Cuba, a Espanha do século XXI
A inação diante de Cuba repete o erro fatal de Munique: apaziguar o agressor só adia a guerra e a torna mais devastadora — a história não perdoa os que se calam diante do fascismo renascente
Por Gabriel Cohn*, em A Terra é Redonda
1.
As atitudes do discípulo menor do senhor Adolf Hitler, com direito a reivindicação análoga à Grande Alemanha (Grossdeutschland) nazista no esgar maníaco da Grande América-MAGA, o senhor Donald Trump, vêm alisando o caminho de tendência atual de fundamental importância.
Trata-se da experiência de pesadelo configurada na repetição passo a passo nos primeiros 30 anos do século XXI do período correspondente no século passado.
Que ninguém se iluda: no ritmo atual teremos no final desta década situação análoga à da Europa em 1939, após as tentativas de apaziguar Hitler em Munique no ano anterior.
O imbróglio geopolítico é no mínimo comparável e o potencial destrutivo é incomparavelmente maior, com uma Europa que mais parece a sua problemática área balcânica da fase inicial do século passado, uma projeção oriental em plena expansão e os Estados Unidos em fase neocolonial maníaca (com bem menos racionalidade do que a obsessão nazista por “espaço vital”).
A expansão agressiva nazista na Europa há um século não ganhou impulso no vácuo.
Foi precedida por um teste decisivo da capacidade de resistência internacional, em condições históricas especialmente expressivas. Deu-se ela há exatos 90 anos, quando a República espanhola de 1936 atraiu sobre si a fúria fascista com seu agente, o general Francisco Franco, como operador do eixo Alemanha-Itália.
A Espanha representava na segunda metade da década de 1930 a cabal síntese dos dilemas que atravessavam as sociedades europeias desde a primeira guerra mundial de 1914-1918 (ou, como se veria depois, desde a primeira etapa da guerra de trinta anos de 1914-1945).
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Cortada de alto a baixo pelo conflito entre as forças ultrarreacionárias no poder e os movimentos populares e autonomistas centrados na Catalunha e no País Basco, ela, junto com Portugal, pagava o preço do arrogante desprezo europeu por aquelas sombras de eminência histórica passada.
O historiador britânico Gerald Brennan encontrou uma expressão clara ao falar no “labirinto espanhol”.
O que antes era um caminho sem saída nacional hoje parece ter-se convertido em armadilha em escala planetária, com uma superpotência (que a Alemanha nunca foi) em fase de desagregação e incapaz de sequer gerar objetivos nacionais claros no seu centro.
2.
A península ibérica era em 1936 o território perfeito como campo de provas para o avanço bélico da extrema direita no poder na Alemanha e na Itália, a começar pelo teste de armamentos como os aeronáuticos da Legião Condor, que se imortalizou na destruição da pequena e pacífica Guernica (Condor, sim, como a organização de extermínio dos regimes de ultradireita argentinos, chilenos e brasileiros pouco mais de três décadas depois).
Não se tratava de uma guerra de destruição nacional, era muito mais o uso oportunista de uma plataforma disponível para a preparação de avanços belicosos sem limite. Desde que, e esse era o ponto, não encontrasse oposição armada convincente.
Não encontrou. O que fez o governo da Frente Popular com tintura socialista na fronteiriça França?
Nenhum passo de solidariedade, para dizer o mínimo, com o resto da Europa igualmente calada, exceto na intervenção cautelosa, mas real com base no movimento comunista, da União Soviética.
O que ficou de luminoso naquele período foi a valorosa valentia combativa da oposição popular no interior da Espanha e o movimento, único em seu alcance e amplitude, de solidariedade até o sacrifício das Brigadas Internacionais, com uma adesão voluntária que incluiu numerosos brasileiros como Mario Pedrosa, a título de exemplo.
Há quem sustente, de modo plausível, que nos encontramos hoje diante de uma sequência de testes desse tipo, com o morticínio em Gaza desempenhando o papel exemplar para outras agressões em cadeia, caso essa logre seu repugnante êxito.
Desafio análogo se apresenta neste momento, com Donald Trump ameaçando a literal sobrevivência do povo cubano e arreganhando os dentes para quem ousar qualquer oposição, por ora só encontrando resposta efetiva no valoroso México, o mesmo que em 1936 vivia a mais consistente revolução nacional na América Latina.
Especialmente atingidos pela provocação, além é claro dos vizinhos mais próximos, são os países nucleares da associação internacional independente BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, com o Brasil envolvido mais do que como mero destaque na sigla.
No Brasil as ações mais fortes de apoio a Cuba vêm do interior da sociedade para além do Estado nacional, como o MST e os petroleiros. Isso é vital, mas insuficiente.
Ameaças à integridade de nações e, no caso extremo como presenciamos agora, quando populações inteiras são postas como alvo de agressão letal, só podem ser contidas com ações decididas e rápidas no plano internacional, antes que o complexo industrial-militar ao Norte se arreganhe demais.
Do contrário, o conflito bélico que com razão se busca evitar corre o risco de se concretizar, como há um século em circunstâncias semelhantes. Não vivemos a melhor hora para se confiar na racionalidade de governantes e representantes, em Washington ou em Miami.
Cabe ao povo a solidariedade a Cuba e a cobrança aos governantes que o representam.
Espanha republicana sim, Cuba independente sim, fascismo nunca mais, com ou sem Adolf ou Donald.
De Lula, Celso Amorim e equipe cabe exigir firmeza e ação pronta.
*Gabriel Cohn é professor emérito da FFLCH- USP. Autor, entre outros livros, de A difícil República (Azougue). [https://amzn.to/4mJBJeM]
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