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Tortura Nunca Mais responde à Folha

Atualizado e Publicado em 05 de março de 2009 às 17:58

NOTA REVOLTANTE

 É revoltante a nota da redação da FSP (19/02/09), em resposta a uma das cartas de repúdio ao editorial “Limites a Chávez” (17/02/09), onde a alcunha de “ditabranda” é atribuída ao regime militar imposto à força no Brasil, no período de 1964 a 1985. Na nota de três linhas, demonstrando total desconhecimento histórico, o jornalista apresenta de forma linear os 21 anos da ditadura militar brasileira, reafirmando que, comparada às demais ditaduras latinoamericanas do mesmo período, a brasileira foi mais branda e apresentou níveis baixos de violência política e institucional.

Primeiramente, o jornalista incorre no erro de querer classificar o dano causado pela violação dos direitos humanos pelo Estado. Tal dano é sempre inclassificável, assim como não se pode dizer que a dor de alguém é maior ou menor do que a de um outro, já que a dor é uma realidade de intensidade, não de extensividade, e não podemos medi-la a metro. Se as ditaduras da Argentina e do Chile cometeram um número maior de assassinatos tal distinção numérica, no entanto, não nos pode levar à leviandade de querer classificar uma ditadura como menos ou mais violadora que outra. Nos crimes de lesa-humanidade somos todos atingidos em um só ato.  Por outro lado, ficamos sem saber o que o redator da nota considera como "níveis baixos de violência política e institucional", já que parece não relacionar os fatos acontecidos ao conceito.

Contudo, indubitavelmente, o jornalista, em sua resposta apressada e inconsequente, oferece-nos um panorama claro dos efeitos até hoje nefastos do silenciamento que ainda paira sobre o período da ditadura militar brasileira.

Na ditadura, todas as garantias constitucionais foram suspensas e, além das pessoas que foram presas, torturadas, mortas ou desaparecidas, todos os partidos e muitos políticos foram cassados; os meios de comunicação foram censurados; jornais foram empastelados e fechados; o direito de ir e vir foi cerceado; associações e reuniões foram proibidas; correspondências foram violadas; escutas telefônicas foram implantadas; peças de teatro, livros e filmes foram proibidos (Sófocles teve a sua prisão decretada); currículos foram reformulados retirando-se disciplinas consideradas “perigosas”; professores foram presos (inclusive um ex-presidente da república); inúmeros artistas, cientistas e intelectuais tiveram que fugir do país e muitos foram presos.

Podia-se ser preso e “sumido” ao bel prazer dos militares, em singelos namoros noturnos em locais considerados “suspeitos”, em passeios bucólicos pela ainda silvestre Barra da Tijuca, como também apenas por se possuir livros “proibidos”, por dar aulas consideradas “subversivas”, por ouvir músicas “renegadas” pela ditadura, ou simplesmente por expressar opiniões dissonantes do regime vigente.

Parte de nossa história foi subtraída da história oficial, os arquivos da ditadura nunca foram abertos, os torturadores não foram apontados, responsabilizados e muito menos punidos (alguns foram até laureados), ao contrário do que está sendo feito em outros países da AL.

Sem se aperceber, o jornalista revela-se ele próprio como um dos afetados pela tal “ditabranda”: um profissional formado na ignorância da história de seu próprio país e, portanto, desconhecedor do que seja efetivamente violência política e institucional.

Para os chamados “cidadãos comuns” – todos também afetados, mesmo desconhecendo tais efeitos – isso poderia ser apenas chamado de alienação política, fato historicamente comum na sociedade brasileira. Para um jornalista é uma falha grave em sua formação profissional (meramente tecnicista?), a menos que se considere um pós-moderno e tenha decretado o fim da história.

Em caso contrário, deve aprender que o acobertamento dos crimes de lesa-humanidade da ditadura, o silenciamento sobre tal período histórico, e a impunidade dos crimes e dos criminosos produziram e continuam produzindo efeitos que estão entranhados nas instituições do país e arraigados nos “corações e mentes” dos brasileiros.

Por exemplo, na própria Folha on line de 26 de fevereiro, lemos que a impunidade envolvendo casos de abuso de poder cometidos por policiais federais, estaduais e militares foi ressaltada pelo Departamento de Estado americano em seu relatório anual.

O documento aponta que esse é um dos maiores problemas enfrentados em direitos humanos no Brasil. A violência policial foi um dos destaques no estudo do Governo americano, que denuncia "mortes ilegais, força excessiva, agressões, abusos e torturas de detidos e reclusos por parte de policiais e forças de segurança de prisões". Destaca ainda que muitos assassinatos foram cometidos por esquadrões da morte ligados às forças de segurança, "em alguns casos com a participação policial".

Essa é também uma das heranças do silenciamento sobre os crimes da ditadura militar brasileira e se estende até os dias atuais: o esquema dos porões ainda não foi desmontado; ontem, os “inimigos perigosos” confinados nos porões eram os ditos “subversivos”, em uma política repressora de “segurança nacional”; hoje, na reinante política repressora de “segurança pública”, dentro do modelo neoliberal, quem são os “perigosos inimigos” sujeitados aos porões ainda não desativados?

Se for capaz, e não tiver medo de perder o emprego, cabe ao jornalista pesquisar a resposta.

Janne Calhau Mourão – Psicóloga – Grupo Tortura Nunca Mais - Rio de Janeiro


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Hans Bintje (06/03/2009 - 15:34)
Pessoal,

não adianta ficar brigando com A, B ou C.

Vamos à manifestação e fazer dela uma festa da Democracia, contra todas as ditaduras que tentam - com graus variados de sucesso - se impor no dia-a-dia.

Sempre atentos ao que escreveu Voltaire, "o preço da liberdade é a eterna vigilância".

Jairo Beraldo (06/03/2009 - 13:57)
Caro Creuso,
Dvorak não vai a manifestação,não porque tem ideologia ou é a favor/contra alguma coisa...é pelo simples fato de ser FAKE!

André Oliveira (06/03/2009 - 09:58)
O número de vítimas da ditabranda aumentará muito mais se forem investigados os casos de homicídio, suicídio, latrocínio, atropelamento, acidente de trânsito, morte súbita, etc.

Juscelino Kubitschek, João Goulart, Zuzu Angel, e muitos outros casos são conhecidos. NO entanto, defendo a hipótese de que muitos deles sequer foram levantados.

Muitas pessoas indesejáveis ao sistema desapareceram pelas vias legais da ditabranda, sem direito a nenhuma lembrança.

Beto LIma (06/03/2009 - 09:29)
É isso aí Dvorak.
O Eduardo foi infeliz em sua colocação. poderíamos chamar o regime em Cuba de "DITAdoce" e aqui DITAbranda.
Assim fica legal..... nem mais nem menos..........

francesco la gatta (06/03/2009 - 09:12)
QUE VERGONHA, A FOLHA DEFENDER TORTURADOR, O CRIME MAIS HEDIONDO DA HUMANIDADE, SERA QUE ESSE POVO PENSA OU TEM ESTRUME NO LUGAR DO CEREBRO.DEFENDER DITADURAS É A LEVIANDADE SUPREMA DOS IMBECIS.

francisco.latorre (06/03/2009 - 07:13)

NÃO COMPRE A MÍDIA VENDIDA.



francisco.latorre (06/03/2009 - 07:13)

quem escreveu a besteira foi o tavinho.

o dono do gado.



Hilda Lima (06/03/2009 - 06:24)
Este episódio da "ditabranda" me lembra o prefácio do livro "por quem os sinos dobram".

Uma única vida que se perde afeta a nação como um todo.

Não se pode quantificar os efeitos e consquência da perda da vida de tantas pessoas. Nossas lideranças políticas foram marcadas e ainda hoje vivemos as consequências daquele período nefasto.


Beto Lima (05/03/2009 - 23:17)
Eu concordo com o Dvorak no que se refere ao "Grupo Tortura Nunca Mais" não precisar de se apoiar em estatisticas de Americanos,para se contrapor a quaisquer colocações do Artigo na FSP "DITABRANDA'. Aqui no Brasil, temos elementos suficientes para dispensar as estatísticas deles. Os Americanos não tem moral nenhuma em dar palpites sobre a politica de Direitos Humanos de qualquer país que seja. Querem dar palpites???? Primeiro sejam exemplos...........

Dvorak (05/03/2009 - 21:47)
Caro Creuzo,
eu condeno qualquer tipo de ditadura, seja de esquerda ou de direita.Não poderei aceitar seu convite para ir em uma manifestação onde o seu organizador tem o seguinte pensamento a respeito da ditadura cubana:

"(...)De fato, não se pode dizer que Cuba é uma democracia plena. O leque de opções eleitorais à disposição dos cubanos não lhes permite eleger outro governo para o país. Contudo, se formos analisar outras ditaduras pelo mundo afora, verificaremos que a cubana, se é que se pode chamá-la assim, é bem amena. Sobretudo no que diz respeito à qualidade de vida do povo e à liberdade de expressão, desde sempre as maiores vítimas das ditaduras.

No caso cubano, trata-se de uma "ditadura" até bem doce..."

Quando houver uma manifestação contra a "Ditabranda" brasileira e a Dulce "dictadura" cubana, quem sabe...

Marat (05/03/2009 - 21:26)
Novos slogans do panfleto:
Folha: branda com seus cúmplices; dura com seus adversários.
Folha: de rabo preso com a parcialidade;
Folha: Você paga, a gente publica...

Jorge Fernandes (05/03/2009 - 20:52)
Caro Dvorak

Para facilitar que encontremos vc na manifestação, use um chapeu, do tipo panamá
abraços

Creuzo Oliveira (05/03/2009 - 20:16)
sr. Dvorak, vai na manifestação (Abaixo a Ditabranda) sábado? ficarei muito feliz se a resposta for sim.

Abraço.

Marat (05/03/2009 - 20:15)
Quem escreveu aquele editorial abjeto na folha, obviamene se escondeu. Se fosse Homem de verdade, assinaria. Os covardes se utilizam de vários ardis para lançar idéias fascistas e retrógradas. Naquela espelunca, usaram o tal do editorial...

jose carlos lima (05/03/2009 - 20:03)
Dias atrás vi uma artigo que por um lapso não gravei o link para postar aqui. Achei muito interessante pois, trocando em miúdos, a matéria informa que a nova geração não quer saber de televisão. Eles trocaram a TV pela net. E na net apreciam, dentre outras coisas, as redes sociais. Estou muito feliz por pecer que o Emerson Luis está se empenhando em convergir em sum espaço toda a nossa rede. Como se vê ocorrerão as participações via online. Este encontro real e mediante telepresença vi marcar sim os movimentos sociais, vai servir de exemplo para as demais entidades que lutam por justiça social. Vejo no blog do Oni que este mito vivo, Oscar Niemayer, manisfetou apoio. Viva a cibercidadania.

www.josecarloslima.blogspot.com

Dvorak (05/03/2009 - 19:54)
Caro Leo,
desafio você a mostrar onde defendi a ditadura em meu comentário.Quero crer que a sua declaração é apenas fruto de sua limitada capacidade de interpretar um texto, por mais simples que seja.Acertei?

Leo (05/03/2009 - 19:16)
Dvorak, eles não terem moral para falar do Brasil não significa que o que eles dizem sobre o Brasil não seja verdade.

Pra quem esbraveja contra Fidel e Chavez os chamando de ditador (Roosevelt foi eleito em 4 mandatos seguidos e Berlusconi está há mais de 10 anos no poder), vc parece ser batsante incoerente defendendo a ditadura de direita brasileira.

Creuzo Oliveira (05/03/2009 - 18:35)
"Lei da Anistia"

Na minha concepção a anistia só poderia incidir sobre as pessoas que foram declaradas culpadas em julgamento. Como é possível anistiar alguém sem condenação? É possível anistiar um inocente? Da forma como aconteceu o nome apropriado seria "Lei Acordo de Esquecimento", pois foi tudo deixado pra lá - não mexe mais nisso e vamos em frente. Como fica um povo sem saber a história da sua nação? Como esse povo pode olhar pra um "anistiado" sem ter a certeza de sua inocência ou culpa, qual a natureza do crime cometido, sem poder saber se suas mãos ainda sentem prazer pela tortura dos "inimigos" ou se foi apenas um recuperável que estava do lado errado na hora errada da vida. A quem interessa apagar a história? Qual o benefício que isso pode trazer?
Será ainda possível consertar essa barbaridade?

O Brasileiro (05/03/2009 - 18:22)
Estamos de luto novamente no Brasil... a verdade e a dignidade foram a óbito na Folha de São Paulo!!!
Lá, agora, só restou o cinismo!!!

Dvorak (05/03/2009 - 18:14)
"A violência policial foi um dos destaques no estudo do Governo americano, que denuncia "mortes ilegais, força excessiva, agressões, abusos e torturas de detidos e reclusos por parte de policiais e forças de segurança de prisões"."

É cômico se não fosse trágico o Grupo Tortura Nunca Mais citar relatório feito pelos EUA a respeito do Brasil.Que moral tem o Governo Americano para fazer críticas à violência policial brasileira, quando mantém em Guantánamo, presos sem acusação formal, sem direito a advogados, sofrendo todo tipo de tortura?E as fotos na prisão Abu Graib?



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