Atualizado em 12 de maio de 2008 às 17:56 | Publicado em 11 de maio de 2008 às 12:01

O FILHO DO FAZENDEIRO

O FAZENDEIRO
Reprodução do artigo de Simón Romero, no New York Times, 9/05/2008
Caraparicito (Santa Cruz) - Desde o momento em que Ronald Larsen dirigiu sua picape até aqui, vindo do estado natal de Montana, em 1969, e comprou uma extensa fazenda de gado por uma barganha, teve uma vida tranquila no remoto sudeste da Bolívia, plantando milho, criando gado e acumulando vastas extensões de terra.
Mas agora o sr. Larsen, de 63 anos, está no foco da opinião pública boliviana, no meio de uma batalha entre o presidente Evo Morales - que promete acabar com os latifúndios - e a elite rica de pele branca da parte oriental da Bolívia, que resiste à reforma agrária a ponto de discutir a secessão.
Depois de enfrentamentos com funcionários da reforma agrária em sua fazenda, o sr. Larsen deixou claro de que lado estava, se tornando uma figura celebrada no departamento rebelde de Santa Cruz e desprezado pelo governo Morales, que quer reduzir os vínculos com os Estados Unidos.
"Eu passei 40 anos neste país trabalhando a terra de uma forma honesta", disse Larsen, que se parece com Clint Eastwood . "Eles só levarão minha terra sobre meu cadáver."
Os enfrentamentos de Larsen com o governo central, envolvendo fuzis, peões e índios guaranis, podem parecer algo saído do Velho Oeste. De fato, a batalha disputada entre pastos e as montanhas ricas em gás de sua fazenda, em meio a alegações de trabalho forçado de índios guaranis, exemplifica o Oeste selvagem da Bolívia.
As tensões eclodiram aqui em um dia de fevereiro, quando Alejandro Almaraz, vice-ministro de Terras, chegou antes do amanhecer à entrada da fazenda do sr. Larsen em Caraparicito para fazer uma inspeção, um passo em geral tomado antes que o governo exproprie uma fazenda e redistribua as terras entre os camponeses locais.
As partes diferem sobre o que aconteceu, mas todos estão de acordo que houve violência. "Eu não queria que esse cara criasse algum problema, então calei a boca dele com um tiro em um dos pneus", foi a declaração de Larsen publicada no mês passado pelo jornal La Razón, o principal diário da Bolívia.
Almaraz disse que foi sequestrado e mantido durante um dia na fazenda de Larsen. Ele respondeu ao incidente com um processo contra o pecuarista americano e seu filho Duston, numa denúncia que fala em "sedição, roubo e outros delitos."
Diante disso, Larsen agora afirma que não disparou contra os veículos de Almaraz. "Os pneus foram perfurados com chaves-de-fenda afiadas", disse Larsen. "Se eu tivesse disparado nesse dia, teria havido mortos e feridos."
Estão em jogo cerca de 15 mil hectares da fazenda de Caraparicito, os quais Larsen comprou em 1969 por 55 mil dólares, e outras propriedades de mais de 42 mil hectares, segundo estimativas do governo. Larsen, que como medida de proteção transferiu a propriedade de quase todas as suas terras aos três filhos, que são cidadãos bolivianos, se negou a dizer quanta terra a família possui.
Com uma conduta reservada, Larsen, um descendente de imigrantes dinamarqueses do Meio Oeste, faz parecer a coisa mais natural do mundo a mudança para a Bolívia na década de 60, depois de se chatear com o trabalho de gerente de uma loja de departamentos.
"Um amigo meu me disse que a Bolívia era um bom lugar para investir", disse.
Seu estilo tranquilo contrasta com o de seu filho mais velho, Duston, nascido na Bolívia, criado em Nebraska e educado na Universidade Estadual de Montana. Enquanto Larsen prefere ficar na casa da família em Santa Cruz, a capital do departamento, seu filho Duston, de 29 anos, é centro de atenção desde que se mudou para cá em 2004.
Poucos meses depois de sua chegada, ganhou o concurso de beleza "Mr. Bolívia". Compensou seu espanhol com sotaque na final gritando "Viva Bolívia" diante de juízes estupefatos. Pouco depois, atuou como personagem de uma comédia boliviana sobre tráfico de cocaína intitulada "Quem matou a lhama branca?".
Agora Duston Larsen se concentra na vigilância das terras familiares, às vésperas do casamento com Claudia Azaeda, uma apresentadora de TV e ex-rainha de beleza. Aparecendo em caricaturas de jornais como o pistoleiro "Senhor Gringo Bolívia", ele se orgulha do enfrentamento com o sr. Morales, um índio aymara que como primeiro presidente indígena da Bolívia colocou a reforma agrária como prioridade máxima em seus esforços para reverter séculos de subjugação da maioria indígena.
"Evo Morales é um símbolo da ignorância, nem sequer terminou a escola secundária", disse Duston Larsen.
Ele afirma veementemente que a mão-de-obra do rancho é livre para ir e vir, depois que os Larsen e outros fazendeiros foram acusados pelo governo de manter os trabalhadores indígenas guarani em regime de servidão; o governo usa as acusações para ir adiante com a desapropriação de terras.
A realidade da vida em Caraparacito e outras fazendas pode ser mais complexa do que os dois lados sugerem. Em Caraparacito, os trabalhadores têm um contrato, comida, roupas, moradia e educação para as crianças numa escola da fazenda. Mas os salários permanecem baixos, com os empregados mais antigos ganhando menos de 6 dólares por dia.
"Não somos escravos", disse Oscar Robles, 52 anos de idade, que trabalha na fazenda há duas décadas. "Mas não temos prosperidade. Nós sobrevivemos". Em 2004, a gigante francesa Total descobriu uma das maiores reservas não exploradas de gás natural da Bolívia, chamada Incahuasi, na fazenda. Os direitos de descobertas como essa automaticamente vão para o governo da Bolívia.
Mas o sr. Larsen disse acreditar que uma razão para o governo central se interessar tanto pela terra dele é o gás natural. O presidente Morales poderia passar direto pelo governo da província de Santa Cruz e fechar acordos para explorar o gás natural, se conseguir colocar na terra indígenas que sejam simpáticos ao governo central.
A combinação de petróleo, armas e terra se torna ainda mais combustível quando misturada com a política volátil da Bolívia. Em um duro golpe na política socialista de Mr. Morales, a província de Santa Cruz aprovou medidas no domingo que suspenderiam a redistribuição de terra e permitiriam a autoridades da província renegociar alguns negócios ligados à energia.
O voto, que algumas pessoas na província consideram precursor da secessão, pode suspender as manobras em torno de Caraparacito. De fato, Mr. Larsen está sendo acompanhado de perto em Santa Cruz, onde fazendeiros estrangeiros incluem brasileiros, menonitas canadenses, gente de Okinawa e um punhado de estadunidenses.
Os dois lados estão fincando os pés para o próximo estágio da disputa.
Juan Carlos Rojas, o diretor da agência de reforma agrária, disse que a batalha se tornou pessoal quando o Mr. Larsen lançou uma ameaça indireta contra ele e outras autoridades quando o fazendeiro estadunidense se referiu a um conhecido incidente dos anos 80, no qual ele matou três invasores dentro de casa.
"Larsen deixou claro que ele está acima da lei", disse Mr. Rojas, que saiu de um confronto em abril, em Caraparacito, com o rosto sangrando depois de uma troca de pedradas. Fazendo eco a comentários feitos por Mr. Morales, ele disse que a recém aprovada autonomia de Santa Cruz é "ilegal".
"Da última vez que chequei, os Larsens estavam vivendo na Bolívia e não na República de Santa Cruz", disse o Mr. Rojas. "Apesar da resistência de Ronald Larsen, vamos entrar na fazenda dele."
Marcelo, de onde você tirou que eu sou comunista? Eu apenas apontei a tua visível incoerência. Para você, ou estamos no capitalismo mais selvagem à la Halliburton, ou embarcamos no comunismo stalinista. Nesses termos, não existe mesmo debate possível.