‘Eles não vão voltar’, diz pai de Marielle em dia de dor e justiça com desfecho do caso

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Foto: Valter Campanato/ Agência Brasil

‘Eles não vão voltar’, diz pai de Marielle em dia de dor e justiça com desfecho do caso

Justiça, enfim, mas sem celebração: o dia em que o STF encerrou uma espera de oito anos no caso Marielle

Por Heloisa Vilella, no ICL Notícias

Entre muitas lágrimas, picos de pressão e abraços prolongados, as famílias de Marielle Franco, Anderson Gomes e Fernanda Chagas enfrentaram os dois longos dias de julgamento no Supremo Tribunal Federal que condenou os irmãos Brazão como mandantes dos crimes que o Brasil, e o mundo, esperaram oito anos para ver solucionados.

Quando o anúncio das condenações e das sentença terminou e o ministro Flávio Dino encerrou a sessão, o que imperou foi o silêncio. Um silêncio de respeito, para quem estava em volta, e de alívio, tristeza e vitória entrecortado por soluçõs discretos e suspiros.

Não ouve aplauso nem comemoração. Imperou um sentimento misturado, como disse o deputado carioca Chico Alencar.

Antônio Francisco da Silva Neto, pai de Marielle, resumiu com precisão esse sentimento de vitória derrotada. “Eles não vão voltar”, disse, se referindo a Marielle e a Anderson.

E ele já sabia disso ao entrar no tribunal. Acho que talvez estivesse preparado para esse momento. “Mas a gente revive tudo”, disse ao ICL Notícias.

Seu Antônio e dona Marinete, mãe de Marielle, tiveram que deixar a sala, durante o julgamento. Foram atendidos por socorristas nas antessala do STF com pressão arterial alterada. A ministra Anielle Franco passou boa parte do processo abraçada, confortando a mãe, quando dona Marinete conseguiu voltar para acompanhar o julgamento.

Ela deixou a sala quando o ministro Alexandre de Moraes começou a descrever a decisão de matar Marielle e por que os criminosos escolheram a vereadora como alvo.

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Por estar incomodando, trabalhando em áreas de domínio dos irmãos Brazão, contestando as práticas que impõe domínio econômico e político a essas comunidades, Marielle se tornou “uma pedra no caminho”, como descreveu o assassino Ronie Lessa em sua delação premiada.

E a pedra precisava ser retirada. Moraes descreveu como os criminosos concluíram que seria mais difícil eliminar o deputado Marcelo Freixo, pela visibilidade que o assassinato teria e por andar cercado de seguranças.

Moraes destacou que Marielle era uma vereadora mulher, preta, que estava peitando os interesses da milícia da qual os Brazão faziam parte.

Segundo o ministro, eles não trabalhavam com a milícia mas eram a própria milícia. E achavam que matar Marielle não teria muita repercussão, por isso classificou também como um crime atravessado pela homofobia e pelo racismo. A intenção era mandar um recado a outros políticos para que não ousassem atrapalhar os negócios da milícia-política dos Brazão.

Sentadas na primeira fila do plenário, Ágata Reis, mulher de Anderson Gomes, e Monica Benício, mulher de Marielle, não deixaram o julgamento, mas acompanharam tudo com mais ou menos lágrimas.

Fernanda Chaves, a então assessora de Marielle que também estava no carro no dia do crime, acompanhou todo o procedimento ao lado do marido e da filha Rosa. “Ela insistiu em vir e hoje nós decidimos deixar”, contou Fernanda.

Assassinos de Marielle e Anderson são condenados

A condenação, esperada por tantos anos, finalmente foi anunciada. Seu Antônio não aguentou dividir o momento com a família. Saiu amparado pela filha Anielle com a pressão novamente dando os sinais do quanto é difícil e sofrida essa vitória. Justiça, sim. Mas a certeza de que a chaga que antecede o assassinato de Marielle, de Anderson e a tentativa de matar Fernanda continua aberta, como destacou a ministra Carmen Lúcia.

A corrupção das instituições por parte de milícias e do crime organizado não começou nem termina aqui.

É possível falar em soberania quando grupos criminosos mantêm o controle sobre partes do território nacional?

Antes de deixar o STF, a ministra da igualdade racial, Anielle Franco, irmã de Marielle, afirmou que a decisão do STF é uma resposta a todos que debocharam do assassinato, que falaram em mimimi, que continuaram tratando Marielle como um elemento descartável.

A viúva da vereadora, Monica Benício, devolveu aos assassinos o que eles tentaram impor a quem luta por justiça. Segundo os ministros do supremo, os Brazão encomendaram o assassinato para mandar um recado.

“O que a gente perdeu é irreparável, mas a democracia, no Brasil, precisa ser reparada. E o que acontece hoje aqui é uma parte importante, um capítulo que se escreve na defesa da nossa democracia ainda tão frágil. Que o caso de Marielle possa servir como um recado para aqueles que, na certeza da impunidade, como vários Brazões que acreditam ainda, e existem no Rio de Janeiro e no Brasil, que esse tipo de violência não será mais aceito. Marielle se torna um símbolo porque a sociedade acredita que este país pode ser muito melhor”, disse Monica.

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