Tomás Amaral: O martírio de Ali Khamenei pode ser a bala de prata contra o sionismo

Tempo de leitura: 8 min
Da esquerda para a direita: aitolá Ali Khamenei, Benjamin Netanyahu, na Casa Branca, em visita a Donald Trump, e Tel Aviv, capital de Israel, sob ataque iraniano. Fotos: Reprodução, Wikimedia Commons e rede social de forças militares do Irã.

Por Tomás Amaral*

Há um imbricamento entre as antigas oligarquias europeias, a elite estadunidense e movimento sionista internacional.

No início do período mercantilista, surgiram as primeiras casas de finanças na Europa, que evoluíram até se tornarem, dois ou três séculos depois, os bancos de dinastias financeiras mais poderosas do que qualquer reino de outro período histórico.

A maior parte da classe dos banqueiros europeus que controlavam o sistema financeiro internacional era composta de judeus financistas, como os Rothschild e Warburg.

A elite financeira, centrada na Europa, do final do século XV ao XIX, deixou suas ramificações no velho continente, mas transferiu seus negócios para os EUA no início do século XX, acomodando novos membros em seu clube restrito, como os Morgan e os Rockefeller.

Foi exatamente esta oligarquia atlanticista quem apadrinhou o movimento sionista internacional, quando o Barão Edmond de Rothschild financiou a primeira leva de colonos para a Palestina, a partir de 1882, e o primeiro congresso internacional sionista na Basiléia, em 1897.

Os Rothschild impuseram ao Império Britânico a política de apoiar a ocupação sionista na Palestina. Em 1917, o governo britânico emite a Declaração Balfour para estabelecer um “lar para os judeus” na Palestina.

O sionismo tornou-se uma corrente supremacista dentro do judaísmo. E é importante lembrar que uma parte significativa da comunidade judaica internacional desaprova a sua ideologia e os seus métodos.

Em 1948, as dinastias de banqueiros sionistas da Europa e dos EUA usaram o seu poder político e econômico para promover a campanha de criação do estado de Israel na ONU.

Após a Segunda Guerra, os Estados Unidos despontam como a primeira potência econômica e militar. Através dos governos dos EUA e de Israel, o projeto de hegemonia global, empreendido pela elite financeira que se deslocou da Europa para a América do Norte, é posto em marcha.

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O analista geopolítico Ray McGovern descreve a arquitetura do governo estadunidense empregando o acrônimo MICIMATTI: Military-Industrial-Congressional-Intelligence-Media-Academia-Think-Tank.

Em português: complexo militar, industrial, legislativo, de inteligência, mídia, academia e think tank.

É através dos complexos militar e industrial (que inclui as Big Tech), do Congresso, das agências de inteligência, como a CIA e a NSA, do aparato midiático mundial, das universidades (produzem tecnologia e informação para o complexo militar e as agências de inteligência) e dos think tanks (formulam e distribuem diretrizes políticas), que o governo dos Estados Unidos opera, empreendendo o seu projeto imperialista.

Além dos instrumentos visíveis que integram o aparato imperialista, a elite que está no topo da pirâmide do sistema financeiro tem a sua forma de atuar nos bastidores.

As informações vazadas nos arquivos Epstein, por exemplo, nos permitem entrever uma pequena parte do que aqueles que se consideram os donos do mundo, desfrutando do grosso da riqueza produzida na base da pirâmide, e com toda a tecnologia, exércitos e armas nucleares à sua disposição, são capazes.

Em uma entrevista concedida ao seu amigo, Steve Bannon, Jeffrey Epstein revela que David Rockefeller o convidou para fazer parte da Comissão Trilateral – um clube restrito, fundado em 1973, para banqueiros e empresários bilionários; e altos funcionários de governos europeus, asiáticos e o estadunidense, como, por exemplo, Henry Kissinger, o homem que controlou a política externa dos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970, a mando dos Rockefeller.

Este é o núcleo duro da teia sionista e atlanticista, com seus aliados no Golfo Pérsico e no Japão, que controla o sistema financeiro internacional.

Jeffrey Epstein foi um agente do Mossad, mas também das dinastias que financiam o sionismo, para comprometer diversas lideranças globais com sua agenda. O modus operandi, como vimos, incluía a promoção de pedofilia, rituais satânicos, sacrifício humano e canibalismo, com registros em fotos e vídeos que seriam usados para chantagear os participantes.

A realidade se assemelha a um filme de terror e fantasia. Poucos acreditariam nesta informação se não fosse o vazamento dos arquivos Epstein.

Entre os citados nos arquivos, como participantes de atos de pedofilia, estão ao menos três presidentes dos Estados Unidos — Donald Trump, Bill Clinton e George H. W. Bush; os bilionários Bill Gates e Elon Musk; o ex-primeiro ministro de Israel, Ehud Barak; bilionários e políticos europeus; príncipe Andrew, da Família Real inglesa; príncipe da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, entre outros membros das famílias reais do Golfo Pérsico.

A recuperação econômica russa, capitaneada por Vladmir Putin, o milagre econômico chinês, que projetou a China como a maior potência econômica do segundo quarto do século XXI e a revolução islâmica iraniana, que fez da nação persa uma potência tecnológica, possibilitaram a consolidação de três potências militares e com políticas externas independentes, que representam enormes cinturões de soberania ao longo do continente asiático: respectivamente, no norte, no oeste e no leste da Ásia.

A existência de uma Rússia, uma China e um Irã soberanos inviabiliza o domínio da elite atlanticista sobre o continente mais crucial para a aspiração de hegemonia global, onde estão concentrados a maior parte do petróleo e do gás no mundo, os principais corredores de interconectividade, as principais rotas de comércio e a maior porção de terras raras.

O projeto de domínio do antigo Oriente Médio, que as elites atlanticistas empreendem através do governo dos Estados Unidos, se conecta com o projeto sionista de consolidar “A Grande Israel”, derrubando governos soberanos, expulsando e matando as populações árabes da região.

O atlanticismo e o sionismo são duas faces da mesma entidade, que está no topo da pirâmide do sistema capitalista mundial.

Através da guerra de resistência do Irã, estamos diante da possibilidade real de assistirmos, mais cedo do que imaginávamos, à consumação, total ou parcial, de dois eventos que representariam marcos de transição de uma era histórica, e que acelerariam o ocaso da elite atlanticista que governa o mundo há pelo menos quatro séculos.

Os dois eventos, que outrora pareciam sonhos distantes dos que aspiram por justiça global, são: o fim da ocupação sionista, com a libertação da Palestina; e a expulsão dos EUA do Oriente Médio. Ou, pelo menos, um enfraquecimento significativo desta presença, com o desmantelamento de uma parte de suas instalações militares.

O analista geopolítico Pepe Escobar, em entrevista ao programa de Danny Haiphong, sintetiza a excepcionalidade do momento histórico, afirmando que esta batalha contra o imperialismo no Oeste da Ásia foi arquitetada por três mártires xiitas, assassinados por ataques terroristas do consórcio EUA-Israel: o general Qassem Soleimani, articulador do Eixo da Resistência – uma teia de exércitos e milícias anti-imperialistas árabes; Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, o exército revolucionário libanês; e o aitolá Khamenei, liderança espiritual e política do Irã.

Pepe Escobar complementa lembrando que o Irã está defendendo o Sul Global, como um todo, “o que é algo que muitos de uma chamada ‘esquerda’, idiotizada e que sofreu lavagem cerebral, em todo o Ocidente, da França e Alemanha ao Brasil, por exemplo, ainda não entenderam.”

A estratégia do Irã é esgotar a capacidade dos sistemas antimísseis Patriot, que compõem o chamado “Iron Dome”, para então escalar os ataques com seus melhores mísseis supersônicos e os hipersônicos da linha Fattah-1.

E, então, avançar em seu objetivo de retaliar Israel, pelo assassinato de Ali Khamenei, de seus oficiais, cientistas e da população civil, incluindo cerca de 170 meninas, de 7 a 12 anos, bombardeadas sadicamente pelo “regime Epstein”.

Segundo o Professor Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã, os Estados Unidos e Israel estão bombardeando sistematicamente alvos civis no Irã, como escolas, hospitais e conjuntos residenciais, por não conseguirem atingir as estações subterrâneas que abrigam os estoques e as fábricas de mísseis. Daí, eles descontam a sua raiva na população civil com atos terroristas.

A história é sempre incerta e, tratando-se de um conflito entre o Irã, com o apoio da Rússia e da China, contra Estados Unidos e Israel, duas potências nucleares (embora, a última seja clandestina), e com apoio das potências nucleares europeias, muita coisa pode acontecer no percurso.

O que pode se dar como certo é que o Irã não vai se render ou aceitar um acordo de cessar-fogo. Os Estados Unidos e Israel ultrapassaram todos os limites ao assassinar o aiatolá Ali Khamanei e demais lideranças e civis. O orgulho milenar do povo persa exige vingança.

O povo do Irã nunca terá paz enquanto a ocupação sionista, com o suporte dos Estados Unidos, não for confrontada e derrotada.

O sacrifício iraniano será grande. Milhares de civis serão bombardeados e muito mais de sua infraestrutura será destruída. O cálculo que se impõe é: o Irã será capaz de resistir?

Levando em conta que se trata de uma guerra existencial para o povo iraniano e que a geografia do país torna impossível uma aniquilação total de suas forças de combate, podemos dar como certo de que o Irã não desistirá e está longe de ser facilmente contido em sua retaliação.

Os sistemas de defesa de Israel e das bases estadunidenses no Golfo Pérsico estão dando sinais de que o seu saturamento está tendo início.

O complexo industrial-militar dos Estados Unidos, que provê os sistemas Patriot e demais dispositivos militares, segundo os melhores analistas militares, não tem a capacidade de reposição em curto prazo.

Até o momento, o Irã usou principalmente o seu arsenal de mísseis antigos. Dentro de poucos dias, as posições de Israel e dos Estados Unidos estarão mais vulneráveis, e o Irã começará a empregar o seu arsenal de mísseis mais modernos na guerra.

Com drones de alguns milhares de dólares, o Irã tem feito os Estados Unidos e Israel consumirem equipamentos de milhões de dólares para interceptá-los. Do ponto de vista econômico, a guerra já se projeta como inviável, a médio e longo prazo, para os Estados Unidos.

Paralelamente, os outros exércitos e milícias que compõem o Eixo da Resistência começaram a atacar Israel de outras frentes.

O Hezbollah entrou na guerra, abrindo um outro front ao norte da ocupação sionista.

O jornalista e ativista libanês Laith Marouf, fundador da plataforma Free Palestine TV, em entrevista para o programa Dialogue Works, apresentado por Nima Alkhorshid, explica que o Hezbollah soube, por meio de infiltrados, que fora decidido no Knesset (parlamento israelense) uma ofensiva contra eles, no Líbano, em resposta à retaliação iraniana. Então decidiram atacar as forças sionistas, instaladas no sul do Líbano, antes que estas tomassem a iniciativa.

Apesar de Israel contar com cerca de 100 mil homens em bunkers naquele território, e o Hezbollah estar fragmentado e escondido em diferentes cidades libanesas, a estratégia objetivou forçar a saída desses efetivos dos bunkers e atraí-los para uma invasão terrestre ao Líbano, passando forçosamente por áreas desérticas, onde eles se tornarão alvos fáceis, tanto para os mísseis do Hezbollah quanto para eventuais ataques do próprio Irã.

Esta é a coordenação do Eixo da Resistência no combate à ocupação sionista, arquitetada pelo general Soleimani.

Laith Marouf sintetiza:

“Por dois anos e meio, muitos de nós nos perguntávamos por que as forças do Eixo da Resistência não entraram com tudo desde o início do 7 de outubro? Todos nós estávamos sentindo a dor de assistir as crianças e os inocentes de Gaza serem massacrados. Todos nós ficamos com o coração partido ao ver lideranças insubstituíveis em termos humanos, como Sinwar, Nasrallah e, agora, Khamenei, serem martirizados nesta batalha.

Mas, agora, quando olhamos em retrospecto, de uma maneira racional, e também de uma perspectiva religiosa, vemos que, na realidade, todos esses sacrifícios foram necessários para despertar a humanidade que estava cegada pelo supremacismo judaico e por essa classe pedófila e antropofágica. A humanidade precisava ser despertada, e as palavras de nossos líderes, combatentes e intelectuais não estavam sendo suficientes. Foi necessário haver terríveis sacrifícios para um despertar da condição humana.

Agora, nós alcançamos este nível de consciência humana e não importa quantas mentiras os sionistas e imperialistas despejem no mundo, ninguém mais acredita neles. Nem suas próprias mães acreditariam em qualquer coisa que sai da boca deles. Portanto, agora é o momento de ir com tudo para o enfrentamento. Este é o momento de cobrar o preço de todos os sacrifícios que nós demos para a humanidade. E esta guerra não será interrompida até não haver mais colonização sionista no território da Palestina e até os Estados Unidos saírem do Oeste Asiático e nos deixarem em paz.”

O presidente da Rússia, Vladmir Putin, vaticinou, dois anos atrás:

“Ao longo de séculos, por 500 anos, [as oligarquias europeias] têm parasitado outros povos. Eles dilaceraram as pobres nações da África, exploraram a América Latina, exploraram a Ásia. (…) Eles se acostumaram, por séculos, a encher suas barrigas com carne humana e seus bolsos com dinheiro. Mas eles precisam entender que o baile dos vampiros está chegando ao fim”.

O martírio de Ali Khamenei, que se recusou a deixar seu escritório e se esconder em um bunker, mesmo sabendo que era o alvo prioritário de um ataque terrorista já esperado, é o seu último ato estratégico para mobilizar o povo iraniano, e toda a comunidade xiita no planeta, para um enfrentamento derradeiro contra as forças imperialistas. O seu martírio pode ser a bala de prata disparada em direção ao sionismo.

*Tomás Amaral é formado em Cinema pela Universidade Estácio de Sá (RJ). Atua como documentarista e analista geopolítico.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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