Gustavo Guerreiro: O Nordeste, o ITA e a soberania tecnológica

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Campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), na Base Aérea de Fortaleza (CE). Foto: Reprodução

Por Gustavo Guerreiro*

Existe algo profundamente simbólico no fato de o Ceará, essa “Terra da Luz” que um dia iluminou o abolicionismo brasileiro, converter-se agora no novo epicentro da inteligência aeroespacial nacional.

A recente inauguração da primeira unidade do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) fora de São José dos Campos (SP), em território cearense, não é meramente um evento burocrático ou um gesto de descentralização federativa; é, acima de tudo, um manifesto.

É a evidência de que a inteligência brasileira, quando não é estrangulada pelo garrote da austeridade seletiva, insiste em germinar nos lugares onde a meritocracia costuma enxergar somente carência.

Porém, além da comemoração, o episódio nos força a um confronto desconfortável com o espelho.

Enquanto festejamos a ampliação de uma ilha de excelência, o restante do oceano educacional brasileiro batalha para não submergir sob o peso de uma mentalidade rentista que confunde investimento estratégico com despesa corrente.

Observar o ITA sendo estendido no Nordeste exige que olhemos, ao mesmo tempo, para o que ocorre do outro lado do planeta. Não é por acidente, nem por capricho do destino geopolítico, que a China acaba de superar os Estados Unidos em impacto e volume de pesquisa em ciência e tecnologia.

Conforme dados recentes do Nature Index e de classificações universitárias globais, como a da Times Higher Education, as universidades chinesas (outrora vistas com o desprezo reservado às réplicas baratas) agora lideram as áreas de engenharia, física e inteligência artificial.

O que Pequim compreendeu, e que nós teimamos em ignorar entre uma reunião de Copom e outra, é que a soberania no século XXI não se adquire da boa vontade internacional; ela se cultiva em laboratórios, se forja em salas de aula e, sobretudo, se financia com uma determinação que ignora o pânico histérico dos mercados financeiros diante de qualquer centavo aplicado no futuro humano.

A ascensão chinesa não foi um milagre, mas um projeto de engenharia social e política, que só um modelo socialista pode proporcionar.

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Em duas gerações, a China converteu uma massa de camponeses em uma legião de engenheiros e cientistas.

Não o fez obedecendo à cartilha do consenso de Washington ou às preces dos “faria limers” locais, que enxergam no Estado um empecilho e na universidade pública um luxo dispensável.

Fez o contrário: transformou o capital intelectual no principal ativo de uma nação que almeja não apenas crescimento econômico, mas autonomia estratégica e paz social.

Enquanto o Brasil se enreda em discussões bizantinas sobre o “teto de gastos”, criação autofágica que trata a educação da mesma maneira que trata o custeio de uma mercearia, a China destina fatias crescentes do seu PIB à pesquisa de base, compreendendo que o custo da ignorância é infinitamente maior do que o déficit nominal de qualquer exercício fiscal.

No Brasil, contudo, somos persistentemente persuadidos de que nossa vocação natural é ser a “fazenda do mundo”. É uma tese sedutora para quem lucra com o dólar elevado e a exportação de commodities sem valor agregado.

Para essa elite, a universidade pública brasileira é, frequentemente, retratada como um reduto de ineficiência, formação de maconheiros ou um ralo de recursos.

Ignoram, propositalmente, que é nessas mesmas universidades federais, hoje sufocadas por cortes orçamentários recorrentes sob o pretexto da “responsabilidade fiscal”, que se produz a quase totalidade da ciência brasileira.

Segundo a CAPES e o CNPq, as instituições públicas respondem por mais de 90% da produção científica nacional.

Castigar essas instituições com cortes orçamentários não é uma medida de gestão; é um projeto de desmonte nacional, uma tentativa de nos manter eternamente como exportadores de soja e minério de ferro (e agora, de terras raras), condenados a importar a inteligência alheia em forma de softwares, medicamentos e tecnologias de defesa.

A chegada do ITA ao Ceará é um tapa nessa lógica. Por anos, os estudantes cearenses, oriundos em grande parte de escolas públicas e militares do estado, dominaram as listas de aprovados no vestibular mais difícil do país.

A inteligência cearense já havia conquistado o ITA em São José dos Campos muito antes de o ITA conquistar Fortaleza. Esse fenômeno sociopolítico nos revela algo essencial: o talento é distribuído de forma democrática pela natureza, mas a oportunidade é concentrada de forma aristocrática pelo capital.

Se o Ceará produz gênios da matemática em série, não é por uma mutação genética regional, mas por uma política continuada de investimento no ensino básico e médio que, mesmo com recursos escassos, priorizou o aprendizado real em detrimento da simulação pedagógica.

Todavia, não podemos cair na armadilha do otimismo ingênuo. A expansão do ITA é uma vitória, sim, mas acontece em um contexto de terra arrasada para outras instituições.

Como conciliar a alegria de um novo campus tecnológico com o cenário de precariedade de universidades federais históricas, como a UFRJ ou a UFMG, que muitas vezes não possuem recursos para pagar a conta de luz ou manter laboratórios de ponta?

A “austeridade” converteu-se em uma divindade cruel que exige sacrifícios humanos — ou, neste caso, intelectuais.

É irônico e trágico que os mesmos setores que clamam por “inovação” e “produtividade” sejam os primeiros a aplaudir o contingenciamento de verbas para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Querem os frutos da macieira, mas insistem em cortar as raízes para economizar água.

Precisamos discutir o capital intelectual como um ativo de paz e autonomia. Em um mundo cada vez mais fragmentado, onde as cadeias de suprimentos se transformam em armas geopolíticas, um país que não produz tecnologia é um país refém.

A dependência tecnológica é a nova forma de colonialismo, e ela se instala sorrateiramente toda vez que um governo decide que investir em um pesquisador de doutorado é menos importante do que garantir o superávit primário para satisfazer os detentores da dívida pública.

A China, reitero, não caiu nessa cilada. O investimento chinês em ciência e tecnologia superou o dos Estados Unidos em áreas críticas porque eles entenderam que o desenvolvimento não é um destino, mas um processo de acumulação de conhecimento aplicado.

Aqui, porém, a mentalidade de “colônia” persiste. É o atavismo de uma elite que se sente mais à vontade em Miami do que em um campus universitário do interior do Nordeste.

Para esses setores, a ideia de um Brasil que projeta aviões, satélites e semicondutores soa como um delírio nacionalista, uma “interferência estatal” indevida. Eles preferem a segurança do rentismo, onde o dinheiro se multiplica sem o incômodo de precisar gerar emprego, tecnologia ou futuro.

É por isso que o “teto de gastos” e seus sucedâneos são defendidos com tanta ferocidade: eles são a garantia de que o Estado permanecerá pequeno para o cidadão e para a ciência, mas imenso para o serviço da dívida.

A proposta que se impõe, se quisermos de fato escapar dessa armadilha do subdesenvolvimento, é radical em sua obviedade: a revogação definitiva de todas as travas fiscais que pesam sobre o investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I).

É necessário retirar esses recursos da vala comum dos gastos primários e tratá-los como investimento de capital, tal como se faz com pontes ou rodovias, embora um laboratório de biotecnologia seja muito mais vital para o futuro do país do que qualquer viaduto.

Deveríamos, no mínimo, espelhar o percentual do PIB que a China e outras nações desenvolvidas dedicam à pesquisa de base. Sem isso, a inauguração do ITA no Ceará corre o risco de se tornar uma belíssima exceção que confirma a regra da nossa mediocridade planejada.

O que está em jogo não é apenas uma questão orçamentária; é uma disputa de ideias sobre o que desejamos ser como nação.

Queremos ser o país que exporta cérebros para a NASA e para as gigantes do Vale do Silício porque aqui eles não encontram condições de trabalho?

Ou queremos ser o país que oferece ao mundo soluções para a crise climática, para a saúde pública e para a energia limpa?

A educação para o desenvolvimento exige uma ruptura com a lógica da escassez imposta. Exige a coragem de afirmar que a vida, a inteligência e o futuro não cabem em uma planilha de Excel.

Ao olhar para os jovens que em breve ocuparão os bancos do ITA em Fortaleza, vejo não apenas futuros engenheiros, mas a possibilidade de um Brasil que finalmente se ergue da cadeira do “eterno país do futuro”.

No entanto, essa promessa só se cumprirá se tivermos a decência política de não sabotar o chão onde eles pisam. A lição que vem do Ceará é clara: o talento está lá, esperando apenas que o Estado pare de tratar a inteligência como um gasto supérfluo. A austeridade não pode ser o túmulo da inovação.

O mundo não vai esperar pelo Brasil. Enquanto debatemos se podemos ou não investir em nossas universidades sem “irritar o mercado”, o centro de gravidade do conhecimento global se desloca irreversivelmente para o Oriente.

A China não pediu licença aos seus credores para se tornar uma potência tecnológica; ela simplesmente decidiu que não seria mais um quintal do mundo. O ITA no Ceará é um sopro de esperança, um sinal de que ainda conhecemos o caminho. Mas precisamos de mais do que sinais; precisamos de uma política de Estado que compreenda que a ciência é o verdadeiro “ouro negro” deste século.

Encerro com uma provocação aos nossos arautos do fiscalismo: se a educação é cara, experimentem a ignorância.

Ela tem sido o nosso maior custo histórico, cobrado em juros de subdesenvolvimento, desigualdade e irrelevância internacional.

Furar o teto de gastos para investir em ciência não é um pecado fiscal; é um imperativo moral e um ato de sobrevivência nacional. Ou aprendemos essa lição com a urgência que o momento exige, ou continuaremos a ver nossos melhores quadros partindo para o exterior, enquanto nós ficamos aqui, sentados sobre sacos de soja, assistindo ao futuro passar por cima de nossas cabeças, em aviões que nós poderíamos ter construído.

*Gustavo Guerreiro é doutor em políticas públicas e pesquisador do Observatório das Nacionalidades.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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