
Atualizado em 31 de maio de 2009 às 18:24 | Publicado em 31 de maio de 2009 às 18:03
Palavras do Subcomandante Insurgente Marcos, à Caravana Nacional e Internacional de Observação e Solidariedade às Comunidades Zapatistas
Caracol de La Garrucha, montanhas de Chiapas, 2 de agosto de 2008
http://www.revistarebeldia.org/revistas/numero62/destino.pdf
Contra o "efeito estômago do poder": ou o poder digere a esquerda, ou a transforma em merda.
Boa-tarde, boa-noite.
Meu nome é Marcos, Subcomandante Insurgente Marcos, e aqui estou para apresentar a vocês o Tenente Coronel Insurgente Moisés. Ele foi encarregado pela Comandância Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) dos contatos internacionais, na, como chamamos, "Comissão Intergalática e 6ª Internacional", porque, de nós todos, Moisés é o único que tem paciência com essas comissões internacionais que nos visitam.
Vamos falar devagar, para ajudar a tradução. We will speak slowly, for the translation. Nous allons parler doucement, pour la traduction.
Queremos agradecer-lhes que tenham vindo conhecer diretamente o processo zapatista, no ponto em que está, não só as agressões que estamos recebendo, mas também o que está sendo construído aqui, em território rebelde, território zapatista.
Esperamos que o que vejam, o que ouçam, sirva para que levem adiante nossa palavra: à Grecia, à Italia, à França, à Espanha, ao País Basco, aos EUA e ao resto do mundo, a todos os nossos companheiros da Outra Campanha.
Tomara não façam como a chamada "Comissão Civil Internacional de Observação dos Direitos Humanos" que aqui esteve há alguns meses, e só cuidou de lavar as mãos do governo perredista (PRD) de Chiapas, e 'concluiu' que as agressões contra nossos povos não eram obra do governo estadual, mas do governo federal.
Pensei em oferecer uma introdução à fala do tenente-coronel Moisés. É ótima coincidência que Moisés esteja conosco no momento da visita de vocês. De todos os companheiros, Moisés é quem acompanhou mais de perto o processo de construção da autonomia nas comunidades zapatistas.
Quero explicar, então, em grandes traços, o que foi a história do EZLN e das comunidades indígenas zapatistas nesse territorio, aqui, em Chiapas. Refiro-me às montanhas de Chiapas, à zona del Caracol de Oventic; à zona tzotz choj, tzeltal-tojolabal, do Caracol de Morelia; à zona chol, de Roberto Barrios, ao norte de Chiapas; à zona tojolabal, ou "Selva da Fronteira", do Caracol de La Realidad; e a essa onde estamos reunidos, a zona tzeltal, do Caracol de La Garrucha.
Para amanhã, estão convidados a visitar um povoado que, há muitos anos, mantém bases de apoio ao EZLN. Na visita, terão a honra de serem guiados pelo Comandante Ismael, que aqui está. Esse companheiro, ao lado do Señor Ik — o falecido Comandante Hugo ou Francisco Gómez, seu nome civil — percorreu todas essas serras, falando das ideias zapatistas, quando estávamos ainda praticamente sozinhos.
O Comandante Ismael lhes servirá de guia. Verão o local onde os soldados andaram à procura de maconha. Queremos que vejam se lá existe alguma maconha. Se encontrarem, não fumem a maconha; denunciem as plantações, para que sejam destruídas. Mas, não. Por aqui não há maconha. Quem sabe, se não acreditam em nós, talvez acreditem em vocês, pelo menos. Mas acho que não. Só acreditam no que querem acreditar. Vêem, e não acreditam. Tem sido sempre assim.
Está também conosco o Comandante Masho, aqui à minha direita. É mais um dos que acompanharam o Señor Ik, o Comandante Hugo, ao tempo em que o EZLN estava começando nessas montanhas. Também é membro da Comissão 6ª do EZLN. O Comandante Masho também esteve conosco no nordeste da República mexicana, percorrendo povoados dos índios e dos companheiros e companheiras da Outra Campanha, nessa parte do México.
Como tudo começou
Há 24, quase 25 anos, um pequeno grupo de urbanos, ou de "cidadãos", como dizíamos, chegou não a essa parte da selva onde estamos, mas muito mais adentro, à parte que hoje se conhece como a Reserva de Montes Azules. Lá não havia nada, só animais selvagens de quatro patas e animais selvagens de duas patas, que éramos nós.
Aquele nosso pequeno grupo pensava – estou falando de 1983-1984, há 24, 25 anos – como tradicionalmente pensavam os movimentos de libertação na América Latina, quero dizer: um punhado de iluminados que se levanta em armas contra o governo. Essa concepção faz com que muita gente siga esses iluminados, muitos levantam-se e às vezes derrubam o governo. E instalam governo socialista. Estou sendo muito esquemático, mas, basicamente, essa é a chamada "teoria do foco guerrilheiro".
Esse pequeno grupo, dos que chegamos e ficamos, tinha essa concepção tradicional, clássica ou ortodoxa, se quiserem chamá-la assim, mas tinha também uma carga ética e moral que nunca antes se encontrara nos movimentos guerrilheiros ou armados na América Latina.
Essa herança ética e moral vinha de outros companheiros que haviam morrido na luta contra o Exército federal e contra a polícia secreta do governo mexicano.
Durante todos esses anos iniciais, estivemos sozinhos. Não tínhamos companheiros nos povoados. Não recebíamos visitas de comissões internacionais. Ninguém nos vistava, nem da Grécia, nem da Itália, nem da Espanha, ou do País Basco. Aliás... nem do México! Porque esse era o rincão mais esquecido do México. Esse fato não foi obstáculo e, depois, converter-se-ia em vantagem para nós: o fato de estarmos isolados e esquecidos, nos permitiu, então, fazer um processo de involução. Alguém de formação ortodoxa saberá do livro que fala da "transformação do macaco em homem". No nosso caso, foi o contrário: o homem transformou-se em macaco. Éramos macacos. Inclusive fisicamente. Por isso sempre ando com o rosto coberto. Cubro o rosto por uma questão de estética, de bom gosto.
Nosso pequeno grupo sobreviveu à queda do Muro de Berlim, à queda do campo socialista, aos tropeços da guerrilha na América Central – primeiro, da FMLN em El Salvador, depois com a que foi chamada de Frente Sandinista de Liberación Nacional, na Nicarágua. E depois, a Unión Revolucionaria de Guatemala, la URNG.
Segundo nossas avaliações, há dois fatores que explicam por que aquele grupo sobreviveu: primeiro, a obcecação, a impossibilidade de fazer diferente, que, provavelmente, aquela gente trazia no DNA. Segundo, a carga moral e ética herdada dos companheiros e companheira assassinados pelo Exército, bem aqui, nessas montanhas.
Naquele momento havia duas opções: continuar, como pequeno grupo que passa décadas na montanha, esperando que algo aconteça para que, então, o grupo possa agir dentro da realidade social. Ou deixar-se converter e acabar, como parte da esquerda radical mexicana daquele momento, convertidos em deputados, senadores ou presidentes legítimos da esquerda institucional no México.
Foi aí que aconteceu algo, que nos salvou. Nos salvou e nos derrotou, naqueles primeiros anos. O que aconteceu está sentado aqui, à minha esquerda: aconteceram o Teniente Coronel Insurgente Moisés, o Comandante Masho, o Comandante Ismael e muitos outros companheiros, os quais transformaram o EZLN, de movimento guerrilheiro foquista e ortodoxo, em exército de indígenas.
Não se tratava apenas de nos havermos convertido em exército constituído majoritariamente de indígenas. "Majoritariamente" não é a palavra, porque, na verdade, de cada 100 combatentes, 99 eram indígenas e o outro era mestiço.
Mais que isso, esse exército e sua concepção sofreram uma derrota nos posicionamentos 'iluminadores', nas suas ideias de direção, caudilhistas, de revolucionários clássicos, segundo as quais um grupo de homens converte-se em salvador da humanidade ou do país.
O que aconteceu, então, foi que essas ideias foram derrotadas no momento em que nos confrontamos com as comunidades e percebemos que, não apenas não nos entendiam; além disso, as comunidades tinham propostas muito melhores que as nossas.
Alguma coisa havia acontecido nos anos, nas décadas, nos séculos anteriores. Estávamos obrigados a enfrentar movimentos de vida, que haviam conseguido sobreviver aos esforços da conquista espanhola, francesa, inglesa, norte-americana e de todas as potências européias, incluída aí a Alemanha nazista em 1940-1945.
Aquelas pessoas, nossos companheiros e companheiras, primeiro, depois nossos chefes e chefas, conseguiram resistir porque sempre foram movidos por um apego à vida que muito tinha a ver com a carga cultural. A língua, a linguagem, o modo de relacionar-se com a natureza, eram não apenas uma alternativa de vida: eram também uma alternativa de luta. Não tínhamos o que ensinar a eles, em matéria de resistir. Nós é que nos convertemos em aprendizes, nessa escola de resistência, de saberes construídos em cinco séculos de resistência.
Os que haviam chegado, e pensavam em salvar as comunidades indígenas, foram salvos por elas. E encontramos rumo, destino, caminho, companheiros, energia e velocidade para a nossa caminhada. É o que naquele momento e até hoje, chamamos de "a velocidade do nosso sonho”.
O EZLN deve muito a vocês, a gente como vocês, no México e em todo mundo. Mas nossa dívida fundamental a devemos de coração ao coração indígena. Nessa comunidade e em milhares de comunidades como essa, povoadas por companheiros que são a base de apoio dos zapatistas.
No momento em que o pequeno grupo de guerrilheiros fez contato com os que viviam nessas montanhas, havia um problema e uma luta. O grupo dos guerrilheiros chegava com "uma verdade"; e supunha a ignorância dos indígenas: "vou ensinar, vou doutrinar, vou educar, vou formar." Foi erro e derrota.
À medida que se construíram as pontes de linguagem, começamos a mudar nosso modo de falar, começamos a mudar o modo como nos viamos e nos pensávamos. Assim aprendemos o nosso lugar no processo: tínhamos de servir à luta deles.
De movimento que acreditava poder servir-se das massas, dos proletários, dos operários, dos camponeses, dos estudantes, para chegar ao poder e conduzi-los à felicidade suprema, passamos a nos converter, paulatinamente, em exército que tinha de se tornar útil às comunidades. De início, às comunidades indígenas tzeltales, as primeiras às quais nos juntamos, bem aqui, nessa região.
O contato com os indígenas foi processo de reeducação mais forte e mais terrível que o eletrochoque que se usa em hospitais psiquiátricos.
Nem todos suportaram. Alguns aguentaram, mas muitos ainda sentiam falta do partido.
Depois, aconteceu o quê? Aconteceu que o Exército Zapatista de Libertação Nacional converteu-se em exército de indígenas, a serviço deles. E passamos, dos seis guerrilheiros que aqui chegaram, a mais de 6.000 combatentes.
O que determinou o levante de 1º de janeiro de 1994? Por que decidimos nos levantar em armas? A resposta veio das crianças. Não resultou de qualquer análise da conjuntura internacional. Todos concordarão que nenhuma análise de conjuntura nacional recomendaria um levante armado, naquele momento. O campo socialista havia sido derrotado; toda esquerda da América Latina estava em momento de retirada. No México, a esquerda chorava a derrota, depois da fraude de Salinas de Gortari e, não bastasse a fraude, Gortari também comprara boa parte do que fora a consciência crítica da esquerda mexicana.
Qualquer analista minimamente racional teria dito: não há condições para levante armado; rendam-se; entreguem as armas; alistem-se no partido, etc., etc. Pois algo, dentro do movimento, nos levou a desafiar todos os prognósticos e as conjunturas internacionais.
Foi a primeira vez que o EZLN decidiu desafiar o calendário e a geografia "de cima". Disse que a resposta veio das crianças. Explico. Estava acontecendo naqueles anos, a partir do início dos anos 90s, uma reforma que impedia que os camponeses usassem a terra. A terra, como verão amanhã, quando subirem a trilha até a vila de Galeana, é a terra dos camponeses: são ladeiras, escarpas, mais pedras que terra. As terras boas estavam com os finqueros [latifundiários]. Todas as terras boas estavam com os finqueros. Nos próximos dias, vocês passarão também pelas fincas e verão a diferença entre as terras privadas e as terras dos indígenas.
Tornou-se impossível, para as comunidades, encontrar terra na qual pudessem plantar. E começou a haver desnutrição e doença entre as crianças indígenas. De 1990 a 1992, praticamente nenhuma criança, na Selva Lacandona, chegava aos cinco anos; morriam antes, sempre por doenças curáveis: tifo, tuberculose; muitos morriam de amidalite.
Na cidade, há quem veja aí alguma vantagem: nascem menos pobres. Mas para um povo indígena, a morte das crianças implica risco de todo o povo desaparecer. Os adultos viram velhos e os velhos morrem. Isso é normal. Mas se morrem as crianças, a cultura desaparece e o mundo desaparece. Onde estávamos, a alta mortalidade das crianças indígenas era, sim, problema gravíssimo.
De diferente, aqui, em relação a outras comunidades indígenas, foi que, aqui, havia combatentes armados, um exército rebelde, em armas. De fato, o movimento começou pelas mulheres. Não pelos homens. (E eu, que sabia, da tradição mexicana – os mariachis, Pedro Infante e tudo mais – que os homens somos muito machos!)
Aqui, nessas montanhas, foi diferente. As mulheres começaram a falar: é preciso fazer alguma coisa, basta, basta. Começou pelas mulheres, cansadas de ver morrer suas crianças.
Por todos os pueblos espalhou-se uma espécie de rumor: é preciso fazer alguma coisa, basta, basta, em todas as línguas. Naquele momento, os combatentes já estávamos organizados também na região de Los Altos. Lá viviam duas companheiras, que até hoje são a coluna vertebral desse trabalho: a Comandanta Ramona, que já morreu; e a Comandanta Susana.
O movimento espalhou-se como doença, essa, digamos o nome certo, essa rebeldia das mulheres zapatistas. Alguma coisa tinha de ser feita. Basta. Basta. Todos então fizemos o que tinhamos de fazer, que era perguntar a todos o que faríamos.
Fez-se um plebiscito, em 1992, uma consulta – sem televisão, sem governo do Distrito Federal, sem nada da organização que temos hoje. Foi consulta feita vila a vila, povoado a povoado, houve reuniões por toda a selva – reuniões como essa em que estamos agora. O problema era posto. A escolha, simples, entre duas alternativas bem claras: se nos levantarmos em armas, seremos derrotados, mas chamaremos a atenção de muitos para essa região; se não nos levantarmos em armas, muitos sobreviverão, mas desapareceremos como povos indígenas.
A lógica da morte nos foi imposta por eles, pelos que não nos deixaram outra escolha.
Agora, depois de 14, já quase 15 anos, para nós – os que estamos aqui há mais tempo, foi proveitoso, para nós, que não nos tenham deixado outra escolha. E os povos nos disseram: vocês vieram para cá para lutar; não vieram a passeio. Então lutem, lutem conosco.
Nunca se tratou de uma relação formal, de mando. Porque formalmente era o contrário: formalmente, o Exército Zapatista de Libertação Nacional estava em posição de mando, e os povos estavam em situação de subordinação. Afinal, nós tínhamos as armas. Mas nos fatos, na realidade, foi o contário: os povos mantinham, davam abrigo, protegiam, faziam aumentar o EZLN.
Nessa fase, foi importante também a participação de um companheiro mestiço, nascido na cidade, o Subcomandante Insurgente Pedro, que morreu em combate, dia 1º/1/1994.
Quando levamos a escolha aos povos, e nos responderam "vamos nos levantar em armas", o nosso cálculo estratégico – o tenente coronel Moisés há de lembrar bem, porque aconteceu nessa montanha, que aí está, às costas de vocês, lá em cima, no acampamento que tínhamos lá, numa reunião de todos os grupos zapatistas da região –, o que eu disse aos povos, como orientação para decidirem, foi: todos temos de pensar bem sobre o que vamos fazer, porque depois de começarmos a luta, ninguém poderá desistir e voltar atrás.
Portanto, o que dissemos aos povos foi que, se nos levantássemos em armas, teríamos de prosseguir e não poderíamos parar. Naquele momento, sabíamos e sentíamos que os povos diriam "sim". E sabíamos também, desde o primeiro momento, que muitos dos que morreriam estavam ali, naquela reunião, ali, na parte alta das montanhas de La Garrucha, onde estamos hoje, outra vez.
Todos sabem o que aconteceu. Não preciso contar sobre o dia 1º/1/1994, porque todos aqui já ouviram sobre isso. Fato é que ali começou uma resistência, que começou armada – e, depois, converteu-se em organização da resistência civil e pacífica.
De fato, houve uma mudança importante nesse processo, para a qual quero chamar a atenção de todos: houve uma mudança na posição do Exército Zapatista de Libertação Nacional, a respeito do problema do poder.
E essa nova posição sobre o problema do poder é a mudança que, dali em diante, mais fundo marcaria o caminho zapatista. Não nos demos conta, no primeiro momento – e quando digo "nós", somos todos, o grupo inicial de guerrilheiros e os povos das comunidades –, que as soluções, como tudo nesse mundo, constroem-se de baixo para cima.
Toda nossa proposta anterior e toda a proposta da esquerda ortodoxa, até então, era o contrário disso: toda a esquerda ortodoxa sempre trabalhou na direção contrária; sempre trabalhou para resolver as questões, de cima para baixo.
Essa mudança, de baixo para cima, significava para nós não nos organizar nem organizar as pessoas para irem votar, nem para fazerem uma passeata, nem para gritar palavras de ordem; significava nos organizar para sobreviver e para converter a resistência em ocasião para todos aprendermos. Isso foi o que fizeram todos os companheiros, não o EZLN original, aquele pequeno grupo inicial, mas o EZLN já modificado pelo componente indígena.
Isso que hoje se conhece, em linhas gerais, como a construção da autonomia zapatista, é um processo, sobre o qual o tenente coronel insurgente Moisés vai falar a vocês, com detalhes, em seguida.
Antes de ele falar, quero ainda assinalar duas coisas.
Diz-se, não sem razão, que nos últimos dois anos, em 2006 e 2007, o Subcomandante Marcos trabalhou com empenho e com êxito, para destruir a imagen midiática que se construíra em torno dele. E há quem tenha comentado que muita gente que antes vivia perto, agora se distancia; e dizem também que muitos se tornaram, definitivamente, anti-zapatistas.
Alguns voltaram aos seus países de origem, para dar aulas. E foram recebidos como se fossem guerrilheiros que se empenharam na luta armada. Houve muitos zapatólogos, interessados em viajar com despesas pagas, colher aplausos, solidariedades e um ou outro favor, quando estavam longe daqui.
O que teria acontecido? Digo-lhes o que pensamos e como vemos tudo isso. Cada um pensa com sua cabeça. O que lhes digo é o que estamos pensando hoje.
Começo explicando um termo. Aqui, nas zonas indígenas, conhecemos uma figura que se chama "o coiote" [esp. el coyote]. É importante explicar, porque nos EUA e outros países, o coiote tem outro tipo de atividade. Aqui em Chiapas, não. Aqui, o coiote é o intermediário. Aqui, o coiote é alguém que compra dos indígenas a preço barato e revende caro no mercado.
Então, quando aconteceu o levante zapatista, surgiram os coiotes da solidariedade, os intermediários da solidariedade. Essa gente dizia e ainda diz, que tem interlocução com o zapatismo, que tem o número do nosso telefone vermelho, que tem informação sobre como estão as coisas aqui. Tudo isso implica um capital político. O coiote vem, trazendo alguma coisinha (quero dizer: compra barato) e depois, quando se vai, apresenta-se, onde chegue, como emissario do EZLN (quero dizer: vende caro).
O aparecimento desse grupo de intermediários, no qual havia políticos, intelectuais e gente do movimento social, escondeu de nós que havia outras coisas, ali; uns como que encobriram outros. Nós intuíamos que havia ali gente da Espanha de baixo; que havia bascos rebeldes, que havia gente da Grécia rebelde; que havia gente da França insurrecta. Intuíamos, mas não os víamos. E tememos que, como nós não os víamos, vocês também não nos vissem.
Essos intermediários organizavam e faziam coisas enquanto os zapatistas estivemos 'na moda' e ganharam seu capital político. Como quando um empresário organiza concertos, para levantar fundos para o movimento, e fica com uma parte; é como um salário, a parte que se paga para organizar o concerto.
Tivemos de buscar outro tipo de "abaixo". Sempre tivemos essa ideia: o zapatismo sempre disse que não é o único movimento rebelde, nem o melhor. Nunca pensamos em criar um movimento que tivesse a hegemonia de toda a rebeldia no México, ou na América Latina ou no mundo. Nunca aspiramos a ser uma "Internacional", a 5ª ou já nem sei em que número andamos – Alejandro, qual é? A 6ª. Seja. – A nossa é outra. A nossa é A Outra Internacional. (O companheiro entende de internacionais!)
Vou dizer-lhes coisas que, algumas, não são novidade para ninguém. Que a esquerda institucional é ficção, já é coisa bem clara para os espanhois, com Rodríguez Zapatero ou Felipe González; para o País Basco – Gora Euskal Herria –, está ainda mais claro; para a Italia rebelde, também não é novidade; a Grécia, sim, também sabe bem disso; e a França, desde Miterrand, el varón, também sabe que a esquerda institucional é ficção.
Mas o México, não. O México não sabe. Aqui continua a haver a expectativa de uma esquerda; há aqui quem espere que a esquerda sob a qual padecemos hoje, se chegar ao poder, chegará sem nada ter de pagar, chegará impunemente ao poder. Quero dizer: a esquerda mexicana ainda pensa que, se chegar ao poder, conseguirá governar sem deixar de ser esquerda. Não importa que Espanha, Itália, França, Grécia, praticamente todo o mundo, sejam prova do contrário: mesmo a esquerda consequente – não necessariamente radical –, no momento em que chega ao poder, deixa de ser esquerda. Sempre acontece. Pode acontecer mais rapidamente, em maior ou menor profundidade, mas a esquerda indefectivelmente se transforma, quando chega ao poder.
É o que os zapatistas chamamos "efeito estômago", do poder: ou o poder digere a esquerda; ou a converte em merda.
A proximidade do poder, da esquerda mexicana, ou de algo que se autodenomina esquerda, ao poder... (Lembro agora que vi num jornal, que havia uma festa da esquerda, na cidade do México. Eu nem sabia que havia esquerda na cidade do México, e há até festas da esquerda. É outra esquerda, é outra coisa.) O que estava dizendo é que, no momento em que essa outra esquerda viu-se ante a possibilidade do poder... imediatamente começou o "efeito estômago": digestão e defecação da esquerda, pelo poder.
Bueno... Perdoem se mato alguma ilusão e parto algum coração, mas o centro não está no centro. O centro está à direita. Do outro lado... Não sei. Pode estar à esquerda de vocês. Olhadas as coisas de abaixo e da esquerda... tudo é direita.
Então, o que víamos era que... nada se transforma de cima para baixo. E quem chega ao poder, chega lá porque acredita que pode transformar alguma coisa de cima para baixo. Tantos depositaram a confiança, o futuro, num iluminado, numa pessoa, num homem... ele e a quadrilha de quarenta ladrões que é a esquerda no México.
Os zapatistas dissemos não a tudo isso. Não que o presidente eleito e legítimo nos seja antipático. Acontece apenas que, simplesmente, não acreditamos nesse processo. Em nenhum caso. Não acreditamos nesse processo, nem mesmo quando o 'iluminado' seja un guapo como o Subcomandante Marcos, que aqui lhes fala. Ninguém pode fazer o que a esquerda ainda pensa que possa fazer. Nós não queríamos fazer. Então aconteceu a ruptura.
Naquele momento, os zapatistas disseram que aconteceria, com a esquerda e na esquerda mexicana, o que está acontecendo hoje. Quando dissemos, ouvimos que nos estaríamos aproximando e fazendo o jogo da direita. E hoje, quando repetem até com as nossas palavras, o que dissemos há dois anos... dizem que prestam um serviço à esquerda.
O zapatismo é incômodo. É como se, no quebra-cabeças do poder, sempre aparecesse uma peça que não encaixa. Para não perder o quebra-cabeças... escolhem deixar o buraco, no quebra-cabeças, para conseguir esquecer a pedra que não encaixa. De todos os movimentos que há hoje no México, um deles – não é o único –, o zapatismo, sempre é incômodo para todos.
O zapatismo não admite conformismo nem rendição, não admite vacilações, não admite que alguém se venda. Tudo isso, que o zapatismo não admite, corresponde à lógica dos movimentos de cima. Nós somos o movimento de baixo. O movimento de cima é a “real politik”, como dizem.
Então, aconteceu um distanciamento, que, aos poucos, começa a permear os setores internacionais, na América Latina e na Europa, fundamentalmente. Ao mesmo tempo, no mesmo trajeto, construíram-se relações mais sólidas. Para citar algumas, com os companheiros da CGT espanhola; com o movimento cultural rebelde do País Basco; com movimentos sociais na Itália; e, mais recentemente, encontramos a Grecia rebelde e insubmissa.
A direita, da qual fugimos e que nada vê, diz: “os zapatistas radicalizaram-se e estão mais à esquerda". Desculpem, mas continuamos dizendo o que sempre dissemos: não nos interessa o poder; não queremos o poder; acreditamos que as coisas se constroem de baixo para cima. O que aconteceu foi que aqueles setores, os coiotes da solidariedade, os coiotes internacionalistas, ou a "Internacional da Coiotagem", eles, correram todos na direção da direita. O poder jamais permitiu e nunca permitirá que a esquerda aproxime-se dele impunemente.
O poder é um clube exclusivo, que impõe restrições a quem queira entrar na festa. Os zapatistas dizemos que há regras, para quem queira viver na "sociedade do poder". Só quem aceite as regras da "sociedade do poder" pode conviver com o poder. Quem busque a justiça, a liberdade, a democracia, o respeito à diferença e aos diferentes não pode pensar em se aproximar do poder... se não estiver disposto a desistir de todos os seus projetos e suas ideias.
Quando começamos a ver que tantos setores zapatistas tanto queriam aproximar-se do poder, começamos a nos perguntar o que havia abaixo daquilo, por trás daquilo. Para se sincero, começamos ao contrário: começamos pelo mundo, perguntamos internacionalmente; só depois, perguntamos no México.
Por razões que vocês talvez possam explicar, o zapatismo inicial ligou-se mais fortemente a outros países, do que ao México. E foi mais forte no México do que em Chiapas, no início. Como se houvesse uma relação inversa em relação à geografia: os que viviam mais longe, estavam mais perto dos zapatistas; os que viviam mais perto, estavam mais longe de nós.
Naquele momento, então, vivíamos da intuição e do desejo de que existissem outros, de fato, outros como vocês, que aqui estão. Veio então a 6ª Declaração. E foi a ruptura definitiva com o setor dos coiotes da solidariedade. E passamos a buscar, no México e no mundo, outros que fossem como nós e diferentes de nós.
Além de nossa aversão ao poder, há outra característica essencial do zapatismo – que vocês conhecerão aqui, nessa visita, ou se tiverem contato com os Conselhos Autônomos e com as Juntas de Bom Governo, com as autoridades autônomas: os zapatistas renunciamos a qualquer tentativa de hegemonizar e de homogeneizar a sociedade.
Não queremos um México zapatista, nem um mundo zapatista. Não queremos que todos passem a viver como se fossem indígenas de Chiapas. Queremos viver num lugar, aqui, nosso lugar. Que nos deixem em paz. E que ninguém tente mandar em nós. Assim entendemos a liberdade: que nós decidamos o que queremos fazer.
E pensamos que isso só é possível, se outros, como nós, desejarem o que desejamos e lutarem pelo que lutamos. Assim, entendemos nós, estabelece-se uma relação de companheirismo.
Isso é o que A Outra Campanha quer construir. Isso é o que a 6ª Internacional deseja ser. Um encontro de rebeldias, uma troca de saberes e uma relação direta, não midiática mas real, de apoio entre grupos.
Há alguns meses, fomos visitados por companheiros da Coreia, da Tailândia, da Malásia, da Índia, do Brasil, da Espanha – e outros – da Via Campesina. Nos encontramos no acampamento de La Realidad. E dissemos a eles: não vale nada, para nós, encontros de dirigentes. Não fotografem, porque encontro de dirigentes não existe. Se a direção dos movimentos não facilita o encontro entre os próprios movimentos, são direção inútil.
Repetimos o mesmo, agora, a quem proponha encontros de dirigentes. Só nos interessam os que estão por trás dos dirigentes: outros, os outros. Não conhecemos a Grécia, mas não há dúvida de que não estão aqui todos os gregos que gostariam de estar. Como poderemos nos encontrar com eles?
Queremos dizer que não queremos esmolas, nem que tenham pena de nós. Não precisamos de ninguém para salvar nossas vidas. Queremos companheiros, companheiras, na Grécia e em todo o mundo, que lutem pelo que desejem lutar.
Na Italia, no País Basco, na Espanha, na França, na Alemanha, Dinamarca, Suécia... e vou parar com as listas, porque, se esqueço um, começam os protestos...
Para que lado olhamos? Aqui, nesse rápido histórico, falo de uma herança moral e ética que recebemos dos que vieram antes de nós. O que interessa é a luta e o respeito à vida, à liberdade, à justiça, à democracia. Temos uma dívida moral com nossos amigos mortos. Não com vocês, nem com os intelectuais, artistas, escritores, nem com líderes sociais que hoje são antizapatistas.
Temos uma dívida com os que morreram lutando. E queremos chegar ao dia em que possamos dizer aos nossos mortos e às nossas mortas, três coisas, e mais nada: não nos rendemos, não nos vendemos, não quisemos andar mais devagar.
Agora, o tenente coronel Moisés, vai falar-lhes sobre a autonomia zapatista.
Gerson (31/05/2009 - 20:16)
Mensagem enviada pelo subcomandante Marcos no 5º congresso do MST em 11 de junho de 2007:
...Que viva o vento de rebeldia que desde o Brasil aviva a resistência indígena no México. Que viva o Movimento dos Sem Terra do Brasil.
Rebeldia?
Depois reclama que foi preso a toa,bla,bla,bla...