
Atualizado em 26 de agosto de 2008 às 23:06 | Publicado em 26 de agosto de 2008 às 22:36
PILAR BONET, do El Pais, de Moscou - 25/08/2008
Para os quatro conflitos congelados desde os tempos da União Soviética são novos tempos. Graças ao apoio militar de Moscou, a Ossétia do Sul e a Abkhazia começam a alimentar sérias esperanças de serem reconhecidas como estados independentes da Geórgia, o país ao qual pertencem formalmente. Os outros dois enclaves separatistas - a Transnístria (na Moldávia) e o Alto Karabakh (enclave armênio tomado do Azerbaijão) tratam de tirar partido deste novo capítulo em um processo que foi detonado pela independência de Kosovo. Mas, além de seu peso territorial e demográfico conjunto (21 mil quilômetros quadrados, equivalentes às províncias de Sevilha e Cádiz, e um milhão de habitantes), eles se converteram no cenário de uma nova guerra fria entre a Rússia e a OTAN.
Nos últimos anos, o Kremlin tem ajudado os territórios não reconhecidos a se coordenar para que respondam conjuntamente às atividades da GUAM (Geórgia, Ucrânia, Azerbaijão e Moldávia), a associação de países vizinhos da Rússia fundada em 1997 sob patrocínio dos Estados Unidos. A GUAM, cujo objetivo é diminuir a dependência de Moscou, sobretudo das rotas de abastecimento energético, aborda com crescente empenho os conflitos congelados que afetam a três de seus sócios. A organização levou o debate do problema às Nações Unidas e pediu a formação de contingentes internacionais para substituir os soldados da paz russos. Eles atuam em todos os territórios, com exceção do Alto Karabakh.
Em junho de 2006, os líderes da Transnístria, Ígor Smirnov; da Ossétia do Sul, Eduardo Kokoiti e da Abkhazia, Serguéi Bagapsh, fundaram a Associação pela Democracia e Direitos dos Povos, estrutura à qual depois se uniu o Alto Karabakh como observador. Esse clube dos não reconhecidos adotou um secretariado em Moscou e tenta estender a seus representados a ajuda econômica que o estado russo oferece em seu próprio território. Mas a coordenação rápida entre eles é complicada, inclusive fisicamente. Em nenhum dos quatro enclaves há aeroportos civis e, para viajar, os separatistas têm primeiro que se deslocar para países vizinhos. Se os dirigentes da Transnístria querem voar para a Rússia devem fazê-lo por Odessa, na Ucrânia, e com passaportes válidos, já que os documentos da Transnístria só servem em casa.
A Rússia colocou três dos quatro territórios não reconhecidos em uma mesma liga, deixando o Alto Karabakh como um caso à parte entre o Azerbaijão (como país parcialmente ocupado) e a Armênia (como ocupante). Mas em março a Duma estatal (Parlamento russo) invocou o precedente de Kosovo e exortou o Kremlin a corrigir sua política em relação à Abkhazia, Ossétia do Sul e Transnístria. A Duma pediu ao Executivo que examinasse "a conveniência de reconhecer a independência da Abkhazia e da Ossétia do Sul" e, ao omitir a Transnístria da lista de candidatos à independência, colocou esta região em uma categoria de separatistas suscetíveis a um acordo com sua metrópole.

Durante a perestroika, a Transnístria, de população majoritariamente eslava (russos e ucranianos) se opôs à política de união com a Romênia, defendida pelos nacionalistas moldavos. Desde então, os partidários de unir-se com a Romênia perderam força, mas os líderes da Transnístria temem dissolver-se em um projeto de estado que seja alheio. Para convencê-los e à Rússia o presidente moldavo, Vladímir Voronin -- diferentemente de Mikheil Saakashvili, da Geórgia -- prometeu um estado neutro e desmilitarizado e inclusive se reuniu com o líder da Transnístria, Smirnov, em abril. Depois, a Moldávia e a Transnístria começaram a criar grupos de trabalho conjuntos. Agora, esses contatos foram congelados pela Transnístria, que desconfia de Voronin e quer convencer-se de que não se trata de um Saakashvili disfarçado de cordeiro. Para isso, os separatistas pedem que a Moldávia saia da GUAM e condene a agressão da Geórgia à Ossétia do Sul. Indicando que tem outras prioridades, o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, suspendeu uma reunião com Smirnov prevista para agosto.

O conflito do Alto Karabakh, um enclave armênio em território do Azerbaijão, foi o primeiro a explodir durante a perestroika e causou centenas de milhares de refugiados.
Depois do cessar-fogo, em 1994, o chamado grupo de Minsk busca um acordo. O grupo opera no âmbito da Organização para a Segurança e Cooperação da Europa, do qual a Rússia é co-presidente com Estados Unidos e França. Os armênios controlam o Alto Karabakh, do qual expulsaram toda a população do Azerbaijão, e também sete distritos vizinhos ao enclave, alegando razões de segurança.
O conflito está suspenso mas, graças ao petróleo, o Azerbaijão ganhou peso econômico e seu investimento militar já é maior do que todo o orçamento da Armênia. Devido ao Alto Karabakh, a Armênia foi marginalizada de todas as novas rotas de transporte de petróleo como o oleoduto que une Baku (Azerbaijão) com o porto turco de Ceyhan através da Geórgia, e também ficou à margem de novas rotas de comunicação como a ferrovia entre Kars, na Turquia, e Baku, via Geórgia, que substituiu uma rota através da Armênia. Hoje, a principal preocupação de Yerivan (a capital da Armênia) é impedir que a crise da Geórgia aumente seu isolamento. O presidente armênio, Serzh Sargsian, iniciou uma tímida aproximação da Turquia e insiste na expansão da rede de transporte de combustível.
Os problemas da Geórgia com a Rússia evidenciaram ao Azerbaijão a vulnerabilidade do oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan. O presidente Iljam Alíev não caiu na tentação de imitar Saakashvili e tratar de reconquistar o Alto Karabakh pelas armas. Além disso, abriu mão das alusões à via militar para recuperar o território perdido. Alíev, que mantem um equilíbrio entre Rússia e Estados Unidos, não quer conflitos que desvalorizem o oleoduto, o projeto mais querido de seu pai, Gueidar Alíev.

A reportagem é elucidativa, no entanto, creio que o título dela "As Novas Trincheiras da Guerra Fria" não é cabível. São as trincheiras da pós-URSS. É a constatação de como após a experiência soviética, os países que nasceram naquela região passaram a estruturar como grande linha-mestra de sua existênca a questão nacionalista--para fechar o vácuo deixado pelo fim do socialismo--. E é um nacionalismo à la século 19º com nuances etnocentristas (e um etnocentrismo que beira o racismo puro e simples muitas vezes)e um conceito de nação em sentido estrito. Outro ponto é que há minorias tanto no Cáucaso quanto em praticamente todos os países que integraram a URSS; Nos países bálticos existem minorias russas que foram postas às margens da sociedade após a independência. Há muitos ucranianos étnicos na Rússia e a recíproca é verdadeira. Enfim, é um quadro tenso que somado a postura anti-russa do ocidente e a tentativa de "comer pelas beiradas" para poder iraquianizar depois vai acabar resultando no imperativo de Moscou sair das suas fronteiras para defender seus interesses ou senão ver as fronteiras da Federação Russa se converterem nas fronteiras do Grão-ducado da Moscóvia. É um quadro complicado, a questão osseta, entretanto, é só o começo.