Paulo Kliass: O povo não come PIB!

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As escadas imaginárias de MC Escher retratam um mundo em que não se aplica as leis da gravidade. Esta litografia do artista holandês foi impressa pela primeira vez em 1953. Imagem: Reprodução

Paulo Kliass*     

Maria da Conceição Tavares foi a grande mestra de várias gerações de economistas que não raciocinam pela lógica das abordagens conservadoras, liberais e monetaristas dos fenômenos econômicos. Ela nos deixou em 8 de junho de 2024, aos 94 anos de uma vida intensa e produtiva.

Maria Conceição não aceitava passivamente os ditames do mundo do financismo e muito menos as soluções apresentadas pelo campo do neoliberalismo para os problemas estruturais da economia e da sociedade brasileiras.

Os meios de comunicação costumam repetir algumas de suas frases icônicas, em especial a ideia de que o povo não come PIB.

Em março de 2104, a economista concedeu uma entrevista ao Globo e, em meio a uma série de outros assuntos, ali afirmou que “ninguém come PIB, come alimentos”.

Ela tentava encontrar explicações para o fato de que a economia parecia retomar à época algum crescimento e a inflação estava relativamente controlada.

Questionada a respeito de soluções apresentadas pelo povo da Faria Lima de aumentar o desemprego para controlar o crescimento dos preços, ela não titubeou: “aumentar o desemprego para combater a inflação… Vou te contar é pior do que o Fundo Monetário. Não leio mais economia para não me aborrecer. É um festival de besteira”.

Enquanto concedia a entrevista, a professora não poderia imaginar que apenas alguns meses depois, após sua reeleição, Dilma Roussef chamaria Joaquim Levy para chefiar o Ministério da Fazenda. E ele viria justamente com um plano de redução de salários e de aumento do desemprego para diminuir a demanda agregada e, assim, combater a inflação. Em suma, a aplicação diligente da cartilha do neoliberalismo para promover ao ajuste cima dos mais pobres.

Se ainda estivesse entre nós, ela certamente teria um nível mais elevado de indignação ao verificar os termos das notas e comunicados do Comitê de Política Monetária (COPOM) para justificar a manutenção da SELIC nas alturas. Uma loucura!

Maria Conceição nos faz muita falta!

O fato é que a situação atual vivida pelo povo brasileiro guarda alguma relação com aquela de 12 anos atrás, relatada por Maria Conceição.

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O governo e parte dos analistas não conseguem explicações convincentes para o fato de as pesquisas de opinião não apontarem para uma melhoria da popularidade aprovação de Lula e sua equipe.

Afinal, de acordo com as expectativas geradas pelos responsáveis da área econômica, a situação seria perfeita para a entrada em período eleitoral. O crescimento do PIB, ainda que medíocre, é positivo.

Os níveis de inflação estão razoavelmente sob controle. Os indicadores de desemprego estão nos patamares mais baixos da série histórica do IBGE.

Ora, face a tal quadro, como explicar que as respostas dos entrevistados não apontem para uma avaliação mais condescendente do suposto esforço governo em melhorar as condições da maioria da população?

O povo é ingrato?

O povo não sabe votar?

Na verdade, é questão é bem mais complexa do que essa busca de saídas simplistas.

Então tentemos compreender cada um dos fatores que deveriam servir como elemento de aprovação da equipe governamental e verificar as razões para que isto não ocorra.

O primeiro deles, e talvez a maior aposta de Lula neste ano, refere-se à mudança nas regras do Imposto sobre a Renda das Pessoas Físicas (IRPF), com o aumento da faixa de isenção até R$ 5.000.

Vale lembrar que esta é uma proposta antiga do movimento sindical e do Partido dos Trabalhadores (PT), tendo se convertido em promessa de Lula durante a campanha eleitoral de 2022.

Lula e o PT propunham isenção até 5 salários mínimos

Em 2019, por exemplo, a bancada do PT no Senado Federal apresentou um Projeto de Lei que elevava a faixa de isenção até 5 salários-mínimos.

Esta era uma reivindicação histórica da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e demais entidades sindicais, uma vez que os diferentes governos sempre atrasavam ou congelavam os reajustes necessários dos valores na tabela das faixas de isenção do IR.

Caso estivesse valendo tal medida, a isenção seria estendida hoje até R$ 8.105. No entanto, depois da derrota de Bolsonaro e a vitória de Lula em 2022, a proposta foi esquecida e deixada à margem do debate político.

Por outro lado, o mínimo que se poderia esperar seria um reajuste do valor prometido durante campanha eleitoral. Assim, os R$ 5.000 de 2022 corresponderiam a R$ 6.048 no final do ano passado.

Mas não foi assim que Lula e sua equipe se comportaram. Eles simplesmente trouxeram para o início de 2026 o valor nominal do ano da eleição. Isso significa que os ganhos auferidos pelos assalariados com registro em carteira estão sendo bem menores do que aquilo que se esperava.

Por outro lado, toda a expectativa gerada pelo anúncio prévio da medida parece não ter encontrado o eco na sociedade, inclusive dentre os mais beneficiados.

No que se refere à dinâmica no mercado de trabalho, a manutenção das estatísticas atuais nos níveis mais baixos da série histórica esconde detalhes que talvez ajudem a compreender um pouco melhor a postura dos entrevistados pelas empresas de pesquisa de opinião.

Afinal, nada foi feito pelo novo governo com relação às suas promessas de revogar as reformas trabalhistas de Temer e Bolsonaro. Ambas foram realizadas com o intento de reduzir direitos e os ganhos dos trabalhadores. Com isso, incorporaram-se para dentro da legislação as possibilidades da informalidade e da precariedade nas relações trabalhistas.

Reforma trabalhista com redução de direitos

Os modelos dos entregadores de mercadorias e de transporte por aplicativo, por exemplo, romperam a lógica da relação de emprego e criaram um novo espaço sem regras, sem segurança e sem direitos para os trabalhadores.

O mesmo ocorre com o avanço extraordinário da chamada “pejotização” nas relações trabalhistas, com a introdução da figura jurídica de uma mera relação comercial entre as empresas contratantes e as empresas individuais contratadas.

Com isso, desaparecem também direitos históricos dos trabalhadores, como salário-mínimo, férias regulamentadas, 13º salário, FGTS, abono salarial, regras relativas à jornada de trabalho, auxílio acidente de trabalho, previdência social, assistência à saúde, proteção às gestantes, auxílio alimentação, dentre tantos outros.

Dessa forma, ainda que o registro do desemprego aponte o nível mais reduzido da série, as condições de tais postos de trabalho são bastante precárias.

Alguns estudos apontam para uma redução da remuneração média da força de trabalho, uma vez que há uma substituição generalizada de postos de salários melhores por outros com ganhos mais baixos. É razoável supor que tal percepção também contribua para uma menor avaliação positiva da condição do próprio trabalhador.

Endividamento e inadimplência das famílias

Outro aspecto relevante diz respeito ao elevado índice de endividamento das pessoas e das famílias.

Os dados da pesquisa da Confederação Nacional do Comércio para o encerramento de 2025 apontam para cerca de 79% do total das unidades familiares endividadas. Além disso, o percentual de famílias com dívidas em atraso se mantém em torno de 30% do total. Finalmente, a pesquisa aponta que por volta de 13% afirmam não terem condições de honrar os compromissos em atraso. A modalidade mais apontada refere-se ao cartão de crédito (85%), seguida dos carnês (16%) e do crédito pessoal (12%).

Por outro lado, merece atenção e reflexão a análise dos dados estratificados por faixa de renda.

Aqui fica gritante a diferença da incidência do drama do endividamento e da inadimplência para os setores de renda mais baixa.

O grupo mais vulnerável é o da faixa de zero a 3 salários-mínimos (sm). Na sequência vem o grupo de 3 a 5 sm. O percentual de endividamento é de 82% das famílias para o estrato de menor renda, em comparação com os 68% do estrato mais alto (mais de 10 sm).

Assim, o que se percebe é que o nível de famílias endividadas na base da pirâmide é 21% mais elevado que os setores do estrato mais alto.

Pesquisa de Endividamento das Famílias – dezembro 2025

Fonte: CNC

No entanto, o quadro se agrava bastante quando os quesitos avaliados são relativos à inadimplência: as dívidas em atraso e a percepção de que não será possível honrar os compromissos. Para as dívidas em atraso, a faixa de 0-3 sm apresenta o percentual de 39%, ao passo que a faixa mais de 10 sm exibe 15%.

Ou seja, os mais vulneráveis mantêm uma porcentagem de famílias com compromissos atrasados 160% mais alta que os de cima de renda mais elevada.

A disparidade é ainda mais alarmante quando se trata da percepção de que não devem conseguir pagar as dívidas. Na faixa 0-3 sm esse percentual é de 19%, enquanto no topo ele baixa para 5%. Ou seja, dentre os mais pobres esta impressão negativa e de desalento é 280% mais alta do que na faixa superior a 10 sm.

Desta maneira, o que se pode aprender com as reflexões da mestra é que não bastam apenas alguns bons números aparentes da esfera da macroeconomia. O fundamental é perceber como tal dinâmica rebate para o dia a dia concreto da vida da maioria da população.

Ao que tudo indica esse coquetel composto por precarização das condições de trabalho, rebaixamento de salários, jornadas de trabalho extenuantes e dívidas impagáveis impede que os índices festejados pelos analistas nos gabinetes cheguem nas residências das famílias e dos eleitores.

* Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.

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