivelmente mortas) em 47 ataques a 48 embarcações, incluindo 15 embarcações atingidas no Mar do Caribe, 31 no Pacífico Oriental e duas em local não especificado.
No caso da Venezuela, houve também um grande ataque em terra, que resultou na morte de cerca de 50 pessoas e no sequestro do seu chefe de Estado, Nicolás Maduro. Também houve o bombardeio da casa de um suposto líder da organização Tren de Aragua. No Equador, houve o bombardeio de um suposto local de narcotráfico, que acabou revelando-se uma mera fazenda de leite.
Essas ações ilegais do governo Trump despertaram alarme nas Nações Unidas.
Quando houve o ataque à Venezuela, o Secretário-Geral, António Guterres emitiu a seguinte nota:
“O Secretário-Geral está profundamente alarmado com a recente escalada na Venezuela, que culminou na ação militar dos Estados Unidos no país hoje, a qual traz implicações potencialmente preocupantes para a região.
“Independentemente da situação na Venezuela, esses acontecimentos constituem um precedente perigoso. O Secretário-Geral continua a enfatizar a importância do pleno respeito — por parte de todos — ao direito internacional, incluindo a Carta da ONU.”
Em uma coletiva de imprensa realizada em 1º de dezembro do ano passado, a Casa Branca reiterou que “o presidente deixou bem claro que, se narcoterroristas estiverem traficando drogas ilegais para os Estados Unidos, ele tem autoridade para matá-los”.
Nos últimos tempos, a Delta Force, força especial dos EUA, vem realizando operações clandestinas, “black-ops”, na costa do Oceano Pacífico no México, em especial na península de Baja.
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Assim sendo, o perigo de alguma intervenção militar no Brasil, por parte dos EUA, é concreto, muito embora o PCC e o Comando Vermelho não exportem drogas para os EUA. Essas organizações criminosas exportam drogas principalmente para a África e a Europa. Frise-se, ademais, que as autoridades brasileiras sempre cooperaram ativamente com os EUA e outros países para combater o narcotráfico e outros ilícitos internacionais.
Mas as ameaças de violência militar não incluem apenas o narcotráfico. O Panamá foi ameaçado de invasão, caso não retirasse companhias chinesas de operações no Canal homônimo. Na recente reunião da Otan, Trump voltou a ameaçar a Dinamarca e a Groenlândia. Cuba, que não consegue exportar nada por causa das draconianas sanções, está sob forte ameaça. A Doutrina “Donroe” vem sendo aplicada de forma exemplar.
Trump é capaz de tudo. Tem completo desprezo pela soberania de outros países e pelas regras mais elementares do direito internacional. Só um idiota duvida disso. Mauro Vieira, um diplomata extremamente competente e dedicado ao Brasil, está muito longe de ser um idiota. Sabe bem do que fala, ao contrário de outros.
Se o governo Trump considerar que o Brasil “não está fazendo o suficiente”, agirá unilateralmente, como de hábito. De forma aberta ou clandestina.
Os bolsonaristas, é óbvio, aplaudirão. É da natureza dos traidores.
*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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