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Terra de índio é terra da União

Atualizado e Publicado em 23 de setembro de 2008 às 14:41

por Stephan Baines

Nos últimos anos está havendo uma campanha de informações falsas, veiculadas através da mídia por uma meia dúzia de rizicultores (que ocuparam parte da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, e vêm expandindo suas lavouras), junto com alguns políticos e empresários roraimenses, para desinformar a opinião pública a respeito desta Terra Indígena - questão re-acirrada por declarações de alguns militares à imprensa, e violências e agressões de alguns rizicultores contra os índios, culminando numa ação movida por fazendeiros e pelo governo do estado visando anular ou modificar sua demarcação, concluída em 1998 e homologada pelo governo do presidente Lula em abril de 2005.

Entretanto, o voto pela manutenção da demarcação em área contínua, proferido pelo ministro Carlos Ayres Britto em 27 de agosto último, foi um sinal positivo de que o Judiciário está respeitando os direitos constitucionais dos povos indígenas. O ministro, que é o relator da ação que contesta a demarcação no Supremo Tribunal Federal (STF), respaldando-se em argumentos sólidos, confirmou que "a extensão da área demarcada é compatível com as coordenadas constitucionais", e que as características geográficas contra-indicam uma demarcação em ilhas.

O ministro afirmou que "são nulas as titulações conferidas pelo Incra" a não-índios, pois as terras "já eram e permanecem indígenas". Constatou que "os rizicultores que passaram a explorar as terras indígenas somente a partir de 1992 (…) não têm qualquer direito adquirido à respectiva posse", por serem as posses antigas o resultado de "inescondível esbulho", em que "os índios foram de lá empurrados, enxotados, escorraçados". Assinalou que "a presença dos arrozeiros subtrai dos índios extensas áreas de solo fértil, imprescindíveis" às suas atividades produtivas, além de impedir seu acesso a rios e degradar o ambiente.

O ministro demonstrou que, conforme a Constituição Federal, o ato de demarcação foi meramente declaratório de uma situação jurídica preexistente de direito originário sobre as terras. Esclareceu que em Roraima há terra para todos, considerando que a população do estado não chega a 400 mil habitantes, e para os cerca de 350 mil não-índios há quase 11 milhões de hectares de terras disponíveis, enquanto a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, com uma área de 1,747 milhão de hectares, é habitada por cerca de 18 mil indígenas. Ressaltou o ministro o "falso antagonismo" na idéia de que demarcação de terras indígenas atrapalhe o desenvolvimento do País, e demonstrou também que as terras indígenas no Brasil são terras da União, e nada impede a atuação das Forças Armadas e da Polícia Federal em faixas de fronteira.

A bandeira do nacionalismo brasileiro vem sendo levantada para colocar em questão a demarcação desta Terra Indígena por meio do argumento falso de que a ocupação indígena põe em risco a soberania nacional, buscando retroceder os direitos indígenas às suas terras. O objetivo destes ataques aos direitos indígenas sobre suas terras é de beneficiar a apropriação privada de terras da União. Pierre Clastres e outros antropólogos revelam que não há nenhum perigo, conforme argumentam alguns militares, de um separatismo indígena, pois as sociedades indígenas das planícies baixas sul-americanas sempre recusaram o Estado, tendo formas de organização sócio-política diferenciadas daquelas do Estado-nação, o que descarta argumentos de uma suposta ameaça à soberania nacional. Ao contrário, os povos indígenas em áreas de fronteira defendem a soberania nacional.

As Terras Indígenas são terras da União sobre as quais os índios têm direitos originários e, segundo a Constituição (artigo 231), destinam-se à sua posse permanente. E o Exército tem acesso a essas terras para fiscalizar as fronteiras. Para alguns militares, em relação à Raposa Serra do Sol, o que está em jogo é o interesse sobre as riquezas minerais, florestais e hídricas e, também, sobre aquelas existentes em outras Terras Indígenas em faixas de fronteira. A visão militar predominante é de entregar o patrimônio público para a exploração econômica, visando povoar as Terras Indígenas com não-indígenas para entregá-las às grandes empresas. Confiamos que a decisão final do STF confirme os direitos constitucionais dos povos indígenas, respeitando a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol em área contínua.

Stephen Grant Baines é professor do Departamento de Antropologia (DAN) da Universidade de Brasília (UnB) desde 1989. graduado em Árabe e Estudos da Religião na Leeds University (Inglaterra), o professor é mestre em Antropologia Social pela University of Cambridge (Inglaterra) e doutor em Antropologia pela UnB. Baines atua na área de Antropologia com ênfase em Etnologia Indígena. Realizou pesquisas etnográficas com os Waimiri-Atroari (1982-1985) e estuda os Makuxi e os Wapichana na fronteira Brasil-Guiana desde 2001.

[UNB Agência/EcoDebate, 18/09/2008]

link: http://www.ecodebate.com.br/index.php/2008/09/18/a-demarcacao-da-terra-indigena-raposa-serra-do-sol-artigo-de-stephen-grant-baines/


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
MARCELO VENÂNCIO (02/10/2008 - 16:56)
"A defesa dos direitos indígenas não representa apenas o esforço de superação da primeira das grandes violências da nossa história, mas uma condição político-moral para enfrentarmos as demais violências que praticamos entre nós."
(Mário Santilli do Instituto Sócio Ambiental)

Athos Rache (01/10/2008 - 17:36)
O que me irrita em certos comentários, é que alguns dos autores parecem não ter lido o texto.

Custa dar uma lida?

Luís Carlos P. Prudente (27/09/2008 - 09:19)
As terras podem ser usadas pelos índios se usarem-nas na forma tradicional da sua cultura, com isto eles estão protegendo a natureza e o espaço territorial do Brasil. Mas e quando os índios deixam de usar estas terras de forma tradicional, permitindo que ongs "humanitárias" e empresas espoliadoras roubem os recursos minerais e vegetais e as madeiras nobres em troca de dinheiro? Por outro lado, os produtores de arroz também podem estar praticando a espoliação das riquezas minerais e vegetais sobre o argumento que estão plantando arroz!Esta é uma dúvida e um temor que muitos tem, por isto o Estado tem que estar preparado para poder intervir nessas áreas que são consideradas reservas naturais com o intuito de preservá-las.

Mariana Rodrigues (25/09/2008 - 13:11)
Concordo com o título

Leodil Paiva (24/09/2008 - 15:31)
A declaração dos direitos indígenas da ONU, ratificada pelo Brasil através do Ministro Celso Amorim, aborda entre seus princípios preambulares, fundamentais e em seus 45 artigos, diversos temas que vão desde a igualdade de direitos para as comunidades indígenas até a defesa de sua integridade física, cultural, religião e educação. Até certo ponto foi um avanço no trato com os povos indígenas de todo o globo, por parte do mundo dito civilizado, o problema é que essa declaração da ONU inclui palavras fortes como AUTOGOVERNO, AUTODETERMINAÇÃO e GERÊNCIA DE RECURSOS. Como reagirá o Brasil se, os grandes territórios indígenas, demarcados de forma contínua, seguindo os preceitos acima citados, resolverem se associar ao número absurdo de ONGs picaretas que pululam na Amazônia, geralmente com interesses escusos de estrangeiros e multinacionais, tendo como alvo as grandes reservas de nióbio, ítrio, estanho, ouro e diamantes do subsolo dessas reservas, por exemplo? Sem falar das riquezas da biodiversidade. Como reagirá o Brasil, eu repito, uma vez que ratificou o tratado na ONU? O que eu gostaria que ficasse claro é a relação do trinômio SOBERANIA NACIONAL x AUTODETERMINAÇÃO INDÍGENA x EXPLORAÇÃO ESTRANGEIRA. Se ficar claro, através do STF, que a prevalência da nossa Constituição Federal vai continuar existindo sobre qualquer território demarcado, independente de qualquer tratado internacional, eu ficaria mais convencido de que a demarcação contínua não oferece riscos ao Brasil.

Edmilson (24/09/2008 - 08:11)
Essa história de "nação indígena", onde não poderíamos atuar para defender nossa soberania é coisa de militar de pijama que precisa arrumar coisa melhor para fazer e não insuflar os desinformados contra os índios brasileiros que já sofreram demais neste episódio. Pela demarcação contínua, SIM.

Romanelli (24/09/2008 - 06:54)
Este TEXTO merece melhor debate. Infelizmente s/a devida exposição, passará uma vez batida qq outra opinião. O que queremos oferecer aos índios? Será que eles são normais, humanos, ou santos? Sim, esta e outras respostas são fundamentais de serem obtidas, mesmo pq, até pelo próprio título, estabelecer-lhes reservas NÃO É ASSEGURAR-LHES DIGNIDADE, mas sim TUTELA. Sou pela formação de PQS NACIONAIS pra preservar o ambiente, a cultura e o modo de vida de quem deles queira, c/toda assistência e alimento garantidos. Já se formos escolher por um modelo que os liberte como CIDADÃOS, trancá-los e isolá-los em reservas NÃO parece ser a solução. Após viver em reserva, qual dos índios poderá deixar a seus filhos um téco de terra ? Acho que aqui caberia melhor a REFORMA AGRÁRIA, inicialmente agregada em cooperativas. Isto sim seria libertar o indivíduo de todo pagé e cacique. SOU CONTRA O LATINFÚNDIO, tanto de arrozeiro, qto de índio. A reserva da Raposa será FATIADA entre 5 povos, num total de 18 mil/hab pra 17,4 mil km2, uma média de 1km2 por hab. Em 1500 existiam 6 mm de índios que habitavam a faixa litorânea, nem 20% da área do BR de 8,5 mm km2, uma média 0,28 km2 por hab, ou seja, em tempos de se discutir SUSTENTABILIDADE e boa ocupação da terra, em épocas de energia elétrica, medicamentos, estradas e transportes, NUNCA até então as tribos tiveram tantas terras, ricas em minérios e biodiversidade, e terras que em verdade, como diz o texto, não é delas. ME ENGANA QUE EU GOSTO

BETO LIMA (23/09/2008 - 21:39)
Caro Sr. Antonio Alvaro Guedes. NÃO É AMOR DEMAIS AOS "indios" como voce escreve. É uma questão de "DIREITO E DEVERES" é só fazer cumprir o que está na CONSTITUIÇÃO que não vai haver guerrilhas. Antes do ataque e a extinção dos indígenas, existem o caminho do respeito à propriedade alheia e da negociação.Muito simples......... só falta o bom senso.......

João Bravo (23/09/2008 - 19:30)
Não me preocupo muito com opiniões a respeito do tema.Areditei de inicio na tese da nação indigena e o consequente separatismo.Mas agora, pensando bem, vi que é uma gande mentira.Aqui no Rs, houve um movimento timido separatista nos anos 80,o estado veio "botando pra quebrar", e ninguem ficou preocupado.Se houver movimento deste genero, tenho certeza que a nação não se quederá inerte.A terra são dos indios Brasileiros e pronto.

Antonio Alvaro Guedes (23/09/2008 - 17:50)
Este nome lembra de algum porta aviões da quarta frota. É amor demais aos "índios".
Por que terras contínuas e ainda por cima na fronteira. É querer fazer, mais uma vez, o brasileiro de bobo. Se a demarcação se der de forma contínua, em menos de dez anos será uma área de guerrilha.

Amanda Vieira (23/09/2008 - 15:16)
Excelente artigo. Espero que este antropólogo venha a ser entrevistado pela grande imprensa nas matérias sobre o tema...



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