Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha

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O GRANDE NADA

Atualizado e Publicado em 26 de agosto de 2008 às 18:42

O Grande Nada

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 Ayrton Centeno*

Após os primeiros dias de propaganda eleitoral na TV em Porto Alegre, o que emerge da tela é algo que, ao longo da minha não curta vida, nunca havia visto. A começar pela sensação de que não existem mais partidos. Ou talvez haja um só, o do Nadismo. O Nadismo é desmembrado em tendências bastantes sutis: o Nadismo radical e o Nadismo moderado, o Nadismo fisiológico e o Nadismo revolucionário, entre tantas. Nenhuma delas, porém, implica conflito com a outra. Convivem harmonicamente, já que desfraldam idêntico estandarte: a defesa convicta do Grande Nada.

No Partido Nadista, todas as correntes fraternalmente empunham as mesmas propostas: fazer um Porto mais Alegre, realizar o sonho de Porto Alegre, ou afirmar, intrepidamente e não sem um certo grau de temeridade, que amam o pôr-do-sol do Guaíba. E tome-lhe contraluzes do crepúsculo e jingles de uma pieguice que alguém mal humorado diria que soqueiam violentamente o baixo ventre do eleitor.

Outro fenômeno é a ausência completa da política. A política, esta coisa chata que fermenta o nascimento de tantos conflitos foi ejetada ao ostracismo. Presume-se que, antes da deflagração da campanha, os coordenadores dos diversos Nadismos, sabiamente aconselhados pela marquetagem, reuniram-se e decidiram dar um basta nessa história de política. Chega! Onde já se viu aborrecer as pessoas, num momento de civismo e exaltação da cidadania, com discussões tão desconfortáveis como, por exemplo, saber quem e por que apóia o (a) candidato (a) X e como este mesmo (a) candidato (a) se posiciona claramente diante dos problemas concretos, presentes ou futuros da cidade?

Claro que sempre haverá aquele eleitor inconveniente querendo, por exemplo, saber do candidato qual é exatamente, sem papas na língua, sua posição a respeito do estupro imobiliário planejado da orla do Guaíba na zona sul. São aquelas chateações que acabam se refletindo lamentavelmente na redução do aporte tão necessário dos desinteressados recursos empresariais para a produção de campanhas bonitas na TV. É um tipo de extremismo que o Grande Nada não pode tolerar. Discrepâncias, sim, até poderão ser tratadas. Afinal, é preciso contentar a todos e a nenhum. Nada é exatamente igual ao outro. O Nada é Uno mas também é Múltiplo. Há que ter esta flexibilidade.

Para tanto, a TV, de modo tão absorvente, já está proporcionando à atenta cidadania um debate profícuo. Que, claro, está centrado naquilo que os candidatos e seus programas democraticamente nos oferecem: a imagem, a fachada, o lado externo de suas candidaturas.

Será, sem dúvida, impactante discutir se a candidata A tornou-se mais merecedora do sufrágio agora depois da chapinha ou se era melhor antes com os cabelos crespos. Debater, conceitualmente, se o semblante sonâmbulo do candidato B é compatível com sua auto-propalada audácia e se seu ar letárgico, de fato, fomenta a esperança. Ou se a blusinha da candidata C combina, republicanamente, com os seus olhos cor de anil. Avaliar se houve progresso na lavourinha laboriosamente cultivada no topo do crânio pelo candidato D -- eu diria que não, mas você, caro (e)leitor, pode dizer que sim, que ela é intensamente produtiva e viçosa, atingindo índices de produtividade enaltecidos até pela Farsul. É seu direito. Ou, por outra, pode concordar comigo, mas responsabilizar a avara resposta da natureza à falta de apoio do Pronaf. Pronto, assim do Nada eis aí o debate instalado. Tão civilizado, tão estimulante, tão cidadão.

Templo do Grande Nada, a RBS ajudou sobremaneira na conversão dos candidatos que, um a um, vieram, genuflexos, queimar incenso no altar de Zero Hora. Um mergulho de profundidade cosmética no cotidiano dos concorrentes do qual emergimos enriquecidos pela informação de que um é papai coruja, que aquele sabe de cor as músicas da Disney, que outro adora cozinhar, que aquela foi obesa, que esta borda em ponto cruz, e que há ainda quem expresse sua rebeldia mesmo sem cachos e quem a faça através de brincos. Ufa!

Olívio Dutra sempre repetiu – e repete – aquele bordão que sintetiza boa parte do sentimento e das ações que Porto Alegre vivenciou especialmente nos anos 90. Aquele que afirma que, para construir uma nova e mais justa sociedade, é imprescindível que cada cidadão não seja objeto, mas sim sujeito da política. Sentiam-se e portavam-se como sujeitos, até então, somente os candidatos.

Porém, agora, neste ano da graça de 2008, largada de campanha, os candidatos é que abdicaram de serem sujeitos da política. Sua nova condição é a de objetos. Estão na TV como se estivessem na gôndola dos supermercados. Não têm história. Não porque a perderam, mas porque optaram por sepultá-la. Escolheram serem coisas. São produtos práticos e versáteis, adaptáveis a qualquer gosto ou ambiente. Desconstróem-se num palco de ilusões de olho no teleprompter dizendo um texto em que só eles acreditam (Acreditam?). Não parecem de carne e osso. Aparentam hologramas cambiantes e fugidios, projetados desde um passado longínquo e impreciso, repetindo palavras ocas que se desmancham no ar.

Quem é de esquerda apresenta uma narrativa – que carrega tanto de Nadismo quanto de ambição -- sonhando cabalar o voto não apenas do eleitor de centro sempre oscilante, mas até da direita. Esta, por sua parte, lança, além do centro do tabuleiro, piscadelas para o eleitor de esquerda. A conseqüência deste discurso aguado do qual a política foi exilada só poderia ser a superfluidade. Parte de nenhum lugar para lugar algum. A diferença é que a direita está na sua: este é o mundo que pedra por pedra levanta a cada dia. É o que temos. E o que nos esmaga. À esquerda caberia questioná-lo, expor a sua estreiteza, as suas contradições, a sua insuficiência e as suas vastas iniqüidades. Mas isto só se faz fazendo campanha além da epiderme. E quem faz isso são homens e mulheres, pessoas com história, com partido, com política e com diversas e divergentes visões da vida e do mundo. Não é uma tarefa para espectros.

Ayrton Centeno é jornalista.


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
bentoxvi-o santo (27/08/2008 - 10:09)
AZENHA.VENDO OS ESCRITOS AQUÍ...COMEÇO A ACREDITAR QUE ESTAMOS AMADURECENDO...AS PESSOAS JÁ OBSERVAM OS OPORTUNISTAS...INFILTRADOS EM TODOS OS PARTIDOS...ESSES FORMADOS POR SERES HUMANOS...COM SEUS DEFEITOS E QUALIDADES...HUMANOS...

Stefano (27/08/2008 - 09:34)
Depois do arcabouço de um pseudo niilismo nietzscheano de outrora, onde às margens do Guaíba a superioridade evolucionária política de uma população inteira mostrou um totalitarismo político insano, as cinzas desta queima estúpida deixaram o que de negativo pode deixar este "niilismo" de fachada: o vazio ideológico em prol de um pragmatismo eleitoral de ocasião. Esqueçam a política pois se ela não morreu, está em estado de coma e assim permanecerá por longos anos!

Horácio M. Pires (27/08/2008 - 00:40)
O 'nada' mesmo, seria não poder discutir sobre este 'nada'. E de nada em nada a gente chega na praia.

Antonio Alvaro Guedes (26/08/2008 - 20:45)
Tem razão, a política, as campanhas é um grande nada. Tudo é marketing, é o mesmo que vender qualquer produto ou serviço. Qual a diferença de um anúncio de um refrigerante e outro? O que, onde e como falar, vestir, andar, cantar, dançar etc. são teatralmente ensaiados. A idéias, sentimentos, vontades; ou são omitidos, quando desagradam, ou são realçados, desde que agradem ao público alvo: o eleitor. Pesquisas de opiniões, gostos, todo o perfil do público alvo é estudado minuciosamente. O candidato se adapta a este perfil. Quem melhor o fizer ganha as eleições. Isso não é só no Brasil é no mundo todo. As "bandeiras" ideológicas são apenas uma fachada. Esquerda católica é uma piada. Se existe o Papa não sabe. A história nunca registrou. Quem lê Marx ? Comunista de fachada? Onde tem um comunista? A China é comunista? A "esquerda", associada a Ongs (de direita) agindo como fascistas. Isso tudo não é mostrado ao público. Ora bolas. Querem saber a verdade? O público alvo é apenas massa de manobras para se chegar ao poder. Depois que se danem. O Ideal passou ser coisa de bobo.


Lucas Cardoso (26/08/2008 - 19:59)
Concordo plenamente. E o problema não é só em Porto Alegre. Os candidatos do PCdoB exigem a diminuição dos juros, os candidatos do PT pedem que a gente apóie o Lula votando no PT, os candidatos do PR pedem o mesmo, com o diferencial que devemos votar no PR. E tem os candidatos que nem falam de política, mesmo que dessa forma vaga e vazia. "6563 vote em mim outra vez!", "Fulano da Silva, o candidato do povo!" é tudo que se ouve de suas bocas. Ou jingles dos mais variados estilos musicais. Ou apenas rostos sorridentes. E a mídia não mede esforços para despolitizar a política: os jornais discutem o cabelo dos candidatos, com comentários engraçadinhos sobre evitar a chuva. E depois exigem que a gente vote consciente.

Marcelo Figueiredo (26/08/2008 - 19:26)
Aqui em BH as coisas vão de mal a pior também. O candidato Nadista do Aécio-Pimentel-Mídia já passou à frente nas pesquisas.
Também, além de maior tempo no horário eleitoral gratuito, tem muito mais inserções publicitárias e, como se não bastasse, aparece nos jornais locais a todo momento (sempre ao lado de Aécio ou Pimentel, após alguma "reportagem" favorável ao governo ou prefeito).

Isso é o que chamam por aí de Democracia.



Paula Macedo (26/08/2008 - 19:04)
E oa rtigo também é um grande NADA! UFA!... O que está acontecendo come ssa gente do Guaíba?



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