Marcelo Zero: La Planète, c’est moi

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Foto: © Jonathan Ernst/ ABr

Por Marcelo Zero*

O que Trump anda fazendo coloca-o no mais alto da chamada escala F (F de fascista), desenvolvida por Theodor Adorno e outros, na famosa obra The Autoritharian Personality (A Personalidade Autoritária), de 1950, livro seminal que até hoje influencia reflexões sobre psicologia social e política e a sobre as bases psicossociais do fascismo, em sentido lato.

Tal fascismo, nesse sentido amplo, no sentido usado por Adorno, foi e é, aliás, a grande marca negativa que Bolsonaro imprimiu na sociedade e na política brasileira.

Uma marca que não pode ser naturalizada, em um ambiente democrático saudável.

Uma marca que precisa ser combatida por todos aqueles que tenham real compromisso com as instituições democráticas e com a soberania do Brasil.

Uma marca de crime e maldade, a ser enquadrada pela justiça.

A mesma coisa pode ser dita em relação a Trump e ao “trumpismo”. Trump exibe também claros sinais de sociopatia e representa óbvia e grave ameaça à democracia estadunidense (mesmo com todas as suas insuficiências) e às democracias do mundo.

No plano interno, Trump está corroendo celeremente as bases constitucionais e legais do que sobrou da democracia estadunidense. Creio que nem se pode utilizar mais o eufemismo “autocracia”, como o fazem Steven Levitsky e Lucan A. Way.

Com Trump, os EUA tendem a se tornar, se não houver pronta e ampla reação interna, uma franca ditadura. Jeffrey Sachs, entre vários outros analistas respeitáveis, já advertiu sobre isso.

As ações criminosas do ICE, as intervenções autoritárias em Estados governados e cidades governados por Democratas, as agressões à imprensa e às universidades, as tentativas de redesenho dos distritos eleitorais dos EUA e o claro desejo de buscar um terceiro mandato inconstitucional para Trump revelam um quadro extremamente preocupante.

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No plano externo, sua tentativa de criar uma ordem mundial hobbesiana, baseada no uso desavergonhado da força e na “bilatelarização” das relações internacionais, busca eliminar o multilateralismo e as regras mais elementares do direito internacional público.

Aliás, seus ideólogos estão dizendo isso claramente: o direito internacional não existe; não há regras a serem respeitadas.

Ora, o multilateralismo nada mais é que democracia na ordem internacional. Algo que intenta proteger os mais fracos contra a violência dos mais fortes. Sem o multilateralismo, passa a valer a velha e conhecida máxima de Tucídides: “Os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”.

A recente declaração de Trump de que o seu poder está limitado apenas por sua “moralidade” (qual?) é uma chocante confissão de um candidato a monarca interno absoluto e a Imperador mundial.

Luis XIV teria dito : “L’État, c’est moi”. Trump parece dizer : La Planète, c’est moi. Parece acreditar que sua zona de influência exclusiva é o mundo inteiro.

Trump, é evidente, caiu na “Armadilha de Tucídides” e sua “estratégia” obtusa, que desconhece a nova realidade multipolar, crescente e irreversível, da ordem mundial, não vai funcionar.

Ela poderá até funcionar, no curto-prazo e pontualmente, em países fragilizados e isolados, como a Venezuela. Também poderá funcionar na Groenlândia, já que a Europa vem se mostrando incapaz de reagir, de forma coesa, às agressões de Trump.

Diga-se passagem, Trump vê a União Europeia como um grande estorvo, um bloco que precisaria ser desconstruído e, a bem da verdade, nutre, no fundo, a mesma hostilidade contra a Otan, bem como contra todas as instituições multilaterais e plurilaterais, como se viu recentemente.

Trump, lembre-se, é um “antiglobalista”. Acredita que o “globalismo” é uma ideologia herdada do “marxismo cultural”, o qual procuraria, segundo essa interpretação obsoleta e tosca do mundo, subverter os valores tradicionais e cristãos do Ocidente e enfraquecer o Estado-Nação.

Não obstante, nos médio e longo prazos, essa “estratégia” trumpista, embora não esteja mais empenhada mais em caros e longos “nation builgings” e em “regime changes”, como no passado, mas sim em intervenções pontuais, rápidas e baratas, sem ocupação territorial, tende a enfraquecer os EUA e a acelerar o declínio relativo do Império.

A China, em particular, deverá se beneficiar dessa desordem hobbesiana, e o processo de “desdolarização”, grande temor de Trump e dos EUA, poderá se intensificar.

Afinal, o mundo em que Trump vive e delira é o mesmo mundo de Teddy Roosevelt. Um mundo que não existe mais.

Mas, no caso de Trump, alguns estadunidenses poderiam até alegar que ele estaria tentando promover os interesses dos EUA, ainda que de forma inteiramente amoral e ilegal.

No caso do bolsonarismo, que tem muitas semelhanças ideológicas com o trumpismo, é o inverso, porém.

Combinado com um ultraneoliberalismo e com um antipetismo e antiesquerdismo extremo, visceral, o bolsonarismo tem como premissa geopolítica a renúncia à soberania e a opção evidente por uma canina submissão, em relação aos EUA.

Assim, bolsonaristas e aliados não têm projeto algum, estratégia alguma, para o país, para além do ódio a quaisquer ações progressistas, da plena regressão econômica, social e política e do alinhamento desavergonhado e míope aos interesses desabridos do Império.

O bolsonarismo parece dizer: Le Brésil appartient aux États-Unis, em estreita consonância com o Corolário Trump da Doutrina Monroe.

Julián Marias, filósofo conservador, discípulo de Ortega y Gasset, certa vez foi perguntado se era “antimarxista”. Julián Marias afirmou que não, pois ser “anti” alguma coisa significa não ter identidade própria; significa ter a identidade política definida pelo ódio ao outro.

O bolsonarismo, nesse sentido, não tem identidade própria e visão alguma. Tem vocação para inexorável para quintal, para colônia. Move-se e define-se por uma sociopatia social e política que é um vácuo pleno de ódio e obtusidade.

Neste ano, com a inelegibilidade de Bolsonaro, seus avatares disputarão o lamentável espólio dessa sociopatia naturalizada, dessa submissão desavergonhada, desse buraco negro político.

Independentemente do nome, será a mesma coisa, a mesma tragédia, a mesma miséria intelectual, ética e moral já vista no ferro quente na tornozeleira. A mesma sociopatia tornada tão evidente na pandemia.

Não será “terceira via” civilizada; será a mesma via da barbárie e da submissão canina.

Contra essa perspectiva profundamente deletéria, haverá, sempre, a resposta da justiça, da democracia e dos valores civilizatórios.

Haverá, sempre, a resposta da soberania.

E haverá, sempre, para sempre, a resposta digna e altaneira de um povo que jamais deixará de defender o sonho libertador de um Brasil justo, próspero e soberano.

O Brasil de Lula.

Neste ano, esse Brasil será atacado de todas as formas, numa guerra híbrida implacável.

Nas eleições, a soberania democrática do País terá de ser o tema central. Um divisor de águas histórico.

Talvez definitivo.

O Brasil terá de escolher o Brasil.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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