
Atualizado em 15 de novembro de 2009 às 09:34 | Publicado em 15 de novembro de 2009 às 09:32
Direito à informação
editorial da Folha de S. Paulo
Práticas desleais na internet colocam em risco as bases que permitem o exercício do jornalismo independente no país
Democracias tradicionais aprenderam a defender-se de duas fontes de poder que ameaçam o direito à informação.
Contra a tendência de todo governo de manipular fatos a seu favor, desenvolveram-se mecanismos de controle civil -caso dos veículos de comunicação com independência, financeira e editorial, em relação ao Estado. Contra o risco de que interesses empresariais cruzados ou monopólios bloqueiem o acesso a certas informações, criaram-se dispositivos para limitar o poder de grupos econômicos na mídia.
Essas salvaguardas tradicionais se veem desafiadas pelo avanço da internet e da convergência tecnológica nas comunicações -paradoxalmente, pois esse mesmo processo abre um campo novo ao jornalismo.
Apesar da revolução tecnológica e do advento de plataformas cooperativas, a produção de conteúdo informativo de interesse público continua, majoritariamente, a cargo de organizações empresariais especializadas. O acesso sistemático a informações exclusivas, relevantes, bem apuradas e editadas sempre implica a atuação de grandes equipes de profissionais dedicados apenas a isso. Essas equipes precisam ser remuneradas -ou o elo se rompe.
Quando um serviço de internet que visa ao lucro toma, sem pagar por isso, informações produzidas por empresas jornalísticas, as edita e as difunde a seu modo, não só fere as leis que resguardam os direitos autorais. Solapa os pilares financeiros que têm sustentado o jornalismo profissional independente.
Quando um país como o Brasil admite um oligopólio irrestrito na banda larga -a via para a qual converge a transmissão de múltiplos conteúdos, como os de TVs, revistas e jornais-, alimenta um Leviatã capaz de bloquear ou dificultar a passagem de dados e atores que não lhe sejam convenientes. A tendência a discriminar concorrentes se acentua no caso brasileiro, pois os mandarins da banda larga são, eles próprios, produtores de algum conteúdo jornalístico.
Quando autoridades se eximem de aplicar a portais de notícias o limite constitucional de 30% de participação de capital estrangeiro, abonam um grave desequilíbrio nas regras de competição. Veículos nacionais, que respeitam a lei, têm de concorrer com conglomerados estrangeiros que acessam fontes colossais e baratas de capital. Tal permissividade ameaça o espírito da norma, comum nas grandes democracias do planeta, de proteger a cultura nacional.
Contra esse triplo assédio, produtores de conteúdo jornalístico e de entretenimento no Brasil começam a protestar.
Exigem a aplicação, na internet, das leis que protegem o direito autoral. Pressionam as autoridades para que, como ocorre nos EUA, regulamentem a banda larga de modo a impedir as práticas discriminatórias e ampliar a competição. Requerem ao Ministério Público ação decisiva para que empresas produtoras de jornalismo e entretenimento na internet se ajustem à exigência, expressa no artigo 222 da Carta, de que 70% do controle do capital esteja com brasileiros.
A Folha se associa ao movimento não apenas no intuito de defender as balizas empresariais do jornalismo independente, apartidário e crítico que postula e pratica. Empunha a bandeira porque está em jogo o direito do cidadão de conhecer a verdade, de não ser ludibriado por governos ou grupos econômicos que ficaram poderosos demais.
Comentário do Luís Nassif:
Chega-se, finalmente, ao objetivo final do processo que explica o comportamento da mídia a partir de 2005, a politização descabida, as tentativas sucessivas de golpes políticos, os assassinatos de reputação de políticos, juízes, jornalistas. E para quê? Para se chegar ao embate final com pouquíssimos aliados. Esse acanalhamento do exerício do jornalismo fez com que a credibilidade da mídia atingisse o ponto mais baixo da história, viabilizasse outras alternativas no mercado de opinião.
Agora, qual a bandeira legitimadora para suas pretensões? A de que a mídia é a garantidora da liberdade de informação? Piada.
Esse mesmo álibi canhestro foi utilizado por Roberto Civita para tentar me convencer a aceitar o acordo com a Veja no final do ano passado. A revista passou todo o ano utilizando o jornalismo de esgoto para os ataques mais sórdidos, abjetos, não respeitando sequer família. E vinha o enviado especial dele trazendo o recado de que deveria aceitar o acordo em nome da liberdade de imprensa.
Conto apenas o meu caso. Como o meu, teve inúmeros. Em 2005, em entrevista ao Vermelho cunhei a expressão “o suicídio da mídia”, para descrever essa caminhada irreversível em direção ao fundo do poço. Agora, a mídia se posicionar para a grande batalha contra os portais e os grupos externos. Quem acredita nela?
Qual o direito de conhecer a verdade, que a Folha propõe? A ficha falsa de Dilma? Os arreglos com Daniel Dantas? A série sistemática e diária de matérias falsas, manipuladas? A deslealdade reiterada contra seus próprios jornalistas que não seguiram a cartilha?
O futuro chegou e bandeiras que, antes, poderia ser legítimas, ou estão rotas, puídas, desmoralizadas.
A Folha de São Paulo perdeu o juízo crítico. Perdeu a oportunidade de ficar quieta em relação ao avanço da internet. Para um jornal que acha que faz muita análise crítica, sobre qualquer assunto, às vezes se baseando em pesquisas (do seu DataFolha), foi-se uma boa oportunidade de fazer auto-crítica antes de se mover contra um movimento natural. Aliás, mover-se contra, virou missão da Folha há tempos. Na redação deve ter cartazes espalhados por todos os cantos anunciando sua missão: "Somos contra todos. Salvaguardem apenas os amigos". A internet é um movimento natural de busca do cidadão por sua participação como ator da vida pública. A Folha tentou impor a condição de marionete ao cidadão, manipulável ao seu estilo. O cidadão se defendeu e buscou alternativas. Simples assim. Eu fui leitor da Folha da década de 80, da campanha das "Diretas Já", e tantas outras empreitadas que suportavam a realidade em suas páginas. Hoje, a Folha é só um pasquim de categoria suspeita, veículo propagandista de mentiras e teses falidas em todo o mundo. A Folha ficou para trás. Parou no tempo. Nada disso é surpresa. Surpreendente é este editorial que beira o ridículo, revelador de uma certa estupidez acrítica de suas próprias obras. Construir patrimônio de respeito demora décadas. Destruir esse patrimônio exige pouco tempo e muita ação deletéria. A Folha pretedeu se desmontar. E conseguiu. Imaginou que iludiria muitos. Iludiu-se sozinha. Agora, Inêz é morta.