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29 de julho de 2010 às 21:13

The Economist: Quatro razões para acreditar no Brasil

Quatro razões para acreditar no Brasil

26 de julho de 2010, 16h34, The Economist

publicado no Blog da Petrobras, dica do MVM News

QUANDO, em 2001, o Goldman Sachs inventou o acrônimo BRICs para as maiores economias emergentes, o país que a maioria das pessoas disse não pertencer ao grupo era o Brasil. Hoje, o principal candidato a exclusão é a Rússia. Mas alguns observadores proeminentes ainda são céticos quanto às perspectivas do Brasil. Um exemplo notável é Martin Wolf, o principal comentarista de economia do Financial Times, que recentemente (e com muita razão) observou que a participação do Brasil na produção mundial na verdade caiu nos últimos 15 anos, de 3,1% em 1995 para 2,9% em 2009 em paridade do poder de compra. “O Brasil não tem como se tornar um ator tão grande no mundo quanto os dois gigantes asiáticos”, China e Índia, Wolf conclui.

Em reunião recente com um grupo de investidores em Hong Kong, Rubens Ricupero fez uma contra-argumentação intrigante. Respeitado diplomata brasileiro com muitos anos de serviço, Ricupero foi o secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento de 1995 a 2004. Embora tenha ligações com a oposição ao Partido dos Trabalhadores — ele já atuou como ministro da Fazenda no governo de um partido rival — sua análise não é partidária. “Pela primeira vez na história”, argumenta, o Brasil está desfrutando de “condições propícias em quatro áreas que costumavam apresentar sérias limitações ao crescimento”. São elas:

Commodities. A produção de commodities costumava ser considerada uma calamidade ou, na melhor das hipóteses, algo que os países deveriam diversificar o mais rápido possível (o que o próprio Brasil fez na década de 1970). Mas nos próximos 50 anos, observa Ricupero, metade do aumento esperado na população mundial virá de oito países, dos quais apenas um — os Estados Unidos — não tira proveito das commodities a uma taxa de aumento exponencial. Os outros são China, Índia, Paquistão, Nigéria, Bangladesh, Etiópia e Congo. Somente a China representará 40% da demanda adicional de carne do mundo, ele observa. Essa demanda continuará forte, em parte, devido à população em crescimento e, em parte, devido à urbanização, que aumenta a demanda por commodities industriais (como o minério de ferro usado na fabricação de aço) e carne (porque a urbanização muda os hábitos alimentares). O Brasil já é um grande produtor de minério de ferro e se transformou em uma potência agrícola nos últimos dez anos, tornando-se o primeiro país tropical a entrar para o dominante grupo dos exportadores de alimentos de clima temperado, como Estados Unidos e União Europeia. Está bem colocado para se beneficiar do boom das commodities dos mercados emergentes.

Petróleo. Ricupero argumenta que os sucessos da companhia petrolífera estatal do Brasil, a Petrobras, na exploração de petróleo em alto-mar transformou o setor energético brasileiro. “Embora ainda não possam ser feitas estimativas precisas e finais do potencial das reservas de petróleo do pré-sal da Bacia de Santos”, diz, “todas as indicações sérias apontam para a alta probabilidade de que o Brasil esteja em condições de se tornar pelo menos um país exportador de petróleo líquido de médio porte”. Novos depósitos de petróleo e gás distantes do volátil Oriente Médio devem aumentar a importância estratégica do Brasil, bem como melhorar sua posição quanto à balança de pagamentos.

Demografia. O Brasil está colhendo um grande dividendo demográfico. Em 1964, sua taxa de fertilidade (o número médio de filhos que uma mulher pode esperar ter durante a vida) era de 6,2. Caiu para 2,5 em 1996, e está agora abaixo do nível de substituição, em 1,8, uma das quedas mais acentuadas do mundo. O resultado tem sido uma diminuição acentuada na taxa de dependência – o número de crianças e idosos dependentes de cada adulto em idade ativa. Na década de 1990, a proporção era de 90 para 100 (isto é, havia 90 dependentes, a maioria crianças, para cada 100 brasileiros em idade ativa). Hoje é de 48 para 100. Graças a isso, o Brasil não tem mais de construir escolas, hospitais, universidades e outras instituições sociais de maneira apressada e desordenada para acompanhar o ritmo do crescimento populacional. Com o tempo, a proporção voltará a aumentar à medida que a força de trabalho de hoje se aposente, mas esses problemas persistirão por décadas. Enquanto isso, o Brasil pode dar mais atenção à qualidade do que à quantidade de seus gastos sociais, que devem, em teoria, melhorar a educação, a saúde e as qualificações de trabalho da população.

Urbanização. A urbanização estimula o crescimento econômico e ao mesmo tempo o acompanha. Mas também causa problemas. “Muitos dos piores problemas contemporâneos do Brasil”, diz Ricupero, como “falta de centros educacionais e de saúde, transporte público precário, marginalidade e criminalidade, derivam de uma incapacidade de lidar com migrações internas de maneira ordenada e planejada”. Isso agora está mudando, ele argumenta. As ondas de migrantes do interior para as cidades de certa forma acabaram. O Brasil é agora em grande parte um país urbano: cerca de quatro quintos da população vive em cidades. “Para o Brasil”, conclui, “o período de crescimento frenético e caótico das grandes cidades que está ocorrendo agora na Ásia e na África já é coisa do passado”.

Ricupero é relativamente cauteloso em sua conclusão. “Os quatro conjuntos de condições descritos acima”, diz, “não são de forma alguma garantias certas de sucesso automático”. Ele admite que o Brasil ficou para trás em infraestrutura, por exemplo, e diz que, se o país tivesse o tipo de infraestrutura que se vê na Costa Rica e no Chile (os dois melhores exemplos na América Latina), o crescimento econômico seria cerca de dois pontos percentuais mais alto por ano. Por outro lado, o Brasil também tem algumas vantagens: ao contrário da China, da Rússia e da Índia, está em paz com seus vizinhos (todos os dez). Embora possa se pensar que tudo isso realmente represente uma resposta, Wolf tem suas dúvidas. O Brasil pode ainda continuar sendo um ator relativamente pequeno no mundo. No entanto, os pontos de Ricupero estão, pelo menos, de fato ocorrendo (não são coisas esperadas para o futuro), podem ser mensurados em termos concretos e são de longo prazo (devem continuar por décadas). Quem sabe? Talvez estejam até certos.

 

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