
Atualizado em 18 de abril de 2008 às 12:04 | Publicado em 18 de abril de 2008 às 10:30
Da revista Fórum, entrevistando Paulo Henrique Amorim
Fórum - É impossível discutir política e economia na TV? Quando o senhor fazia o Tudo a Ver dava, ao menos, alguns pitacos sobre esses temas.
Paulo Henrique Amorim - Era muito limitado e foi ficando cada vez mais. Trabalhei na Globo em um período que tinha hiperinflação e chegaram à conclusão de que era necessário ter jornalistas de economia na televisão. E o Delfim Netto diz, com muita propriedade, que no Brasil jornalista de economia não é uma coisa nem outra. Hoje, na Globo acontece o seguinte: o Roberto Marinho morreu e foi substituído por três filhos que não têm curso universitário. Nenhum deles é conhecido pelo nome próprio, são filhos de Roberto Marinho. Colecionam fracassos empresariais. O mais velho, Roberto Irineu, é responsável pelo "grande sucesso" da Tele Montecarlo. Os três, por omissão/incompetência, delegaram o comando das suas redações a alguns prepostos, entre os quais se destaca o Ali Kamel (diretor-executivo da Globo), que escreveu um livro para mostrar que o Brasil não é racista e revelou o Brasil racista. E eles escrevem o que imaginam que o patrão vá gostar de ver. Mas isso tudo carece de um mínimo de sutileza, argúcia, que o velho tinha. O velho, dificilmente, na base de operações que é o Rio de Janeiro, brigaria com o presidente, com o governador e o prefeito. Desconfio que o outro Roberto não faria isso, se ele e Antonio Carlos Magalhães estivessem vivos, estariam trabalhando com o Lula. Estariam na base do governo, na sombra. Não é muito bom estar brigado com o governo federal por muito tempo.
Paulo Henrique tocou num tema interessante. Embora eu nunca tenha tido acesso à direção da emissora, sei que Roberto Marinho, de fato, cultivava alianças com os militares ao mesmo tempo em que tinha abertura até mesmo com o Partido Comunista, empregando militantes em várias de suas redações.
Porém, estranhamente, desde 2006, a TV Globo iniciou uma guerra contra setores importantes da sociedade brasileira. É uma guerra articulada, contínua e crescente. A emissora se opõe a setores do movimento negro, das reivindicações ligadas a quilombolas e indígenas, dos evangélicos, travou uma batalha inútil contra a classificação indicativa - em outras palavras, se engajou numa desgastante batalha ideológica. Desgastante para ela, TV Globo, que nesse processo alienou uma grande parcela do movimento social organizado e gente que, em condições normais de temperatura e pressão, se aliaria à emissora, por exemplo, em disputas com empresas estrangeiras e em defesa da cultura nacional. É uma estratégia, em minha opinião, suicida. De tal forma que você começa a criar uma unanimidade contra, de gente que torce abertamente pelo seu fracasso. E isso não faz bem, nem para uma empresa, nem para uma pessoa.
A Telemontecarlo merece um capítulo à parte. Atuando com a arrogância que é característica da elite brasileira, na Itália a Globo tentou passar feito um trator sobre os adversários. Mas tinha pela frente ninguém menos que o Berlusconi. Como transmitia de fora do território italiano, a emissora brasileira imaginou que ficaria à margem das leis locais. Berlusconi, então, amarrou a Globo na Justiça com ações movidas ao mesmo tempo em várias cidades da Itália. Foi sangrando a Globo aos poucos, até que Roberto Marinho decidiu que a brincadeira do filho já tinha custado o bastante e decidiu tirar o time de campo. Isso depois de perder algumas dezenas de milhões de dólares
Eu sou um dos que torcem pelo fracasso total da Globo. Duas vezes por mês passo em frente ao Projac. E digo para minha esposa: ainda vou ver isso aqui cheio de mato...