Juliana Cardoso: Por que não há escolas civico-militares para os filhos dos ricos?

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Por Juliana Cardoso

Daniel Arrayo / Ponte Jornalismo - para Midia Ninja

Por Juliana Cardoso*

Há algo de curioso, para não dizer sintomático, na defesa apaixonada das escolas cívico-militares como panaceia educacional para o Brasil profundo. A promessa é sedutora: disciplina, ordem, respeito, hierarquia. Em suma, obediência.

Tudo aquilo que, segundo os arautos da moralidade pública, faltaria às escolas frequentadas pelas camadas populares.

Mas a pergunta incômoda permanece: obediência a quem?

O discurso oficial apresenta a militarização como um antídoto contra a indisciplina e o baixo desempenho. A escola, dizem, precisa de pulso firme. Curiosamente, essa pedagogia do comando e controle raramente é oferecida às elites.

Não se vê um clamor por colégios cívico-militares nos bairros mais abastados, nem filas de empresários exigindo que seus filhos aprendam a marchar antes de aprender a argumentar.

Pelo contrário. A elite econômica matricula seus herdeiros em escolas construtivistas, montessorianas, waldorfianas, ambientes nos quais se estimula a autonomia intelectual, o pensamento crítico, a criatividade e a liderança. Ali, a criança é encorajada a perguntar por quê.

Já nas periferias, a ênfase recai sobre o sim, senhor. É uma cisão pedagógica que beira o cinismo.

Enquanto uns aprendem a solucionar problemas complexos, a negociar conflitos, a desenvolver projetos e a assumir protagonismo, outros são treinados para cumprir protocolos, respeitar cadeias de comando e internalizar a hierarquia como ordem natural das coisas.

A diferença não é meramente metodológica; é ontológica. Trata-se de formar sujeitos para ocupar posições distintas na estrutura.

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Trata-se de formar sujeitos para ocupar posições distintas na estrutura social. Há algo de profundamente revelador na assimetria. A disciplina, quando imposta aos pobres, é vendida como emancipação. A liberdade criativa, quando oferecida aos ricos, é tratada como investimento.

Basta reparar qual das duas formam futuros gestores e qual forma futuros subordinados. Defensores do modelo argumentam que a militarização melhora indicadores de desempenho e reduz conflitos.

Ainda que tal premissa fosse universalmente comprovada, o que está longe de ser consenso, a questão permanece: por que a solução eficiente é sempre testada primeiro nos que têm menos poder de escolha?

Por que a pedagogia da obediência se destina quase exclusivamente às escolas públicas de regiões vulneráveis?

Talvez porque a escola nunca seja apenas sobre conteúdo. Ela é, sobretudo, um dispositivo de socialização. E socializar é ensinar qual é o seu lugar.

Quando a educação dos mais pobres se orienta pela lógica da hierarquia rígida e da disciplina vertical, transmite-se uma mensagem implícita: o mundo é assim, e sua função é adaptar-se a ele.

Já quando a educação dos mais ricos privilegia a autonomia e o questionamento, a mensagem é outra: o mundo é maleável, e você pode transformá-lo.

Não é preciso grande esforço hermenêutico para perceber que estamos diante de um projeto de sociedade, não apenas de um projeto pedagógico.

A ironia maior é que a mesma classe média alta que defende a militarização como necessária dificilmente aceitaria que seus próprios filhos fossem submetidos a revistas de mochila, códigos de vestimenta rígidos ou rituais diários de continência.

Para eles, a disciplina deve ser internalizada por meio do diálogo, da mediação e do desenvolvimento socioemocional, termos caros às consultorias educacionais. Para os outros, basta o apito.

A pergunta que deveria nortear o debate é simples e desconcertante: estamos formando cidadãos ou conformando súditos?

A educação pública deve aspirar a ampliar horizontes ou a estreitá-los?

Queremos jovens capazes de contestar injustiças ou apenas de cumprir ordens sem titubear?

A defesa acrítica das escolas cívico-militares parece menos preocupada com a qualidade do ensino e mais com a gestão do comportamento. A escola deixa de ser espaço de formação crítica e passa a ser laboratório de contenção social. É a pedagogia da docilidade, eficiente, silenciosa e funcional.

Não se trata de demonizar a disciplina, que é componente indispensável de qualquer processo formativo sério. Trata-se de perguntar quem a define, para quem ela serve e por que ela se distribui de maneira tão seletiva.

Se a obediência é virtude tão inquestionável, por que ela não é universalizada?

Por que não há escolas militares para os filhos dos ricos?

Talvez porque, no fundo, ninguém deseje que os futuros donos do poder aprendam a obedecer. Eles precisam aprender a mandar.

*Juliana Cardoso é deputada federal eleita de São Paulo para o mandato 2023/2026. É presidenta da Comissão dos Povos Originários e Amazônia e vice-líder da bancada do PT. Faz parte da Comissão de Saúde, Comissão de Cultura e de Mulheres.

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Juliana Cardoso

Deputada Federal (PT) eleita para o mandato 2023/2026.


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