Nelice Pompeu: Uma reflexão sobre debate político e compromisso com a educação pública
Tempo de leitura: 5 min
Por Nelice Pompeu*
Somos profissionais da educação da rede municipal de ensino da cidade de São Paulo: eu sou professora e o Tiago é coordenador pedagógico de um centro de educação infantil da rede direta. Atuamos diretamente no cotidiano das escolas públicas e na defesa da educação pública.
Como fizemos algumas críticas públicas, desde o mês de maio os ataques se intensificaram e nós temos sido alvo de uma série de situações que vamos denunciar e esclarecer neste texto.
Diante desse contexto de ataques que temos recebido, consideramos importante fazer alguns esclarecimentos.
Não somos candidatos a nenhum cargo nessas eleições. Ainda assim, como qualquer cidadã e cidadão, professores e pessoas comprometidas com a educação pública, temos nossas convicções, posições políticas e nossas candidatas e candidatos, o que é absolutamente legítimo.
Ainda que fôssemos candidatos, não haveria nada de errado nisso. Participar da vida política, defender ideias e apoiar projetos nos quais acreditamos é um direito democrático e constitucional.
Fazemos questão de afirmar que as candidatas que apoiamos atuam em diversas frentes, nunca foram enquadradas como ficha suja e nem acusadas de corrupção. Apoiar uma candidatura dentro dos princípios da legalidade, da ética e da democracia não pode ser usado como justificativa para perseguições ou ataques pessoais.
Também reafirmamos que vivemos em um país democrático, no qual a liberdade de expressão é um direito garantido constitucionalmente. Em nenhum momento utilizamos essa liberdade para diminuir, humilhar ou atacar pessoas. Nossas manifestações sempre se deram no campo da divergência legítima de posturas sindicais, estratégias políticas e posicionamentos públicos. E é fundamental lembrar que toda entidade sindical, como qualquer instituição que atua na esfera pública, está sujeita a críticas, questionamentos e debates.
Desde que passamos a fazer críticas a algumas entidades sindicais da educação, passamos também a ser alvo de ataques que abandonam o debate político e recorrem à violência pessoal.
Tiago foi alvo de ataque covarde de homofóbia recreativa e, muito provavelmente, essa perseguição também se intensificou por ele ter se posicionado publicamente ao meu lado e por defender o direito ao debate e à pluralidade de opiniões.
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No meu caso, passaram a circular elementos da minha vida pessoal, questões de saúde e montagens ofensivas, misóginas, com tentativas permanentes de exposição e constrangimento público.
Para que se compreenda a gravidade desse contexto, é importante registrar alguns episódios.
No dia 10 de junho de 2026, após a Jornada Pedagógica da Educação Infantil realizada no CEU Parque Bristol, tomei conhecimento de que uma dirigente sindical estaria me aguardando na saída do evento. Em seguida, circularam mensagens em grupos de WhatsApp afirmando que eu teria “fugido” e utilizando a expressão “quero ver olho no olho”, numa clara tentativa de intimidação e constrangimento.
Além disso, passaram a circular em grupos de WhatsApp e Facebook montagens que associam meu sobrenome ao personagem fictício Dr. Pompeu Pompilho Pomposo, com o objetivo de ridicularização e ataque à nossa honra e reputação profissional. Esses conteúdos vêm acompanhados de comentários depreciativos, enquanto permanecemos bloqueados em determinados espaços, sem possibilidade de resposta.
Também é importante registrar que administradores de alguns desses grupos integram a direção de um dos sindicatos que se apresenta como representante da educação, o que torna a situação ainda mais grave. Espaços que deveriam ser de diálogo e respeito não podem ser utilizados para perseguições e ataques pessoais.
Isso não é debate. Não é luta sindical. Não é democracia.
Trata-se de uma prática que tenta deslegitimar pessoas quando não se consegue enfrentar argumentos, um verdadeiro escritório do ódio.
Ainda assim, não vamos nos igualar a isso. Esses ataques dizem muito mais sobre quem os pratica do que sobre nós.
Também têm tentado desqualificar a luta, a história e o legado do Movimento Escolas em Luta, ignorando deliberadamente quem somos.
Não somos sindicato. Não somos mandato parlamentar. Somos trabalhadoras e trabalhadores da educação pública, no chão da escola todos os dias, vivendo a realidade da rede municipal e construindo coletivamente essa luta.
E ninguém aqui busca fama ou likes, até porque nem candidatos somos.
Nesse contexto, ficou evidente por que os sindicatos da educação não queriam a unificação.
A campanha salarial deste ano terminou de forma vexatória, vergonhosa e humilhante, com a tentativa de se vender uma vitória que não existia. O fato de o prefeito ter retirado do protocolo de entendimento o item que trata da transformação do cargo de PEI para PEIFI professor de educação infantil para professor de ensino fundamental I não elimina a gravidade do processo, pois a lei permanece em vigor.
Na assembleia que deliberou o encerramento da greve, foram apresentadas narrativas que induziram muitos trabalhadores ao erro. Quando parte da categoria percebeu que o item não constava no protocolo e que a legislação permanecia válida, muitos se sentiram enganados, não apenas nós, mas diversos profissionais da rede.
Enquanto muitos se distraíam com a narrativa do subsídio, transformada quase em uma lenda, o ataque mais grave estava sendo preparado em silêncio.
O que foi aprovado, na prática, aponta para o esvaziamento da carreira e impactos diretos na educação infantil da rede direta do município de São Paulo. Apesar das chamadas de concurso, a lei de transformação do cargo segue vigente e essa foi uma denúncia que fizemos publicamente.
Nesse cenário, também se evidencia uma realidade que não é nossa responsabilidade: há pessoas perdendo filiados, credibilidade e a confiança de trabalhadores que, ao longo do tempo, se sentiram enganados.
Não temos culpa por isso.
E é importante dizer com franqueza: se parte da categoria está insatisfeita com sindicatos, sentindo-se desamparada ou distante de suas entidades representativas, essa responsabilidade não é nossa. Apenas temos expressado publicamente insatisfações que já existem há muito tempo e que encontram eco entre muitos trabalhadores e trabalhadoras da educação.
Em vez de uma postura autoritária, que rejeita críticas e tenta silenciar quem pensa diferente, seria mais produtivo uma autoanálise séria sobre os caminhos adotados. A crítica é parte da vida democrática e sindical. Culpar quem aponta problemas não resolve os problemas existentes.
Fica, inclusive, a sugestão de escutar mais a categoria, ouvir angústias, frustrações e reivindicações de quem está no chão da escola, sem transformar toda crítica em ataque pessoal ou responder com perseguições e intimidações. Essa não é uma postura sindical. Um sindicato se fortalece quando dialoga, acolhe divergências e respeita a pluralidade de opiniões.
Ao contrário, muitos colegas nos procuraram para manifestar solidariedade e relatar o quanto ficaram chocados com o nível das agressões. A todos eles, nosso agradecimento.
Também reafirmamos que vivemos em um país democrático e a liberdade de expressão é um direito constitucional. Em nenhum momento utilizamos esse direito para atacar ou humilhar pessoas. Nossas manifestações sempre se deram no campo da crítica política e sindical, o que é legítimo e necessário.
O que temos presenciado, no entanto, ultrapassa qualquer limite do debate democrático.
Diante disso, reafirmamos que não vamos nos calar.
Não nos intimidam montagens, insinuações ou ataques pessoais. Nossa resposta continuará sendo o trabalho sério, a presença cotidiana nas escolas e a defesa da educação pública.
Não vamos parar.
Quanto mais nos atacam, mais evidenciam que estamos incomodando.
Seguiremos firmes, porque nossa força não nasce do ódio, mas do compromisso com a educação pública e com a confiança construída no chão da escola.
Em uma democracia, discordar não é atacar. Criticar não é perseguir. Divergir de posturas sindicais não é desrespeitar pessoas. O que não pode ser normalizado é a substituição do debate por intimidação e ataques pessoais.
Não vão apagar nossa história. Não vão interromper o trabalho que construímos coletivamente. Seguiremos em frente.
*Nelice Pompeu é professora e integra o Movimento Escolas em Luta.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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