Lelê Teles: O homem que sorriu pra morte

Tempo de leitura: 4 min
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Por Lelê Teles

Por Lelê Teles*

“(…)os choros (…)não são fenômenos exclusivamente psicológicos ou fisiológicos, mas fenômenos sociais marcados eminentemente pelo signo da não-espontaneidade e da obrigação mais perfeita”, marcel mauss

recebo, pelo zap, recorte de jornal que mostra um colega de infância algemado, pelos pulsos e tornozelos, descendo de um camburão.

embora meio cabisbaixo e assustado, o prisioneiro mantém os olhos arregalados e fixos, como os de um leão acuado.

o sujeito, com uma juba desgrenhada, está cercado por um batalhão de jornalistas que lhe esticam microfones e lentes.

a atmosfera é de uma urgência tensão.

os policiais seguram o desgraçado pelo colarinho, com o cuidado de quem teme se contaminar ou ser mordido.

por cima dessa imagem terrível, a manchete grita, capslóckicamemte: “capturado o monstro do gama que comia cadáveres”.

li a matéria e fiquei chocado.

chamava-se altair, por causa de um refrigerante de guaraná o chamávamos de taí.

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era um sujeito magro, alto pra sua idade, tinha o focinho de rato, os trejeitos de rato branco e cabelos de fogo, mal cuidados e sararás.

fora meu colega de classe na quinta série, jogou na escolinha do gama comigo, era um zagueiro ruim e trombador.

o pai bebia muito e o espancava, não tinha irmãos e perdera a mãe aos cinco anos de idade.

contou-me, em certa ocasião, que por causa de sua estatura, não conseguira ver o rosto da genitora, pela última vez, dentro do caixão.

essa não-imagem não lhe saía da cabeça.

ainda na pré-adolescência, adquirira o estranho hábito de frequentar velórios, mesmo que de desconhecidos.

é que na minha infância, os velórios ainda eram eventos domésticos.

colocava-se o caixão na sala de estar, abria-se as portas e o portão de casa e começava um frenético entra e sai de parentes, vizinhos e curiosos.

taí tava sempre por aí, e quase sempre na categoria dos curiosos.

de acordo com a atmosfera do ambiente, ele chegava mesmo a chorar, tão envolvido ficava com o morto e com os vivos que carpidavam o cadáver.

às vezes, enquanto jogávamos pelada no campinho de terra, ele avistava um cortejo de carros rumando ao cemitério.

largava tudo, saía correndo e pongava na carroceria do caminhão.

sempre, no final da fila de carros de um cortejo, tinha um pequeno caminhão, alugado pela família do defunto, e que servia pra levar os vizinhos pobres que não tinham automóvel.

o velório e o enterro eram eventos que envolviam toda a comunidade.

no caminho, taí colhia informações sobre o morto: nome, sexo, idade, causa mortis…

munido dessas indispensáveis informações, taí chegava ao cemitério pronto para, como observou ¹marcel mauss, expressar sua dor e sua tristeza

um dia, ventilaram no bairro que morrera, na rua de cima, uma jovem muito, muito bonita.

aluna da sexta série, ela tinha acabado de ganhar, na escola, o concurso de rainha da primavera.

na saída, contrariando professores e colegas, teimou em ir embora pra casa debaixo de uma chuva torrencial e inesperada.

no caminho, um raio a atingira em cheio. teve morte instantânea.

a tragédia provocara uma onda de comoção no bairro e na escola.

a meninada especulava como deveria estar a expressão dela no caixão: triste, assustada, com esgares de quem sentiu dor ou a maquiagem fúnebre camuflara o sofrimento pra manter a imagem de princesa da menina?

não chegamos a saber, a nossa curiosidade não chegava a tanto.

taí foi.

ao chegar na porta da casa da menina, ele pegou, do chão, o ramo de uma flor vivamente rubra que talvez caíra do caixão ou de alguma coroa fúnebre.

levou consigo.

ao entrar na sala, cheia de adolescentes chorosas e velhas murmurantes, taí foi até o caixão e olhou fixamente para a jovem.

lindamente bela, ela mantinha uma expressão serena e calma, como a da branca de neve morta.

taí chegou bem perto dela.

por causa da sua altura, os rostos dos dois estavam muito próximos.

taí, por algum motivo, achou que a defunta se parecia com sua mãe quando tinha a idade dela, imagem que ele nunca vira.

inventara aquilo pra si mesmo.

tomado por uma tristeza genuína, taí colocou a flor vermelha atrás da orelha direita da ex-rainha da primavera.

enquanto se debruçava, ele fechara os olhos.

erguendo-se em recuo, ao abrir os olhos, viu a perfeita composição do rosto da jovem e a flor escarlate.

taí percebera, então, que o cadáver sorria.

“ela sorriu pra mim”, ele gritou, tomado por uma súbita felicidade.

“valei-me, minha nossa senhora”, acudiu uma idosa carola com um terço de contas na mão.

houve um burburinho geral, misto de reprovação e curiosidade.

um homem de mãos cabeludas o afastou rispidamente do caixão.

“o que ele disse?”, perguntou uma senhora que talvez fosse a mãe da garota.

toda vestida de negro, prostrada numa cadeira e banhada em lágrimas, essa jovem senhora, tão bela quanto a defunta, aproximou-se do caixão e não percebera nada de anormal na expressão da filha.

outros parentes se aproximaram e também ninguém percebeu um sorriso no rosto da mocinha.

por causa do ângulo em que estava, o enquadramento provocou em taí o que chamamos no cinema de ²efeito kuleshov: a flor fez parecer que o cadáver sorria.

taí insistiu, reiterou diversas vezes sua afirmação, ele não tinha dúvidas, a moça estava sorrindo.

desconhecido por todos e tido como louco, taí foi retirado do velório debaixo de xingamentos, sopapos e ponta-pés.

depois desse episódio ele se mudou pra outro bairro e nunca mais o vimos.

o vejo agora, quarenta anos depois, feroz e assustado como um leão de zoológico.

a matéria conta que ele chegara ao hospital com calafrios, acometido por uma estranha enfermidade, acompanhada de uma inesperada tuberculose.

o doutor detectou, no intestino do meu colega de infância, uma bactéria que o comia por dentro.

o diabo, percebeu o médico, estupefato, é que esse é um micro-organismo encontrado somente no corpo dos cadáveres.

são bactérias que ajudam na sua decomposição.

aí o troço virou caso de polícia.

espremido por interrogatórios, taí revelou que trabalhava, há dez anos, no iemiéle.

contraíra o patógeno numa parafílica sessão de necrofilia.

há dez anos, ele vilipendiava cadáveres de garotas jovens.

a matéria conta, ainda, que os presos, apavorados com a presença daquele monstro, o mataram na cela a golpes de socos e sufocamentos.

achei errado.

deveriam deixá-lo viver o seu sofrimento, para que as bactérias, o comendo vivo, fizessem dele um cadáver insepulto.

palavra da salvação.

*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

REFERÊNCIAS

¹ Em “A expressão obrigatória dos sentimentos” (1921), Marcel Mauss analisa lamentos fúnebres e mostra que o choro e a dor são obrigações sociais, transformando sentimentos espontâneos em fatos sociais.

² O Efeito Kuleshov é uma técnica de montagem cinematográfica, criada por Lev Kuleshov nos anos 1910-1920, que prova que o contexto de uma cena molda a interpretação do espectador

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Lelê Teles

Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).


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