Tomás Amaral: Golfo Pérsico, o bastião da resistência

Tempo de leitura: 10 min
O líder espiritual iraniano, aitolá Ali Khamenei, martirizado no bombardeio de EUA e Israel. Foto: Wiki Commons

Por Tomás Amaral*

Um novo ataque ao Irã, realizado por Israel e Estados Unidos, em meio a uma negociação, desencadeou a guerra que tende a se generalizar na região do Oeste da Ásia.

O ataque repetiu a mesma tática empregada naquele outro que iniciou a “Guerra dos 12 dias”, em 2025: a decapitação de lideranças máximas do país. Desta vez, os objetivos foram o aitolá Khamenei e outros dos principais quadros políticos e militares.

O presidente, Masoud Pezeshkian, se salvou. No entanto, foi confirmada a morte do aitolá Khamenei, máxima liderança espiritual do Irã e de todo o mundo xiita. Sua filha e outros familiares também foram mortos.

O governo de Israel soltou uma lista de altos oficiais assassinados. Estão na lista: Aziz Nasirzadeh, Ministro da Defesa; Ali Shamkhani, Chefe do Conselho de Segurança; Mohammad Pakpour, Comandante da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC); Saleh Asadi, oficial de inteligência; e cientistas que trabalham para o complexo de defesa do país, como Hossein Jabal Amelian e Reza Mozaffari-Nia.

Entre os alvos civis iranianos atingidos nas primeiras horas de ataques, estava uma escola primária feminina. Foi noticiado que morreram mais de 100 meninas, além de funcionários da escola.

A retaliação iraniana, entretanto, desta vez foi instantânea. As forças iranianas bombardearam instalações militares dos Estados Unidos na região, como: a base área Al Udeid, no Qatar; a base aérea, Prince Sultan, na Arábia Saudita; a Base Naval de Bahrein, que abriga a Quinta Frota, responsável pela operação marítima dos EUA no Golfo Pérsico; a base aérea de Al Salem, no Kuwait; e a base aérea de Al Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos.

O Irã também bombardeou, no primeiro dia de conflito, o aeroporto de Dubai; dois ou três andares de um hotel de luxo em Bahrein, onde, segundo relatos, estaria reunida uma cúpula militar dos Estados Unidos; e diversos alvos em Israel, como: o Ministério da Defesa; a sede do Mossad em Tel Aviv; o porto de Haifa; entre ouras instalações.

O Irã bloqueou o estreito de Hormuz, nas primeiras horas após o ataque, o que fratura a cadeia energética mundial, afetando diretamente, pelo tempo em que o bloqueio durar, o funcionamento de indústrias e serviços em diversas partes do globo. Uma nova crise econômica mundial está sendo gestada em função do bloqueio.

Razões do conflito

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Para entendermos o conflito, podemos levar em conta três fatores centrais. O primeiro deles é o objetivo do sionismo de dominar toda a região do Oeste Asiático, derrubando pela violência todo e qualquer governo soberano.

O segundo fator é que o imperialismo estadunidense também tem o objetivo, herdado do Império Britânico e da geoestratégia de Sir. Halford Mckinder, de controlar a Eurásia e suas adjacências, o que inclui o Oriente Médio; e, somado a esta, o objetivo de controlar a matriz energética mundial do petróleo.

Os objetivos estadunidenses e sionistas estão justapostos em uma única e indissociável estratégia geopolítica. Ao mesmo tempo que Israel funciona como um complexo militar dos EUA no Oriente Médio, para intervir por seus objetivos, a política estadunidense é controlada pelo lobby sionista baseado em Israel.

O terceiro fator é que o Irã se tornou o maior obstáculo para os objetivos de Estados Unidos e Israel, desde a Revolução Islâmica, de 1979, que nacionalizou o petróleo e inaugurou uma era de soberania e política externa independente.

Nos anos 1980, os Estados Unidos financiaram Saddam Hussein na guerra contra o Irã, que durou quase uma década. Mesmo tendo sido apoiada pelos Estados Unidos, Europa e as monarquias do Golfo Pérsico, o Irã resistiu à ofensiva iraquiana.

Na estratégia sionista expressa no documento, A Clean Break: A New Strategy for Securing the Realm, que Netanyahu encomendou ao grupo dos neoconservadores estadunidenses, em 1996, estavam previstas ofensivas que desestabilizariam as forças hostis a Israel na região, preparando o caminho para um futuro enfrentamento com o Irã.

O general estadunidense, Wesley Clark, declarou que o objetivo do governo Bush, comunicado a ele em 2003, era o de derrubar sete governos em cinco anos: Iraque, Líbia, Síria, Líbano, Sudão, Somália e, como o grande troféu, o Irã.

Após a invasão de Bush ao Iraque, as revoluções coloridas financiadas pelo governo Obama, durante a Primavera Árabe, entre 2010 e 2012, lograram derrubar parte dos governos dessa lista. Na época, o Irã também enfrentou uma revolução colorida, mas conseguiu reprimi-la.

Desde então, o Irã vem sofrendo uma campanha permanente de demonização de seus líderes e de sua cultura, por parte da mídia ocidental, e inúmeras tentativas de revolução colorida, além das sanções que o isolam no sistema financeiro internacional.

O retrospecto recente

Na chamada “Guerra dos 12 dias”, entre 13 e 24 de junho de 2025, o Irã foi pego de surpresa por um ataque não provocado de Israel, que combinou decapitações de lideranças (modus operandi clássico do sionismo), com bombardeios em estruturas civis e militares e um poderoso ataque cibernético.

Segundo a informação da imprensa, Israel destruiu, naquela ocasião, o radar central que detectava ataques aéreos, cegando o sistema de defesa iraniana. Este golpe, combinado com um ataque cibernético que tirou de funcionamento as centrais de defesa iranianas, inviabilizou a capacidade de uma resposta rápida.

Israel e Estados Unidos esperavam, então, que um estrago irreversível na capacidade de defesa, somado ao impacto psicológico do assassinato dos principais quadros da cúpula militar, nocautearia o país e conduziria ao objetivo de “troca de regime”.

Porém, em menos de 12 horas, as forças armadas iranianas lograram reestabelecer o funcionamento de seu sistema de defesa e começaram a retaliar pesadamente Israel. O que as forças iranianas não conseguiram recuperar foi o radar que coordena o sistema antimíssil.

Em função da capacidade de defesa do Irã ter sido afetada, mas a sua capacidade ofensiva ter sido reestabelecida, a guerra se desenrolou de uma maneira peculiar, com muita destruição nos dois lados do conflito.

Nem os iranianos esperavam um ataque que cegasse seu sistema de defesa aéreo; e nem Israel e Estados Unidos esperavam uma capacidade do Irã de responder tão rapidamente e de maneira fulminante.

Embora o Irã estivesse sofrendo muitos danos humanos e de infraestrutura, a destruição no lado israelense estava se dando de maneira muito mais intensa e acelerada. O que levou ao governo de Netanyahu pedir, desesperadamente, para Trump intervir e encontrar uma maneira de deter a ofensiva iraniana, evitando uma destruição total de Israel.

A maneira de parar o conflito encontrada pela administração Trump foi propor um acordo ao governo iraniano.

Segundo alguns dos melhores analistas independentes (como Scott Ritter, Pepe Escobar, Jeffrey Sachs e o Prof. Mohammad Marandi), o governo Trump propôs um acordo de cessar-fogo, em que uma “PR Stunt” (operação de propaganda) seria realizada pelas forças armadas estadunidenses, para fingir ao público que os Estados Unidos atacaram o Irã. Em seguida, o cessar-fogo seria estabelecido.

Assim foi feito. Os Estados Unidos bombardearam a área deserta onde está situada, no subsolo, a usina de Isfahan, uma das instalações do programa nuclear para fins pacíficos do Irã.

Trump propagandeou, em sua conta na rede social “X”, que os EUA haviam destruído o programa nuclear iraniano.

No entanto, vídeos vazados na internet mostraram, na noite anterior, uma operação de transferência das estruturas da usina para outro local. Vários homens e caminhões esvaziaram a instalação.

O Irã, por sua vez, avisou com uma hora de antecedência que iria fazer um ataque de retaliação na base militar estadunidense, Al Udeid, no Qatar.

O exército estadunidense evacuou todo o seu efetivo, tecnologia sensível e sua frota de aviões. Em ambos os ataques nenhuma vítima foi noticiada e o acordo de cessar-fogo foi ratificado.

O Irã aceitou o acordo porque, assim como Israel, estava sofrendo pesados danos, mas saiu como vitorioso no conflito, derrotando os planos sionistas.

Conhecendo a natureza do sionismo e do poder estadunidense, arrogante e incapaz de conviver em paz, era mais do que esperado que o consórcio imperialista não engoliria a humilhação da derrota imposta pelo Irã, aos olhos da comunidade internacional, sem tentar uma revanche. E que lançaria uma nova ofensiva, assim que se reorganizasse.

A revolução colorida de janeiro de 2026

Nos últimos dias do ano de 2025, eclodiram protestos em algumas cidades no Irã. Os protestos reuniram comerciantes e demais cidadãos insatisfeitos por uma crise econômica decorrente da desvalorização do rial, a moeda iraniana.

A desvalorização do rial foi consequência das sanções e de manobras cambiais dos Estados Unidos para este fim.

Durante os dois ou três primeiros dias de protesto, os manifestantes marcharam de forma pacífica, não houve repressão ou confronto com as forças policiais, e o governo iraniano declarou que as manifestações eram legítimas.

Por volta do quarto dia de manifestação, atos de violência e depredação do patrimônio público e particular ocorreram. Manifestantes armados assassinaram civis e policiais.

O ex-diretor da CIA, Mike Pompeo, declarou em entrevista que agentes do Mossad estavam “no terreno” coordenando as manifestações. Representantes do governo de Israel confirmaram esta informação em entrevistas para a imprensa israelense.

Depois, apurou-se que estavam infiltrados nas manifestações, além de agentes do Mossad e mercenários iranianos a seu serviço, combatentes dos grupos ISIS (Estado Islâmico) e HTL – organizações terroristas financiadas por Estados Unidos e Israel.

Os confrontos violentos duraram alguns dias, gerando centenas de mortes. Organizações ocidentais, que não estavam no terreno, soltaram estimativas do número de mortes, sem qualquer fundamento. Essas estimativas inflacionadas variavam de 3.000 a 20.000 mortes.

A mídia ocidental noticiou essas cifras como verdade, acusando o governo iraniano de assassinar manifestantes pacíficos. Analistas iranianos independentes, que estavam no país durante os protestos, desmentiram as cifras.

É certo que centenas de pessoas morreram, provavelmente mais de mil, somando os dois lados do confronto. Entre os mortos, foram contados mais de 200 policiais e militares iranianos.

Civis inocentes, que não estavam nas manifestações, foram assassinados pelos terroristas infiltrados. Uma menina de quatro anos foi arremessada do terraço de um prédio, o que foi amplamente noticiado pela mídia iraniana.

Um grupo de terroristas invadiu uma clínica de saúde e assassinou pessoas que lá estavam. Eles atearam fogo no corpo de uma enfermeira, que morreu carbonizada. Nada disso foi noticiado na mídia ocidental.

As forças policiais iranianas reprimiram os terroristas em confrontos armados e prenderam outros tantos. Entre os presos, havia agentes de Israel e jihadistas mercenários de outros países árabes.

No dia 12 de janeiro, milhões de pessoas saíram às ruas de todo o Irã, para manifestar apoio ao governo e repudiar a revolução colorida que tentava desestabilizar o país. Foi esta demonstração popular que pôs fim à semente de caos plantada pelos Estados Unidos e Israel.

Manifestação de apoio ao governo iraniano, em Teerã, no dia 12/01/2026. Foto: Rede social das forças armadas iranianas

Se a revolução colorida lograsse evoluir para uma guerra civil, o próximo passo lógico seria Estados Unidos e Israel bombardearem o Irã, aproveitando a vulnerabilidade instalada pelo caos interno. O ataque se daria sob a narrativa de ajudar a população iraniana, que estava sendo assassinada por seu governo tirano. O Irã desmantelou a ofensiva sionista mais uma vez.

Quarenta dias depois, Estados Unidos e Israel atacam o país, mesmo sem precisar de qualquer justificativa para isso perante a comunidade internacional.

Cenários possíveis

O maior dano para o povo iraniano decorrente do ataque que deflagrou o conflito é, sem dúvida, o impacto psicológico da morte do aitolá Ali Khamenei; um homem sereno, erudito, de moral elevada e de paz – a despeito do que diz a propaganda sionista difundida pela mídia ocidental.

Ao mesmo tempo, será esta comoção que servirá de combustível para uma reação impiedosa contra Estados Unidos e Israel.

As guerrilhas do Eixo da Resistência – como as milícias xiitas no Iraque, o Hezbollah no Líbano, e os Houtis no Iêmen – retaliarão as forças sionistas na região. Por outro lado, os exércitos terroristas controlados por EUA e Israel, como o ISIS e o HTL, também entrarão em ação.

O Irã tem a capacidade bélica de devastar Israel, pondo fim à ocupação sionista na Palestina.

No entanto, o grande risco para o povo iraniano é o fato de EUA e Israel serem potências nucleares. Israel tem um programa nuclear que, apesar de clandestino, é fato conhecido da comunidade internacional.

Para alguns analistas, como o ex-agente da CIA, Larry Johnson, o governo Trump cometeu um erro em entrar numa guerra que não pode ser vencida, baseando-se em desinformação e em relatórios de inteligência irrealistas.

Não há dúvida de que segundos e terceiros escalões do poder estadunidense se enquadram na situação descrita por Larry Johnson.

Mas será plausível pensar que a elite sionista, que controla o sistema financeiro mundial, a mídia ocidental e dá as ordens aos governos de Israel e Estados Unidos, não teria um plano estratégico?

Netanyahu e Trump se reuniram no dia 11 de fevereiro para planejar sua ação contra o Irã. É de se supor que o cenário de uma reação iraniana que colocasse em risco a integridade de Israel tenha sido aventado – sobretudo, depois do que ocorreu na Guerra dos 12 dias.

A dúvida que surge é: teriam eles uma carta na manga? Seria, este trunfo, um ataque nuclear?

O cálculo, porém, dos dois governos não é tão simples. Pois, o Irã é um parceiro estratégico das duas maiores potências nucleares rivais dos Estados Unidos: Rússia e China.

A Netanyahu só interessa a guerra total, como forma de perseguir os objetivos sionistas e de se salvar de uma prisão pelos seus crimes de guerra cometidos em Gaza. Mas, para os Estados Unidos, o cálculo de um possível ataque nuclear tem que levar em conta quais seriam as reações da Rússia e da China.

E esta é outra dúvida que surge para o mundo: até onde irão, Rússia e China?

Durante a Guerra dos 12 dias, no ano passado, os governos do Paquistão e da Coreia do Norte, outras duas potências nucleares, declararam que interviriam a favor do Irã, se Israel usasse armas nucleares.

O Paquistão está em conflito com o Afeganistão, acusando o governo Talibã de dar suporte a grupos terroristas que atuam em seu território, e tem, também, um contencioso histórico insolúvel com a Índia.

Um movimento na política internacional nas vésperas do ataque ao Irã, foi pouco analisado, em face à sua importância. O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, se encontrou com Benjamim Netanyahu, em Israel, apenas dois dias antes do ataque.

Na política, os gestos dizem mais que palavras e as datas em que os eventos ocorrem são plenas de significados. Não pode ser coincidência que este encontro tenha ocorrido neste momento.

Modi e Netanyahu se abraçaram calorosamente e se galantearam em discursos no Knesset (parlamento israelense).

Modi fez uma série de declarações chauvinistas afirmando uma parceria entre Índia e Israel no combate ao terrorismo. Ao que parece, os gestos do líder indiano demonstram um possível movimento pendular da Índia, do alinhamento com os BRICS a uma aliança com o bloco imperialista.

As relações próximas do Paquistão com o Irã podem ter empurrado o líder indiano para um estreitamento de relações com Estados Unidos e Israel.

Ademais, a Índia sempre foi um daqueles países oscilantes, que fazem um jogo duplo, como também é a Turquia e, nos últimos anos, vinha sendo a Arábia Saudita.

O que podemos vislumbrar em um eventual cenário em que a guerra entre Irã e Israel se alastre pelo Oeste da Ásia, alcançando regiões adjacentes, como o Cáucaso e a Ásia Central, é a formação de blocos aliados de ambos os lados do conflito, que potencialmente podem se enfrentar, direta ou indiretamente.

Estamos diante do cenário político mais delicado desde a Segunda Guerra Mundial e que, tragicamente, traz muitas semelhanças com as conjunturas que antecederam as duas grandes guerras.

Assistimos um confronto, de consequências incalculáveis, entre a cúpula do capitalismo global, representada pelo sionismo e pelos Estados Unidos, e o estado-civilização persa, que tem como aliados estratégicos mais dois estados-civilização que resistem à dominação atlanticista.

A única constatação auspiciosa nesta conjuntura sombria é que, com o apoio da Rússia e da China, o Irã não está só em sua batalha contra um Ocidente imperialista, genocida e – depois dos arquivos Epstein, podemos confirmar – moralmente decadente.

A existência da sociedade persa e da Palestina estão em jogo no conflito. Em última análise, esta é uma batalha existencial para o Sul Global, como um todo.

*Tomás Amaral é formado em Cinema pela Universidade Estácio de Sá (RJ). Atua como documentarista e analista geopolítico.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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