
Atualizado em 07 de fevereiro de 2010 às 23:04 | Publicado em 07 de fevereiro de 2010 às 22:45
Las consecuencias de la crisis
Van a por España
Los mercados se ensañan con una posible crisis fiscal - Las finanzas públicas se enfrentan a nuevos ataques por las dudas sobre la política económica
CLAUDI PÉREZ - Madrid - 07/02/2010
no El País
"A pressão não vai ceder". Os executivos dos fundos de alto risco tem ideias tão devastadoras quanto potencialmente rentáveis (para eles). Em seus negócios sentem o cheiro de sangue e atacam o flanco mais débil; em suas análises soltam frases como golpes, como marteladas sucessivas no mesmo prego. A Espanha é o prego golpeado por um gestor de fundo em visita a Madrid, que prevê mais tensão: a desconfiança converteu as finanças públicas em um objetivo fácil para os especuladores depois de uma semana negra. Essa ofensiva é uma espécie de teste decisivo para a política econômica espanhola e para a eurozona.
"Os mercados veem esta semana negra como um primeiro capítulo: a Espanha não fez o dever-de-casa, segue sem fazê-lo, perdeu credibilidade, é vista internacionalmente como um risco em potencial e portanto vai continuar a receber ataque: agora mesmo é vulnerável", assegura de Washington o economista Ángel Ubide em uma visão pessimista compartilhada -- com matizes -- por uma dezena de especialistas consultados, expressa também por gurus como Paul Krugman ou Kenneth Rogoff. O governo não vê assim. "Não há notícias objetivas que expliquem este movimento especulativo", explicou a este diário o secretário de Economia, José Manuel Campa.
"Não há nenhum risco de insolvência, a dívida pública está entre as mais baixas da eurozona, o custo de financiamente segue em baixas históricas apesar da recente subida e inclusive se preparou um pacote de medidas para garantir a saúde financeira a médio e longo prazos. O mais duro da crise já passou e estamos no processo de estabilização para iniciar a recuperação. Aí estão as reformas para assegurar que a Espanha adota metas objetivas para ajudar que as coisas se acalmem. Mas os mercados se movem também por fatores subjetivos e é muito difícil lutar contra eles", disse.
Não se trata somente de uma tragédia grega ou espanhola. A crise que ameaça estender as ruínas da Acrópolis pelas margens do Mediterrâneo é na realidade "fruto de receio contra as economias do Sul da Europa e no fundo vai contra a ideia mesma do euro", aponta Santiago Carbó, assessor do Banco Central dos Estados Unidos. Esse ataque é produto das dúvidas sobre como a eurozona pode lidar com a ansiedade que provoca uma crise de duas velocidades, que reabre as velhas diferenças entre Norte e Sul, entre os países ricos que fizeram a lição de casa -- reformas, finanças públicas mais ou menos saneadas -- e os suspeitos de sempre, que enfrentam um teste decisivo em pior situação: Grécia, Portugal, Itália e Irlanda. E, claro, a Espanha, cada vez mais perto do olho do furacão.
Em 2007 a crise internacional estourou uma gigantesca bolha imobiliária; nos dois anos seguintes o terremoto financeiro se converteu em recessão e desemprego e o governo espanhol -- como os demais governos -- se viu obrigado a começar a gastar. Agora toda essa maré de gasto público (melhor ou pior utilizado, mas crucial para evitar a depressão) provoca dúvidas: os mercados acreditam que há países que não podem pagar a conta. Já atacaram com virulência a Dubai e à Grécia e começam a buscar a próxima vítima, do grupo mais débil. A Itália faz parte das apostas, mas Portugal e Espanha sofreram nos últimos dias os primeiros embates desse acesso de histeria, uma estranha combinação de pânico e desejo de fazer sangue para tirar benefícios. A Califórnia não está melhor que a Espanha. Nem sequer a Bélgica, nem muito menos a Irlanda. Mas é evidente que a Espanha desperta receios: "As suspeitas talvez sejam exageradas, porque os mercados tendem a sobreatuar, mas no final refletem percepções baseadas em elementos reais: as suspeitas sobre a capacidade da Espanha de sair desta", disse Tomás Baliño, ex-subdiretor do FMI.
No fundo, os ataques nas bolsas são uma moção de confiança na política econômica do governo de Zapatero. Um exame da credibilidade do governo espanhol, como durante semanas tem sido uma prova dura para o Executivo grego. Guillem López Casasnovas, conselheiro do Banco de Espanha, recomenda "não se tornar obcecado com os mercados". "Assim como vem, vão, é melhor não se deixar levar pela contaminação", aponta. "Mas o alarme é útil se servir para que a Espanha atue na direção correta. Temos de refazer as estruturas da economia. A dívida tem solução porque no mundo há muita, muita liquidez agora. Mas devemos começar a pactuar reformas; a foto de sexta-feira de Zapatero com patrões e sindicatos discutindo a reforma trabalhista vai nessa direção, embora ainda falte o PP [partido de oposição] na foto".
A necessidade de um acordo de Estado -- algo assim como os pactos de Moncloa ou da paz social, com o qual se obteve a reconversão industrial dos anos oitenta -- sobrevoa a política espanhola há meses. A necessidade de reformas estruturais existe há anos. "Faz tempo que a situação não é boa; faz tempo que existem claros riscos nas finanças públicas e é lógico que [o comissário de assuntos econômicos] Joaquín Almunia colocou a Espanha no mesmo saco que a Grécia, Portugal e Irlanda, porque faz tempo que Bruxelas adverte sobre os riscos da sustentabilidade fiscal pelo envelhecimento [da população] ou por falta de flexibilidade trabalhista", critica Ubide. "Os riscos se materializaram precisamente agora, sempre o fazem no pior momento e é porque a desconfiança dos mercados não deixa de crescer", conclui.
De Harvard, o historiador econômico Niall Ferguson ataca duro: "Os investidores buscam proteger-se porque os déficits surgiram em todo o mundo. Os governos vão ter de pagar mais caro pela maré de dívida emitida e que ainda terão de emitir e isso vai ser doloroso. Os dados do FMI sugerem com claridade que a Espanha necessita de um ajuste fiscal tão duro quanto a Grécia; Portugal e a Irlanda também vão passar apuros. Nos velhos tempos já teriam adotado desvalorizações da moeda. Mas agora..."
Agora isso não é possível. O euro foi um magnífico guarda-chuvas enquanto caiam países como a Islândia e a Letônia. Mas às vezes dificulta uma saída da crise por sua enorme fortaleza, que complica a vida dos exportadores e que apenas agora começa a ceder. "Isto só se solucionará se os governos afetados derem sinais adequados aos mercados, e se o Banco Central da Espanha deixar claro que, caso persista o ataque, vai comprar grandes quantidades de dívida e vai assim enfrentar todos os que estão especulando", reclama Juan Ignacio Crespo, da Thomson Reuters.
"Está acabando o prazo", diz Xavier Vives, da escola de negócios IESE. "E na Espanha não pode haver mais atrasos com as reformas. O governo não pode dar mais passos para trás como deu esta semana com as aposentadorias. Não pode haver uma atitude como a demonstrada pela oposição. Nem o Executivo, nem o PP parecem conscientes da gravidade da situação: o ajuste vai ser grande e difícil por causa dos desequilíbrios acumulados, mas a indefinição da política econômica complica tudo ainda mais", insiste.
Parecia que a mensagem correta era o plano de austeridade -- um corte de gastos de 50 bilhões de euros -- e as reformas das aposentadorias e trabalhista. Mas nada é suficiente quando o vento sopra na cara dos mercados. "É certo que o impacto foi negativo, quando deveria ter sido o reverso", reconhece Campa, que afirma que o ministério "fez o diagnóstico adequado e colocou em marcha as medidas necessárias". "A credibilidade se ganha agora aplicando-as: só assim se romperá essa analogia rápida e fácil que alguns tentam fazer entre a Espanha e a Grécia", acrescenta.
E é certo que os dados relativos aos riscos das finanças públicas estão longe de ser alarmantes. A dívida se situa em 52% do PIB, a mais baixa da eurozona. O custo de financiamento está em níveis historicamente baixos: 1% de diferença com a dívida alemã, quando em 1992 a dívida espanhola era 7% mais cara. "Mas estas cifras pioram a toda velocidade", aponta Manuel Balmaseda, economista-chefe do Cemex. "A última oferta de papéis -- que impôs um encarecimento substancial da dívida espanhola -- é um péssimo sinal que indica por onde vamos", assegura. O castigo sobre a dívida é evidente, "mas para além dessas cifras o problema é que os mercados transpiram desconfiança com a Espanha". "É verdade que a pancada é excessiva, mas tem a ver com o fato de que as bolsas pensam que a Espanha perdeu tempo e que vai ser muito difícil pactuar os ajustes por todo o barulho que eles causam".
Credibilidade. Confiança. Liderança. São palavras que os especialistas reclamam do Executivo. Porque as do mercado, sempre insaciáveis, parecem um caso perdido. "Alguns se empenham em dizer que o risco é a Espanha: ao final os investidores tomam nota sem reparar os matizes", diz o ex-secretário de Estado Alfredo Pastor. "Alguém vai ganhar muito dinheiro com isso, que é, mais uma vez, um ato de incrível irresponsabilidade coletiva dos mercados", conclui Charles Wyplosz, do Instituto Graduate.
Nota do Viomundo: Este site tem arrepios sempre que lê coisas como "lições de casa", "pactuar", "reformas". Depois de limparem o seu balanço com dinheiro público agora "os mercados" tratam de empurrar a conta àqueles que financiaram seu salvamento: os aposentados e os trabalhadores. Por trás dessa charada está uma gigantesca transferência de renda, através da qual todos nós pagamos pela crise cuja origem está na irresponsabilidade desta entidade divina chamada "os mercados". Os países europeus mais pobres, com a população envelhecida, vão correr pelo mesmo caminho de sempre: à direita, com partidos políticos que beiram o fascismo jogando a culpa nos imigrantes estrangeiros; à esquerda, com governos que sejam capazes de entregar a precarização do trabalho e da vida da grande maioria da população. Não se faz mais política pública no Parlamento. Ela agora é feita "nos mercados".
fim do mundo.
fim de um mundo.
a amerika vai de ex-império.
e o mundo se organiza à revelia do ex-poder.
século maneiro.