Rudá Ricci: O “não voto” e os evangélicos ganharam as eleições municipais
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Marcelo Crivella (PRB) eleito prefeito do Rio de Janeiro em segundo turno. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil, via Fotos Públicas
O que mudou ideologicamente?
Quem ganhou as eleições municipais que terminaram ontem?
Eu jogaria minhas fichas no “não voto” e nos evangélicos.
Seguidos pelo forte personalismo revestido de “apolítico”, o que joga água no moinho do desencanto com a democracia e o jogo de conquista do convencimento popular.
Quem perdeu? O PT.
O PCdoB quase dobrou o número de prefeituras que governa e o PSOL foi a estrela, pela esquerda, dessas eleições.
Neste caso, a redução da presença da esquerda nas prefeituras se confunde com a redução da presença petista. Não de toda esquerda. O que enseja uma leitura mais panorâmica deste quadro institucional.
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O PT não apostou, principalmente durante a gestão Dilma, na esquerda e muito menos no seu crescimento.
Não propôs uma frente como a uruguaia.
Ao contrário. Caminhou para o lado oposto.
Lula já havia apostado na aliança com Maluf para eleger Haddad.
Antes, reeditou Collor e Sarney. Em Minas, blindou o então governador Aécio Neves.
Ora, esta lógica não daria razão à polêmica frase de Frei Betto, para quem o PT era governo, mas não tinha o poder?
Para não parecer fatalista, reedito a hipótese com outras palavras: as gestões lulistas não teriam fortalecido as lideranças conservadoras na última década e isolado a esquerda?
Temos a tendência em fazer leituras periodizadas do movimento histórico. Ajuda a racionalizar e sintetizar.
Mas, não raro, embaça a relação entre causa e efeito e dificulta a apreensão da dinâmica interna que transita entre um período para outro.
Muitas vezes, nem houve ruptura entre um período e outro, mas uma transição suave e cheia de contradições e paradoxos.
Assim, questiono: as forças conservadoras teriam surgido do nada nos últimos dois anos ou a mudança real se limitaria ao debacle petista?
De outra maneira: houve, efetivamente, mudança na composição ideológica dos governos ou mudança menor, de siglas que agora governam no lugar do PT, mas que já governavam com o PT?
O eleitor teria ficado mais conservador?
Enfim, o balanço das eleições municipais merece algo mais profundo que o fatalismo marqueteiro vem sugerindo nos últimos tempos.
Há, de fato, uma direita (e extrema direita) emergente no Brasil.
Mas o eleitor teria mudado efetivamente de ideologia?
Houve, efetivamente, uma mudança radical da cultura política do país em dois anos?
E, finalmente, o que concretamente teria levado à queda do PT ou a esta mudança ideológica do país (se ela efetivamente se alterou, hipótese que não me convence)?
Minha hipótese é: as respostas não estão nas siglas partidárias, mas no “não voto” e no crescimento dos evangélicos na política brasileira.
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