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Plantadores de soja transgênica apavorados

Atualizado e Publicado em 27 de outubro de 2009 às 13:00

A presença do sorgo resistente ao glifosato, em lavouras no norte da Argentina, já foi reconhecida pelo principal organismo encarregado de vigiar as ervas daninhas resistentes a herbicidas. Essa descoberta é um pesadelo que se tornou realidade para os produtores de soja transgênica. O glifosato é o herbicida seletivo de maior venda no mundo e sua expansão acelerou-se com os cultivos transgênicos como os da soja Roundup Ready, da Monsanto. O resultado era previsível: cedo ou tarde, apareceriam espécies resistentes às estratégias desenhadas e implementadas por este modelo de agricultura. O artigo é de Alejandro Nadal.

Fantasma assombra plantadores de soja transgênica

por Alejandro Nadal, em La Jornada, via Carta Maior

Um fantasma percorre os campos do Chaco, norte da Argentina. Após meses de investigação e acaloradas disputas, confirmou-se a existência de uma variedade de sorgo (Sorghum halepense – também conhecido no Brasil como capim Massambará, Pasto Russo ou Erva de São João) resistente ao herbicida glifosato, na província de Salta. É o primeiro caso de uma variedade de sorgo resistente ao glifosato desde que esse herbicida começou a ser usado no mundo, há três décadas. A difusão desta erva daninha através das colheitadeiras que circulam por todos os lados após cada safra não é um bom augúrio.

A presença do sorgo resistente ao glifosato já foi reconhecida pelo principal organismo encarregado de vigiar as ervas daninhas resistentes a herbicidas (www.weedscience.org). Essa descoberta é um pesadelo que se tornou realidade para os produtores de soja transgênica. É também uma lição para a Sagarpa (organização mexicana de proteção fitossanitária), que acaba de autorizar ilegalmente as primeiras plantações experimentais de milho transgênico no México. É o primeiro passo no caminho para autorizar a plantação comercial e consolidar a liberação do milho geneticamente modificado no México, centro de origem deste cultivo de importância mundial.

Vamos por partes. O Sorghum halepense é uma das dez principais ervas daninhas que afetam a agricultura de climas temperados. É uma erva daninha perene, dotada de grande capacidade de reprodução e sobrevivência ao controle por meios mecânicos. A ironia é que em muitos países, incluindo a Argentina, foi introduzido como uma espécie forrageira, por sua alta produtividade e capacidade de adaptação. Em poucos anos, converteu-se em uma praga cujo combate com agentes químicos teve grandes custos para os agricultores e para a biodiversidade.

Na luta contra essa “erva daninha perfeita” vinha se usando o glifosato, herbicida de amplo espectro que destrói, em plantas superiores, a capacidade de sintetizar três aminoácidos essenciais. É o herbicida seletivo de maior venda no mundo e sua expansão acelerou-se com os cultivos transgênicos como os da soja Roundup Ready, da Monsanto, geneticamente modificada para aumentar sua resistência ao glifosato. Hoje, a soja transgênica é plantada em cerca de 18 milhões de hectares na Argentina. Esse cultivo transformou a paisagem rural do pampa, transtornando as relações sociais que permitiam a pequena agricultura e abrindo as portas para o agronegócio em grande escala. As exportações de soja são o principal sustento da política fiscal Argentina: 18% da receita fiscal total vêm do imposto sobre as vendas de soja ao exterior. Mas o colapso desta bolha da soja é uma questão de tempo. A aparição do sorgo resistente ao glifosato é só um aviso. A soja transgênica usa um pacote tecnológico de plantio direto (ou lavragem mínima), onde se deixa o mato cobrir a terra para protegê-la da chuva e do vento. Isso reduz os riscos de erosão, mas deve ser acompanhado de um incremento no uso de herbicidas. Esse tipo de cultivo está associado a um crescimento espetacular do uso destes insumos: em apenas dez anos, o consumo de glifosato passou de 15 a 200 milhões de litros.

O resultado, no final do caminho, era de se esperar: cedo ou tarde, apareceriam espécies resistentes às estratégias desenhadas e implementadas por este modelo de agricultura comercial. Com a difusão do pacote tecnológico da soja transgênica, essa resistência apareceria mais rapidamente, pois o processo de co-evolução (que, no fundo, é o que rege esse fenômeno) iria se acelerando. É o que acontecerá também com o milho transgênico cujo plantio está sendo autorizado agora no México. A aparição de insetos resistentes à toxina produzida nos cultivos transgênicos Bt é uma questão de tempo.

Ainda não há registro de grandes populações resistentes à toxina Bt, mas em parte isso se deve à estratégia que consiste em deixar refúgios de plantas não transgênicas nas áreas plantadas. Nos Estados Unidos, essa prática tem sido acompanhada pelo uso complementar de inseticidas. Mas a advertência de ecólogos e agrônomos segue vigente: essas estratégias só retardam o processo de aparição de insetos resistentes ao Bt, não o detém. O cultivo de milho transgênico no México aumentará a probabilidade de surgimento de populações de insetos resistentes ao Bt em um menor espaço de tempo. Esse não é o único problema, mas o exemplo do sorgo na Argentina é um sinal que não devemos ignorar.

A trajetória tecnológica dos cultivos geneticamente modificados nos conduz a um beco sem saída. É claro que, para as empresas e seus cúmplices no governo, este é um bom instrumento para tornarem-se donas do campo, transformando-o em seu espaço de rentabilidade. Para a Sagarpa e o governo (falando aqui do caso mexicano) nada deve se interpor entre as companhias transnacionais e a rentabilidade, nem sequer a débil legislação sobre biossegurança que foi desenhada para servir aos interesses dessas mesmas empresas.

* Alejandro Nadal é economista, professor pesquisador do Centro de Estudos Econômicos, no Colégio do México. Colaborador do jornal La Jornada, onde este artigo foi publicado originalmente dia 20 de outubro.

Tradução: Katarina Peixoto

 


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
nelson eulálio (28/10/2009 - 19:04)
Tem um livro na praça "O mundo segundo a Monsanto" (Marie-Monique Robin - São Paulo: Radical Livros, 2008) que é, digamos assim, assustador.

Luiz (28/10/2009 - 08:21)
Há algum tempo atrás, quem defendia mais pesquisas antes de se liberar a produção, era taxado de atrasado... o mundo dá muitas voltas... mas infelizmente poucos aprendem algo...

francisco.latorre (28/10/2009 - 00:27)

monocultura é tragédia.

alguém lembra a grande fome irlandesa?...

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/irlanda_fome.htm


l mvp (28/10/2009 - 00:26)
Essa Monsanto deveria chamar-se Mondemônio

francisco.latorre (27/10/2009 - 23:16)

poluição terminal.


Marat (27/10/2009 - 23:05)
Apavorados de verdade eles ficarão se os pobres pararem de comer esses frankensteins daninhos e seus plantadores passarem a comê-los. Haja tratamento...

Roberto Locatelli - São Paulo (27/10/2009 - 22:15)
A Monsanto também costuma vender sementes que produzem sementes estéreis. Ou seja, o agricultor compra da Monsanto, planta, e não pode utilizar uma parte da colheita para replantar, pois são sementes que não germinam. Aí ele tem que comprar novamente da Monsanto, gerando uma eterna dependência. Negócio da China... para a Monsanto.

Márcia (27/10/2009 - 19:47)
VIVA SÃO JOÃO!!!

Fernando Frota (27/10/2009 - 19:25)
O mundo não aprende com certas experiências, porque há seletividade na exposição das mesmas, em favor de interesses econômicos poderosos e imediatos.
Logo depois de sua Independência a Índia, que sempre havia produzido arroz suficiente para o consumo interno e grande sobra para exportação, foi levada por empresas americanas a produzir apenas um tipo de arroz superprodutivo desenvolvido nos Estados Unidos.
Nessa época os EUA com sua paranóia de dominar o mundo, haviam imaginado a seguinte frase: "Quem dominar o arroz dominará a Ásia".
Outros países asiáticos também aderiram ao arroz americano. O governo indiano foi além: proibiu o plantio dos arrozes tradicionais e até um grande cientista foi preso por tentar abrir os olhos do país para a loucura em que estava se metendo.
A tragédia veio a galope. Uma praga específica devastou os arrozais da Índia e o país foi mergulhado em severa crise de fome. Correram ao cientista perseguido e imploraram para que ele salvasse o país.
Ele havia gurdado zelosamente todas as sementes das antigas linhagens do arroz indiano e fez um plano de recuperação das lavouras com o arroz de cada região.
A Índia aprendeu com esta sofrida lição. Cabe a nós aprendermos também com a mesma lição e com nossa capacidade de discernimento. O lucro imediato pode ser a porta para a futura tragédia. Devemos acordar o quanto antes.

Pitagoras (27/10/2009 - 19:20)
E por falar no terrorismo transgênico, alguém sabe me informar porque a legislação sobre rotulagem dos produtos transgênicos ainda não está sendo obedecida e fiscalizada?
As indústrias tem a consciência pesada e têm medo do consumidor deixar de consumir a porcaria que vendem?
De minha parte só consumo aqueles que expressamente indicam não se tratar de transgênicos.
Êta paisinho dominado por gangsteres e habitado por alienados!

vinicius souza (27/10/2009 - 19:19)
enquanto isso, com apenas 2,7% das terras do Brasil, a agricultura familiar eh a que produz mais alimentos para a populacao brasileira (como provou o censo do IBGE). Nos plantios financiados pelo PRONAF (programa de apoio aa agricultura familiar), o uso de agrotoxicos eh proibido. Vimos pelo Brasil afora exemplos maravilhosos de de alimentos (verduras, legumes e ateh milho crioulo) do Pronaf comprados pela Companhia Nacional de Abastecimento para distribuicao gratuita a prefeituras para uso na merenda escolar, diminuindo os gastos dos municipios, garantindo uma renda minima e escoamento da producao para o pequeno produtor (e portanto mantendo o homem no campo com qualidade). Isso sem falar na qualidade da merenda escolar, com alimentos organicos frescos de primeira...

Leandro Andrade (27/10/2009 - 18:48)
Na duvida, não consumo óleo transgênico(na ilusão de que faço diferença), normalmente compro um chamado Leve, parece não ser.

Leandro Andrade (27/10/2009 - 18:44)
Planta diabólica ou sagrada?

Resulta divertido constatar que o amaranto, essa planta "diabólica" para a agricultura genética, é sagrada para os incas. Pertence aos alimentos mais antigos do mundo. Cada planta produz uma média de 12 mil sementes por ano e as folhas, mais ricas em proteínas que as da soja, contém sais minerais e vitaminas A e C.

Assim, esse bumarangue, devolvido pela natureza à Monsanto, não neutraliza somente essa empresa predadora, mas instala em seus domínios uma planta que poderia alimentar a humanidade em caso de fome. Ela suporta a maioria dos climas, tanto as regiões secas, como as de monção e as terras altas tropicais, além de não ter problemas nem com os insetos nem com doenças, com o que nunca precisará de aplicação de agrotóxicos.

Assim, o amaranto enfrenta a muito poderosa Monsanto como David se opôs a Golias, e todo mundo sabe como acabou o combate, mesmo que muito desigual! Se esses "problemas" ocorrerem em quantidade suficiente, que é o que parece que vai acontecer, em seguida não restará opção à Monsanto do que fechar as portas. Além de seus empregados, quem realmente se compadecerá com essa fúnebre empresa?

*Tradução: Renzo Bassanetti

Leandro Andrade (27/10/2009 - 18:43)
Muitos agricultores pretendem renunciar aos OGM e voltar para a agricultura tradicional, ainda mais por que os cultivos OGM estão cada vez mais caros, e a rentabilidade é primordial para esse tipo de lavoura. Assim, Alan Rowland, produtor e vendedor de sementes de soja em Dudley, Missouri, afirma que já ninguém pede sementes do tipo Roundup Ready, da Monsanto, que ultimamente representavam o 80% do volume de seus negócios. Hoje as sementes OGM estão desaparecendo de seu catálogo e a demanda por sementes tradicionais não deixa de aumentar.

Já em 25 de julho de 2005, o jornal The Guardian publicava um artigo de Paul Brown que revelava que os genes modificados de cereais tinham passado para as plantas selvagens e criado uma "super semente", resistente aos herbicidas, algo "inconcebível" para os cientistas do Ministério do Meio Ambiente. Desde 2008 os meios de comunicação ligados à agricultura dos EUA informam cada vez mais casos de resistência, ao mesmo tempo em que o governo daquele país tem realizado cortes importantes no orçamento da Secretaria da Agricultura, que o obrigaram a reduzir e depois interromper algumas de suas pesquisas nessa área.

continua ( mais 1 só)

Leandro Andrade (27/10/2009 - 18:42)
ervas indesejáveis como o amaranto. Essa constatação contradiz as afirmações peremptórias e otimistas dos que defendem os organismos modificados geneticamente (OGM), que afirmam que uma hibridização entre uma planta modificada geneticamente e uma não modificada é simplesmente "impossível".

Para o geneticista britânico Brian Johnson, especializado em problemas relacionados com a agricultura "basta que aconteça somente um cruzamento, que pode ocorrer entre várias milhões de possibilidades. Uma vez criada, a nova planta possui uma enorme vantagem seletiva e se multiplica rapidamente. O potente herbicida aqui utilizado, à base de glofosato e amônia, tem exercido uma pressão enorme sobre as plantas, que por sua vez aumentaram ainda mais a velocidade de adaptação". Assim, ao que parece, um gene de resistência aos herbicidas deu origem a uma planta híbrida surgida de repente entre o grão que se supõe que ele protegeria e o amaranto, que por sua vez se torna impossível eliminar.

A única solução é arrancar à mão as ervas daninhas, como se fazia antigamente, mas isso já não é possível dadas as dimensões das áreas de cultivo. Além disso, por terem raízes profundas, essas ervas são extremamente difíceis de arrancar, razão pela qual simplesmente se abandonaram 5 mil hectares de soja.

Continua....

Pedro Luiz (27/10/2009 - 18:27)
palmas para o governo do Paraná Roberto Requião que sempre se mostrou contrário a soja transgênica neste estado.A turma do agronegócio junto com o PIG chamavam Requião de atrasado e outras coisas mais.Proponho a CPI DO GRIFOSATO.

Artur (27/10/2009 - 18:13)
Bem feito. Adorei.
E o Requião não tinha razão ? Todos bateram nele quando ele se posicionou contra este tipo de soja.
Ele e vários outros profissionais de qualidade e sem comprometimento com a multinacional Mondiabo.
A TV Educativa do Paraná fez vários debates a respeito do assunto no programa BRASIL NAÇÃO.

Fernando (27/10/2009 - 18:08)
Eu continuo recomendando entrevista com o agrônomo Gabriel Fernandes, do blog Em Pratos Limpos.

http://pratoslimpos.org.br/

João Sérgio (27/10/2009 - 17:51)
Isso que dá não ouvir o Darwin

manoel (27/10/2009 - 17:15)
Tenho profundo asco daqueles imbecis experts em agribusines metidos a modernosos e sabidões.
São contra sementes 'crioulas', adubação orgânica, ação de baixo impacto, pois são improdutivas segundo seu vasto conhecimento (truco!).
Não usam o termo agrotóxico, preferindo agroquímicos.
Enfim, são uns tremendos manipuladores.
Isso não impede que também sejam prejudicados por defender e realizar atitudes tão cretinas.
Não é muito, mas já é alguma coisa...

O Comissário do Povo (27/10/2009 - 17:13)
O mundo segundo a monsanto - Legendado

http://www.youtube.com/watch?v=DCx4Dg6t2Mo

O Comissário do Povo (27/10/2009 - 17:07)
http://www.combat-monsanto.org/

Leider Lincoln (27/10/2009 - 16:43)
Eu acho é pouco. Que a Monsanto e seus defensores vão todos à ...!

Bruno (27/10/2009 - 16:35)
"fusca (27/10/2009 - 13:38)
SOJA natural ja se transformou em artigo de luxo. "

Comida 'natural' é uma frescura sem tamanho.

Fernando (27/10/2009 - 16:11)
Pior do que a Monsanto são os governos que abrem as pernas pra ela.

O Brasil, infelizmente, é um exemplo disso.

Stanley Burburinho (27/10/2009 - 15:21)
O Amaranto (ou Carurú como é conhecido no Brasil) também é resistente ao glifosato.

A Erva de São João também é utilizada para se fazer coleira para cachorro para evitar pulgas e carrapatos. O cheiro forte da erva impede esses insetos de irem até os olhos do cão para beber água.

augustinho (27/10/2009 - 15:05)
E o glifosato nao é aquele pesticida que custa (e dá lucro) mais que a semente e o corretivo ? quer apostar que a Monsanto vai ´inventar´outro na semana que vem e fazer uma barragem de publicidade pra vender? quem deve rir é o governador roberto requião.

Daniel Campos (27/10/2009 - 14:52)
O mais curioso é que era óbvio que cedo ou tarde alguma planta daninha iria adquirir resistência contra o glifosato (afinal, a própria semente geneticamente modificada prova que tal resistência é possível). Mas como muitas empresas são meio... incapazes de pensar para frente e em outra coisa que não seja exclusivamente lucro, dá nisso.

Fernando (27/10/2009 - 14:19)
A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança é o órgão do Governo Federal responsável pela análise das liberações de transgênicos. Confira nesta seção votos, relatórios e pareceres de especiliastas que discordaram das decisões da CTNBio.

http://www.aspta.org.br/monitoramento-da-ctnbio


fusca (27/10/2009 - 13:38)
SOJA natural ja se transformou em artigo de luxo.



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