
Atualizado em 01 de outubro de 2009 às 14:44 | Publicado em 01 de outubro de 2009 às 14:35
do blog da revista norte-americana Time:
Brasil relutantemente assume papel chave na disputa em Honduras
Por Tim Padgett com Andrew Downie / São Paulo Wednesday, Sep. 30, 2009
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva estava a 40 mil pés de altitude no dia 21 de setembro, a caminho da Assembléia Geral das Nações Unidas em Nova York, quando ele recebeu a notícia. O presidente exilado de Honduras Manuel Zelaya, depois de entrar escondido no país centro-americano, tinha aparecido na embaixada brasileira em Tegucigalpa em busca de asilo. Lula, como todos os outros líderes mundiais, tinha pedido a restauração de Zelaya desde que ele foi derrubado por um golpe militar em 28 de junho. Assim, Lula não tinha outra escolha a não ser deixá-lo entrar na embaixada. Mas quando Lula chegou em Manhattan, de acordo com fontes numerosas, sua irritação estava clara. "Ele foi pego de surpresa e colocado em uma posição desconfortável", diz uma fonte brasileira. "O Brasil estava no centro da crise hondurenha. Não é o que ele queria".
Mas era o desejo de líderes esquerdistas da América Latina como o presidente venezuelano Hugo Chávez, que publicamente se gabou de que tinha sido ele quem havia sugerido a Zelaya procurar a missão brasileira. Seja ou não verdade -- e muitos na mídia brasileira "estão céticos de que isso poderia ter acontecido sem o governo Lula ter dado algum tipo de sinal de que Zelaya seria bem-vindo" à embaixada, diz Paulo Sotero, diretor do Instituto Brasil do Woodrow Wilson Center em Washington DC [Nota do Viomundo: Funciona assim. O Paulo Sotero, jornalista, reproduz o que outros jornalistas acham. É o achismo em escala internacional] -- Brasília se encontra no tipo de situação que no passado tentou evitar.
Chávez nunca perde uma chance de enfiar o nariz para denunciar a influência dos Estados Unidos na América Latina e como tinha ficado impaciente com o que considera tentativas tépidas do governo Obama de pressão sobre os líderes golpistas em Honduras e de colocar seu aliado Zelaya de novo no poder, decidiu que tinha chegado a hora de envolver Lula numa situação banana-republic que se torna mais complicada para o hemisfério a cada dia que passa.
O Brasil pode estar justificadamente irritado com Chávez, mas talvez não devesse estar tão surpreso. Em anos recentes, o poder da potência da América do Sul tem sido reconhecido como o primeiro real contrapeso aos Estados Unidos no hemisfério ocidental -- o que significa, pelo menos para outros países das Américas, assumir um papel maior e mais pró-ativo em resolver as disfunções políticas do Novo Mundo, como em Honduras.
Lula e Obama são colegas e almas gêmeas de centro-esquerda, mas quando Obama disse no mês passado que aqueles que questionavam sua ação em Honduras agora estavam sendo hipócritas porque eles eram "os mesmos que sempre denunciam nossa intervenção na América Latina", ele estava incluindo o Brasil, que também deu voz às suas preocupações sobre os esforços dos Estados Unidos. "Não dá para dizer as duas coisas", Obama soltou.
O Brasil não é um jogador inerte na América Latina. De fato, o seu corpo diplomático (usualmente chamado Itamaraty, por causa do nome do prédio modernista que sedia o ministério das Relações Exteriores em Brasília) é amplamente considerado um dos melhores do mundo, e teve um papel importante para desarmar crises sul-americanas como a disputa entre Colômbia e Venezuela no ano passado. Tropas brasileiras tocam a missão da ONU no violento Haiti. E Lula, um dos chefes de estado mais populares do mundo, se tornou o mais eficaz intermediário entre Washington e a ressurgente esquerda anti-americana da América Latina.
O Brasil prefere manter esse trabalho nos bastidores e sua política externa é decididamente não-intervencionista. "Não temos a tentação de exportar nosso modelo político e econômico", o assessor de política externa de Lula, Marco Aurélio Garcia, disse à Time no ano passado. "Não acreditamos que todos devam ser como nós". Mas, ao mesmo tempo, Lula está numa cruzada para fazer do Brasil, com a quinta maior população do mundo e a nona maior economia, um sério jogador internacional.
Ele faz dura campanha por um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas e maior participação das nações em desenvolvimento nas políticas mundiais de comércio e econômica. (Ele também torcerá em Copenhague pela proposta brasileira para sediar as Olimpíadas de 2016, uma decisão que pode ajudar a convencer Obama a ir à Dinamarca em pessoa defender a candidatura de Chicago). É difícil manter uma tradição límpida de não intervencionismo com ambições como essas -- e crescentemente, o hemisfério diz ao Brasil que é um tanto ingênuo insistir que pode continuar ganhando sempre.
Então, agora, o Brasil goste ou não, está até o pescoço envolvido em Honduras e o hemisfério espera que isso signifique perspectiva maior de uma saída negociada entre Zelaya e os líderes do golpe, como o presidente de fato Roberto Micheletti. Zelaya complicou as coisas para o Brasil ao fazer comentários exagerados, dizendo na semana passada que "mercenários israelenses" faziam dele e de seu grupo na embaixada alvo para transmissões de alta frequencia. Micheletti, enquanto isso, passou do limite ao expulsar uma delegação da Organização dos Estados Americanos (OEA) e ao tentar acabar com os direitos constitucionais em Honduras. Ele até deu a Lula até a semana que vem para declarar por quanto tempo o Brasil pretende dar abrigo a Zelaya, sob risco da tomada de medidas não especificadas contra a embaixada brasileira. Lula devolveu que o Brasil "não vai responder ao ultimato de um governo de golpistas". Mas, segundo Michael Shifter, do Diálogo Interamericano de Washington, "o Brasil está descobrindo o que o Obama está enfrentando em Honduras".
Ainda assim, porque a maioria dos analistas concorda que o golpe em Honduras manda uma mensagem perigosa às instáveis democracias da região, acreditam que ter o respeito do Brasil jogado mais diretamente na mistura pode ajudar as negociações. Diz outra fonte próxima a Lula, "penso que as conversas estão evoluindo agora que o Zelaya está de volta e sob nossa proteção". Se um acordo eventualmente acontecer em Honduras, a imagem do Brasil como um poder regional vai decolar. Se não, Lula ainda assim vai marcar ponto com sua base esquerdista do Partido dos Trabalhadores. "Mesmo que não der resultado ele ainda é o herói de uma causa nobre para a esquerda latino-americana", diz Rubens Ricupero, que já foi um diplomata importante e é rival político de Lula.
De qualquer forma, diz Shifter, o Brasil e os Estados Unidos deverão demarcar seus esforços hemisféricos quando a crise de Honduras acabar: o Brasil focado na América do Sul, onde a performance de Washington parece crescentemente amarrada e os Estados Unidos no México, América Central e Caribe, onde o Brasil tem poucos interesses. No momento, no entanto, os dois poderes se manifestam nas ruas de Tegucigalpa.
Agora, o importante mesmo... é que ganhe o povo de Honduras.
Que volte Zelaya... e que estes racistas larápios nunca mais ousem promover uma guerra contra seu próprio povo.
Fora "goriletti"! Golpista assassino e covarde!