Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha

Palanque

Deixe aqui sugestões de pauta, de leitura e desabafos

Escreva!

   
 
Home Receba as últimas notícias via RSS
Você escreve Utilidades

Um débito colossal

Atualizado e Publicado em 22 de novembro de 2009 às 09:50

Um débito colossal

Ter, 08 de julho de 2008 08:37

FÁBIO KONDER COMPARATO, na Folha de S. Paulo

A escravidão de africanos e afrodescendentes no Brasil foi o crime coletivo de mais longa duração praticado nas Américas

A ESCRAVIDÃO de africanos e afrodescendentes no Brasil foi o crime coletivo de mais longa duração praticado nas Américas e um dos mais hediondos que a história registra.

Milhões de jovens foram capturados durante séculos na África e conduzidos com a corda no pescoço até os portos de embarque, onde eram batizados e recebiam, com ferro em brasa, a marca de seus respectivos proprietários. Essa carga humana era acumulada no porão de tumbeiros, com menos de um metro de altura.

Aqui desembarcados, os infelizes eram conduzidos a um mercado público, para serem arrematados em leilão. O preço individual de cada "peça" dependia da largura dos punhos e dos tornozelos.

Nos domínios rurais, os negros, malnutridos, trabalhavam até 16 horas por dia, sob o chicote dos feitores. O tempo de vida do escravo brasileiro no eito nunca ultrapassou 12 anos, e a mortalidade sempre superou a natalidade; de onde o incentivo constante ao tráfico negreiro. Segundo as avaliações mais conservadoras, 3,5 milhões de africanos foram trazidos como cativos ao Brasil.

O seu enquadramento no trabalho rural fazia-se pela violência contínua. Daí a busca desesperada de libertação, pela fuga ou o suicídio. As punições faziam-se em público, geralmente pelo açoite. Era freqüente aplicar a um escravo até 300 chibatadas, quando o Código Criminal do império as limitava ao máximo de 50 por dia. Mas em caso de falta grave, os patrões não hesitavam em infligir mutilações: dedos decepados, dentes quebrados, seios furados.

Tudo isso sem contar o trauma irreversível da desculturação, pois todos os cativos eram brutalmente afastados de sua língua, de seus costumes e suas tradições. Desde o embarque na África, procurava-se agrupar indivíduos de etnias diferentes, falando línguas incompreensíveis uns para os outros. Para que pudessem se comunicar entre si, tinham que aprender a língua dos patrões, gritada pelos feitores. Foi esse, aliás, o principal fator de disseminação da "última flor do Lácio" em todo o território nacional.

Outro efeito desse crime coletivo foi a geral desestruturaçã o dos laços familiares. As jovens escravas "de dentro" serviam habitualmente para saciar o impulso sexual dos machos da casa grande, enquanto na senzala homens e mulheres viviam em alojamentos separados. O acasalamento entre escravos era tolerado para a reprodução, jamais para a constituição de uma família regular.

O resultado inevitável foi a superposição do direito de propriedade aos deveres de parentesco, mesmo sangüíneo. Há alguns anos, um pesquisador ianque encontrou, no 1º Cartório de Notas de Campinas (SP), uma escritura pública de 1869, pela qual um varão, ao se tornar maior de idade, decidiu alforriar a própria mãe, que recebera por herança de seu progenitor.

O fato é que, em 13 de maio de 1888, abolimos a escravidão tal como encerramos, quase um século depois, os horrores do regime militar: viramos simplesmente a página. Os senhores de escravos e seus descendentes não se sentiram minimamente responsáveis pelas conseqüências do crime nefando praticado durante quase quatro séculos.

Ora, essas conseqüências permanecem bem marcadas até hoje em nossos costumes, nossa mentalidade social e nas relações econômicas. Atualmente, negros e pardos representam mais de 70% dos 10% mais pobres de nossa população. No mercado de trabalho, com a mesma qualificação e escolaridade, eles recebem em média quase a metade do salário pago aos brancos, e as mulheres negras, até metade da remuneração dos trabalhadores negros. Em nossas cidades, mais de dois terços dos jovens assassinados entre 15 e 18 anos são negros.

Na USP, a maior universidade da América Latina, os alunos negros não ultrapassam 2%, e, dos 5.400 professores, menos de dez são negros. É vergonhoso que tenhamos esperado 120 anos para ensaiar a primeira medida de apoio oficial à população negra: a reserva de vagas para matrícula em estabelecimentos de ensino superior.

No entanto, tal medida representa hoje o cumprimento de um expresso dever constitucional. O artigo 3º da Constituição de 1988 declara, como objetivos fundamentais da República, "erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais", bem como "promover o bem de todos", sem preconceitos de qualquer espécie.

Mas o preconceito que tisna os brasileiros de origem africana não é neles marcado apenas fisicamente, como se fazia outrora com ferro em brasa. Ele aparece registrado como uma degradação social permanente em todos os levantamentos estatísticos.

Que as nossas classes dominantes tenham, enfim, a mínima hombridade de reconhecer que esse colossal passivo de nossa herança histórica ainda nem começou a ser pago!

FÁBIO KONDER COMPARATO , 71, é professor titular aposentado da Faculdade de Direito da USP e autor, entre outras obras, de "Ética - Direito, Moral e Religião no Mundo Moderno" (Companhia das Letras).
 


Indique esta Matéria
ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Ubaldo (23/11/2009 - 21:55)
Muchacho:
Talvez não hajam empregadas brancas para negros abastados porque dependem dos negros a contratação.
Nos EUA, como você reconhece, existe a lei das minorias, onde existe cotas para os excluidos, qual contempla não só negros, mas hispanícos e amarelos e as empresas tem de empregar ao menos 10% deles.
Já que você citou os EUA, lembre-se que lá, preto casa com preta e branco casa com branca, salvo exceções. Não é o caso do Brasil, onde a maioria da população (50,6%) tem pele preta ou parda e não temos conflitos nem ódio racial. As cotas são muletas recusáveis, pois estão sendo impostas pelos verdadeiros racistas que são aqueles que querem incutir e manipular em benefício próprio. Além disso nos EUA os de pele escura tem orgulho disso em oposição ao Brasil onde muitos de pele escura gostariam de ter a pele branca. As cotas nas universidades devem ser cotas sociais, independentemente da cor da pele e sim da condição social. È um erro separar estudantes pela cor da pele.

Muchacho (23/11/2009 - 20:14)
Tenho 3 argumentos para quem se coloca contra a política de cotas:
1)o apartheid econômico entre brancos e negros ainda é abissal, alguém conhece alguma família negra que tenha alguma empregada doméstica branca ?
2)entenda primeiro o que é uma política afirmativa, antes de criticar.
3)as grandes empresas americanas vem adotando políticas de diversidade, priorizando mulheres, afrodescendentes, latinos e orientais em seus quadros, com excelentes resultados e grande reconhecimento.
Não entendo o pq da gritaria de quem é contra.

Nine (22/11/2009 - 21:05)
Minha mãe e minha irmã são pardas. Meu pai e eu somos brancos. Minha irmã e eu tivemos as mesmas oportunidades de estudo. Porém ela tem direito às votas e eu não. Isso é justo? Conheço várias famílias nessa situação. Minha melhor amiga estudou nos melhores colégios a vida toda. Fez 2 anos e meio no melhor pré vestibular da cidade e só passou na UFPR por ser cotista, tirando nota bem abaixo da minha que não entrei e nunca tive as oportunidades que ela teve. Isto é justo?

Não creio que as cotas raciais sejam uma boa medida. Sendo os negros a maioria dos pobres não seria mais justo que as cotas fossem apenas sociais? Ou no mínimo que para um negro ou pardo participar das cotas para afrodescendentes fosse exigido o mesmo que para as sociais? Renda e ter estudado em escolas públicas além das características fenotípicas de afrodescendencia?

FElisberto Campos (22/11/2009 - 20:11)
Se é para se estabelecer quotas, que sejam cotas sociais, e não raciais.Indiretamente, os afrodescendentes seriam beneficiados. Melhor seria, na verdade, que em vez de quotas, fosse concedido, no caso de vestibulares, um bônus na pontuação dos candidatos oriundos de familias pobres. Se não me engano, USP e a UNICAMP adotam esse procedimento. Quanto à indenização para todos afrodescendentes, é simplesmente inviável, se considerarmos que a maioria da população brasileira se enquadra nessa categoria. Mudando um pouco de assunto, acho que o ensino público superior no país deveria, em príncipio, ser pago, pagando cada um na medida de suas possibilidades. Continuaria gratuito para aqueles que não podem pagar. Em outras palavras, a mensalidade seria diretamente proporcional ao rendimento familiar, variando de zero até um teto a ser estabelecido. Seria uma medida interessante, se os recursos assim economizados fossem aplicados na educação pública de nível fundamental e médio.

Lmv P (22/11/2009 - 20:10)
Ubaldo (22/11/2009 - 20:00)
Sou da RAÇA HUMANA como todos que aqui comentam. Procuro vencer todos os preconceitos e tenho muitos amigos de pele clara, amarronzada e preta. Procuro educar meus filhos também sem preconceito. Não reconheço nenhuma dívida com nenhuma pessoa de pele escura. Penso que no Beasil há uma forte miscigenação de culturas, diferentemente dos EUA, por exemplo, que branco casa com branca e preto casa com preta, salvo exceções. Penso que não deveríamos ressaltar as diferenças de cor da pele, atribuindo sistemas de cotas ou comemorando o dia da consciência negra, pois essas manifestações vêm acompanhadas de segundas intenções (votos e manipulação). Por questões históricas, de desagradáveis lembranças, os de pele escura ficaram a margem da economia e sociedade. A inclusão social deve ser um processo natural alavancado pela Educação de boa qualidade, independente da cor da pele. Não devemos cair na tentação e entrar na armadilha dos políticos que determinada cor de pele é recusada socialmente. Fisicamente os de pele escura são mais fortes, facilmente verificado nos esportes. Intelectualmente, nemhuma cor de pele é inferior. Precisamos de oportunidade. Exijamos Educação de qualidade que o desenvolvimento é certo. Os políticos são imediatistas e preferem dar o peixe ao invés de ensinar a pescar, assim ficando mais fácil o povo ser manipulado. Dispensem as esmolas e vamos à luta!!!


Ô PAPINHO DE RACISTA ENRUSTIDO

Ubaldo (22/11/2009 - 20:00)
Sou da RAÇA HUMANA como todos que aqui comentam. Procuro vencer todos os preconceitos e tenho muitos amigos de pele clara, amarronzada e preta. Procuro educar meus filhos também sem preconceito. Não reconheço nenhuma dívida com nenhuma pessoa de pele escura. Penso que no Beasil há uma forte miscigenação de culturas, diferentemente dos EUA, por exemplo, que branco casa com branca e preto casa com preta, salvo exceções. Penso que não deveríamos ressaltar as diferenças de cor da pele, atribuindo sistemas de cotas ou comemorando o dia da consciência negra, pois essas manifestações vêm acompanhadas de segundas intenções (votos e manipulação). Por questões históricas, de desagradáveis lembranças, os de pele escura ficaram a margem da economia e sociedade. A inclusão social deve ser um processo natural alavancado pela Educação de boa qualidade, independente da cor da pele. Não devemos cair na tentação e entrar na armadilha dos políticos que determinada cor de pele é recusada socialmente. Fisicamente os de pele escura são mais fortes, facilmente verificado nos esportes. Intelectualmente, nemhuma cor de pele é inferior. Precisamos de oportunidade. Exijamos Educação de qualidade que o desenvolvimento é certo. Os políticos são imediatistas e preferem dar o peixe ao invés de ensinar a pescar, assim ficando mais fácil o povo ser manipulado. Dispensem as esmolas e vamos à luta!!!

luis (22/11/2009 - 18:42)
Acho engraçado os clovis rossis da vida reclamarem que o Lula receberá o presidente do Irã, que diz que o holocausto não existiu. Existiu sim, somando-se a ele o assassinato de 500 mil ciganos nos campos nazistas. Porém,esse "débito colossal" - aqui na terrinha - passa ao largo dos doutos opinadores da Folha da Fiesp. Diferentemente das milionárias indenizações do Holocausto, a negrada do Brasil só pode ser "indenizada" com políticas públicas de curto, médio e longo prazo. Incluindo aí política afirmativa das cotas. Como um passo limitado, mas essencial. E a elite branca se escandaliza com o presidente do Irã em solo nacional, mas não se lembra de seu passado escravocrata.

Marat (22/11/2009 - 14:04)
Ao amigo Muito Agradecido (22/11/2009 - 13:23)
Marat(22/11 - 11:12hrs.)
MUITO OBRIGADO PELAS SUAS PALAVRAS E QUE DEUS LHE ABENÇOE.
Que todos nós possamos viver num país próspero e justo...
Um abraço!!!

Marat (22/11/2009 - 14:03)
Ricardo Silveira... bem colocado! Os que são bons de verdade não têm tanta força quanto aos torpes de plantão.

Leider Lincoln (22/11/2009 - 13:35)
Orides, muita insensibilidade disfarçada com palavras em tom peremptório, diga-se bem. Essa elitezinha safada é capaz de dizer qualquer coisa para manter seus privilégios...

Muito Agradecido (22/11/2009 - 13:23)
Marat(22/11 - 11:12hrs.)
MUITO OBRIGADO PELAS SUAS PALAVRAS E QUE DEUS LHE ABENÇOE.

ricardo silveira (22/11/2009 - 12:53)
É um privilégio ler este texto. Por que um Gilmar Mendes está no STF e um Fábio Konder Comparato não?

Paulo (22/11/2009 - 11:18)
O sistema de cotas tem sua discussão centrada em implanta-lo no presente para compensar uma injustiça no passado.
Que a discussão do racismo e injustiça continue mas em relação as cotas, precisamos ve-las como fator de inclusão social e essencial ao futuro, não apenas passado e presente, de todos.

Marat (22/11/2009 - 11:12)
Sou branco. Sempre fui e sempre serei a favor das cotas raciais. Concordo com todos aqueles que defendem as cotas, por saber que o crime praticado contra os negros foi de gravidade extrema e mesmo que se faça muito por eles, ainda ficaremos em débito! Os fascistas de visão curta (desculpe o pleonasmo) não conseguem perceber a história como um todo, ou simple$$mente agem de má-fé ao lutarem contra as cotas.

José Medeiros (22/11/2009 - 11:09)
As nossas classes dominantes não abrirão mão, facilmente, de continuarem a ser as nossas classes dominantes. E para que tal ocorra, as classes dominantes precisam, desesperadamente, criar os mecanismos que perpetuem as classes dominadas. Para isto conta com muitos instrumentos de dominação e manipulação, alguns deles travestidos de aliados do povo, quais, por exemplo, a mídia venal, cooptada, perversa e antibrasileira, a serviço dos mais vis interesses. A mídia dos Civitas, Marinhos, Frias e Mesquitas e agora, os Saad e Abravanel. Este último, que já engordou os bolsos às custas de milhões de pobres, chega a ser uma vergonha para a nação.

Orides (22/11/2009 - 11:01)
Como é possível ser contra as cotas para negros?

Só muita insensibilidade pode levar alguém a ser contra.

Theo (22/11/2009 - 10:31)
Entregar vagas pra negros vai ser um tiro no proprio pe dos pobres.

antonio ateu (22/11/2009 - 10:04)
não queremos só os aneis. tenho dito. pois algeum já dizia iso



Comente este Texto
Email: viomundoteve@msn.com Receba o conteúdo do site via RSS developed by: webmasters online design by: kallore design