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MIA COUTO: SE OBAMA FOSSE AFRICANO

Atualizado em 20 de novembro de 2008 às 20:28 | Publicado em 20 de novembro de 2008 às 13:30

E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?

Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: " E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Alexsandro de S. e Silva (16/12/2008 - 10:32)
Os comentários sobre o dilema da mestiçagem, das intenções do futuro presidente estadunidense ou da suposição de um Obama brasileiro desviam do tema principal que Mia Couto chama a atenção em seu artigo: sobre as questões políticas no continente africano. Isso mostra o quanto os brasileiros estão poucos familiarizados com essas questões; eu mesmo me enquadro nisso. O exemplo da observação de Raimundo Salvador é de se destacar, pois mostra uma exceção, a de Gana, dentro do quadro político africano que o moçambicano apresenta. Porém, acredito que o escritor queira denunciar que elites políticas e econômicas africanas estão sufocando as tentativas de exercício da democracia (do modelo dos EUA c/ a vitória do Obama) na África, mas de um modo geral. Exemplo como o de Gana, Raimundo, infelizmente não é a regra para o continente, e é isso que o Mia Couto ressalta na última frase: "E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.".

Raimundo Salvador, Angola (02/12/2008 - 09:20)
É sempre perigoso generalizar. Mia Couto também o faz apesar de uma quase inexpressiva ressalva. Contudo, vale lembrar que o Gana, nação africana, elegeu por duas vezes um presidente filho de um escocês, branco, e de uma ganesa, negra. E mais: se Obama fosse europeu tb não chegaria tão longo, o que quero sublinhar, Azenha, é que o Obama é um fenómeno puramente americano, impensável na Europa ou no Brasil, mas basta dar uma pesquisada e verão que um país africano elegeu, sim, uma espécie de Obama. As generalizações são a mãe dos preconceitos. E tenho dito

Ademar (29/11/2008 - 22:03)
Perfeito Fernando, só que acho que Obama não tem intenção alguma de mudar as grandes tendências dos EUA. Pelo contrário, como um bom democrata vai manter a mesma estratégia de sempre de seu partido: ser mais protecionista que os republicanos que são mais globalizantes(e por isso a América está em dificuldades). Como a história tem mostrado, a alternancia de poder por lá é que mantém os EUA no topo do mundo. Os republicanos exportam globalização e os democratas protecionismo. Nessas idas e vindas eles ficam com o mundo. Sairão mais fortalecidos do que nunca após essa crise...

Fernando Roberto de Freitas Almeida (25/11/2008 - 10:52)
Sem dúvida a vitória de Obama é um marco nos EUA, mas ele deve ser sempre visto como um presidente americano, membro do Partido Democrata que, por mais descaracterizado que tenha sido por Clinton, continua tendo algumas idiossincrasias. Não terá como alterar as grandes tendências dos EUA. Quanto à comparação com o Brasil, observo que foi esquecido por aqui que já tivemos um presidente tão mulato quanto Obama, o sr. Nilo Peçanha, no início do século XX e praticamente não se fala a respeito, o que é uma pena, mas talvez faça parte de um intento de não registrar aquela presença.

Helena Maria de Souza (25/11/2008 - 10:36)
Muito boa a análise do Mia Couto. Branco, não se sentia português. Resolveu virar moçambicano quando da independência da ex-colônia e ajudar na invenção e construção do novo país. Admiro-o por isto. Ainda estamos nas discussões bizantinas sobre se Obama afinal, é ou não negro? As palavras adquirem significados diferentes, conforme a época e contexto. Mulato, que veio de mula - animal resultante de cruzamento de duas espécies diferentes e por isto estéril-, depois de Gilberto Freyre, transformou-se em símbolo de sedução, jinga, jogo de cintura, balanço e beleza. A genética provou que só existe uma raça: a raça humana, já que pessoas de todas as cores não geram monstros quando se reproduzem entre si. Filho de um homem de cor negra e de uma mulher de cor branca, Obama é mulato, ou mestiço. O que mais me impressionou foi ter feito toda a campanha e os discursos: na Conveção e de vencedor, sem tocar na questão da raça, tema caro e explosivo nos EUA. Por que? Estratégia. Mas também história pessoal.Ele chegou até onde chegou porque é americano e foi criado e educado na América. Porque teve uma mãe, audaciosa, libertária, sem preconceitos, de classe média, intelectual e branca. Se tivesse sido criado pela família negra e no Quênia, provavelmente, como o meio-irmão, moraria numa favela, porque o pai não cuidou de nehum dos 8 filhos.
Obama, só aconteceria nos EUA, onde com todos os defeitos da democracia, os direitos foram conquistados, e os deveres são cumpridos.

Ademar (23/11/2008 - 01:25)
Se Obama fosse africano, dependendo do país ele seria morto. Morto por ser opositor, morto por ser mestiço, morto por ser de outra tribo. O preconceito do povo africano também é real. Só que não é muito comentado por essas bandas. Apesar do Bush gostar de guerra, ele precisa negociar com seu congresso. Há portanto uma diferença enorme entre Bush e os ditadores africanos. A cara autora e muitos por aqui ainda estão deslumbrados com Obama. Têm lá no fundo a esperança de que ele seja antiamericano. Caríssimos, o Obama não é antiamericano. Uma coisa é o discurso, outra coisa é a realidade. Fechar Guantánamo é fácil. Ele vai colocar os presos onde? Vai colocar eles em liberdade? Onde? Em Cuba? Nos EUA? Vão ser deportados, repatriados? Vão ser entregues às autoridades de seus países? Ele não diz?
Quero saber o que os obamistas vão dizer quando Obama invadir o Paquistão para poder pegar o Bin Laden e tentar destruir a Al-Qaeda. Isso está entre as promessas de campanha dele. Esqueceram? Mas, tenho um palpite, garanto que muitos dos obamistas irão aplaudi-lo. Veremos. Estou louco para saber o que a mídia hipócrita também vai estampar em suas manchetes? E não se esqueçam que a Al-Qaeda já chamou o querido Obama de traidor por ter se aliado aos judeus, à Israel. Daqui a pouco irão chamá-lo de apóstata, por ter mudado do islamismo para o cristianismo. O que dirão? "Morte ao infiel". Como é difícil matar Obama, matarão americanos. O que Obama fará?

Luis Goncalves (22/11/2008 - 22:17)
Couto comenta que a democracia americana mostrou maturidade quando conseguiu eleger um membro de uma minoria para o maior posto administrativo da nacao.
Em comparacao com o continente africano e o Brasil os EUA estao a anos luz. Nao importa se ele e mestico ou negro... ele e primeira geracao, filho de um imigrante, de uma familia pobre e com talento e esforco abriu todas as portas que tinha que abrir...

Uma das razoes porque ele foi eleito e exactamente ele ter-se elevado a cima de todas estas questoes mediocres que voces estao a discutir aqui e ter feito uma campanha politica como um homem digno, inteligente e com um plano para a nacao e para o mundo, nao como o primeiro negro ou mulato ou mestico...

Lucas Cardoso (22/11/2008 - 12:59)
E se Obama fosse brasileiro?

Nesse país de maioria mulata e negra que nunca teve um presidente negro (perdemos pros EUA!).

Teria alguma chance?

Jonathan (22/11/2008 - 12:53)
Vivenciamos essa experiência desde 2002? Tudo bem que houve algum avanço, disso não tenho dúvida. Mas mudança? Não, este presidente que "nos proporciona vivenciarmos essa experiência desde 2002" não passa de mais um daqueles que fazem do Brasil um país politicamente atrasado. Neste ano de 2008 este presidente nos decepcionou bastante, vide a BrOi, Dantas, Gilmar Mendes e outras infinitas ocasiões. Não se pode negar que a eleição do Lula nos encheu de esperança e nem que houve avanço, mas ele nos mostrou ser mais do mesmo.

Carlos Henrique (21/11/2008 - 17:03)
Essa história do vencedor ter que negociar com o(s) perdedor(es) nós já conhecemos. Mas é assim mesmo, os donos do poder não o entregam facilmente, a alternativa a isso seria confronto, conflito e outra década perdida. Que fiquemos satisfeitos com os avanços e lutemos por mais.

KBLo (21/11/2008 - 12:23)
"Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto."
[vide Al Gore]

"Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia."
[vide guerras e bloqueios sobre países soberanos: Cuba, Iraque, Afeganistão. vide suporte às ditaduras latino-americanas dos anos 60-80]

"Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano".
[vide a situação sócio-racial que justifica todo esse marketing sobre a cor de pele de Obama]

"Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores."
[vide os até agora nomeados para cargos no governo de Obama]

pergunta final: e se Obama fosse dos EUA, mudaria alguma coisa?

(21/11/2008 - 11:31)
E SE OBAMA FOSSE BRASILEIRO?
É isto mesmo Luiz Carlos (20/11/2008 - 16:45), nós brasileiros já VIVENCIAMOS a resposta à sua pergunda desde 2002. Estas respostas estão todos os dias se infiltrando em nossos corações e mentes (com filtro ou não) com a virulência premeditada de um monte de jornalista, seus donos, âncoras, reporteres, 'colonistas' e pretendentes, todos com cara de paisagem...

Conceição Oliveira (21/11/2008 - 11:17)
Roberto, Mia é homem, escritor, branco moçambicano de Maputo.
*************
Luiz Carlos e Mateus, é por aí, não se pode ignorar o contexto da produção deste texto, como o faz, por exemplo, um certo sociólogo geógrafo global que de uns tempos pra cá, devido a essa crítica contextualizada de Mia, elegeu o escritor moçambicano para legitimar seus discursos retrógrados, cínicos e conservadores.

Mas o que esperar de um sujeito que pega um trecho do discurso do Martin Luther King (retirando-o completamente fora do contexto em que foi produzido) para ilustrar um manifesto anti-cotas?

Nesta falsa ideologia pós-racialista que os neoliberais não se cansam de pregar, outro africano que eles adoram ouvir é Kwame Appiah que, como Obama, é filho de africano negro com mãe branca (só que inglesa) e que vive na Inglaterra.

Appiah é o queridinho da Veja e já ganhou até as páginas amarelas, reforçando a sanha da revista na luta anti a implementação das ações afirmativas.

Avani, São Paulo (21/11/2008 - 10:01)
O comentário feito pelo Marcelo (Curitiba, 20.11) é, na minha opinião, extremamente pertinente e conseqüente. E eu acrescentaria o seguinte:
O texto de Mia Couto elogia a democracia americana. Lembremo-nos, todavia, do brutal bloqueio econômico que essa mesma democracia, em pleno mundo globalizado, continua impondo a Cuba. Essa mesma democracia, que é elogiada como modelo no texto de Mia Couto, que elege um negro (existe negro claro? meio negro?) em uma sociedade majoritariamente branca, mantém Guantánamo; seqüestra, prende e tortura inimigos políticos. Essa mesma democracia suspende os direitos políticos de qualquer cidadão em solo americano e o prende, mantendo-o incomunicável, para averiguação de supostos envolvimentos contra a ordem imperial, num verdadeiro desrespeito ao Estado de Direito de que se gabam. Isso, em um país onde há mais advogados por metro quadrado no mundo. Após o 11 de setembro, centenas de inocentes foram presos e torturados, sem direito a defesa, chamados de terrorristas pelo maior Terrorrismo de Estado contemporâneo que é exercido por esse modelo de democracia que destruiu um berço da civilização matando centenas e centenas de inocentes no Iraque. O tempo dirá qual é a bandeira de luta de Barack Obama.

Oriana Ribas (21/11/2008 - 09:05)
Para os incautos e os sem informação, sugiro a leitura de Ser negro no Brasil: alcances e limites

Fátima Oliveira

RESUMO

O ARTIGO aborda a mestiçagem, a condição de afro-descendência e a classificação racial oficial do Brasil (IBGE), além de tecer breves considerações sobre os conceitos de raça e de etnia; identidade racial/étnica; e políticas de ação afirmativa segundo sexo/gênero e raça/etnia. Conforme convenção do IBGE, no Brasil, negro é quem se autodeclara preto ou pardo, pois população negra é o somatório de pretos e pardos. Para fins políticos, negra é a pessoa de ancestralidade africana, desde que assim se identifique.


http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100006&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

Regina Célia Abreu (21/11/2008 - 08:59)
Marco, prestenção, cara o texto é de Mia Couto SIM

Pedro Duarte Pereira (21/11/2008 - 08:58)
Já li aqui neste blog inúmeras justificativas sobre o quesito cor e sobre auto-identificação. Obama é negro porque assim se identifica em bora seja mestiço de branco com negro. Difícil de entender hein turma da mulatice? Ademais, mulato vemd e cor de mula, que é mestiça e estéril.

Jorge Verissimo Pereira (21/11/2008 - 08:11)
Tem tb um artigo no The Independent de Novembro 6 que trata disto. O autor Murithi Mutiga diz que se ele Obama estive nascido no kenya ele nao seria presidente, pois o pai dele pertence a uma comunidade marginalizada la, que os indices sociais desta comunidade sao piores do que da etnia dominante. Vale a pena ler em http://findarticles.com/p/articles/mi_qn4158/is_20081106/ai_n30968213.

Roberto Locatelli (21/11/2008 - 07:18)
Quando Mia Couto diz que na África Obama seria considerado mulato, ela está se referindo aos ditadores, que o acusariam de não ser negro puro.
É óbvio que essa não é a opinião dela, senão ela não teria se emocionado como relata.
Por aqui, Ali Kamel e Caetano Veloso disseram que, afinal, Obama não é tão negro assim.
Bem, ele deve evitar tomar muito Sol, pois senão pode incomodar certas pessoas cá em Pindorama.

Marko (21/11/2008 - 01:55)
Mateus, Gabriel e outros leitores apressados rs rs prestem atenção na parte q vcs criticam do texto q não é do ( Branco ) Mia Couto mas do ( Negro ) Camaronês Patrice Nganang

Jose de Almeida Bispo (21/11/2008 - 01:27)
Nunca é demais lembrar, que quem entregou irmãos de cor para serem sugados pela máquina insana da escravidão por quase trezentos anos no continente americano, foram africanos. Da mesma forma que usaram tribos de índios contra tribos de índios no Brasil e demais território americano, na África não foi diferente. Foram os otários metidos a sabidos da África quem caíram na bicaria dos verdadeiros malandros - portugueses, belgas, ingleses, holandeses, franceses - e entregarm seus irmãos de cor em troca de espelhinhos. E quando não havia mais ninguém na área, vinham os próprios. Infelizmente não mudou muito. Sugiro assistir Diamante de Sangue com Caprio.

Marineide Rocha (20/11/2008 - 21:46)
GRandes reflexões de um dos escritores mais reconhecido e admirado da atualidade, Mia Couto. Ja tinha visto comentários a este artigo em vários blogs e jornais e agora tenho o prazer de lê-lo aqui. Realmente, quão lúcidas e verdadeiras são suas análises. Como é dificil implantar uma verdadeira democracia em países cujas práticas são tão aviltantes (ele só esqueceu, ou não quis mexer em feridas alheias, quando não incluiu nessa lista os países da america latina). Fico a pensar quando será que estes países africanos e demais latinos sairão dessa estrutura frágil que se esconde sob o manto de uma falsa democracia e implementarão de fato uma prática política verdadeira, na qual impere a vontade soberana do seu povo e a partir daí estes líderes busquem um modelo de desenvolvimento que se assemelhe aos países de democracia consolidada? Sabemos que é dificil,visto que essas falácias denunciadas no texto do escritor moçambicano alimentam e enriquecem a ganância de falsos líderes e, como consequencia, aumentam o fosso das desigualdades sociais, culturais e políticas dos países do terceiro mundo. Então, só nos resta afinal, a esperança de que, no futuro, assim como ocorreu nos EUA, haja mudança de paradigma e sopre o ares da mudança. O povo desses países merecem.

Hugo Albuquerque (20/11/2008 - 21:39)
GABRIEL MACEDO,

Mas Obama não é mesmo negro, ele é filho de um negro com uma branca, portanto é um mulato, isso é uma mera constatação da realidade.

Tem mais, na cultura americana a questão do "ser branco" é muito complexa; para ser branco tem de ser WASP (branco, anglo-saxão e protestante), quem tem sangue italiano é ítalo-americano, latino-americanos brancos não são brancos, são "latinos" para eles ; o filho de um WASP com uma ítalo-americana, por exemplo, é um ítalo-americano do mesmo modo que o filho de uma WASP com um negro é um negro. Aliás, nem se usa a palavra "negro" - como se fosse vergonhoso sê-lo -, é "afro-americano".

É uma concepção racialista que acabou enraizada na sociedade americana, ademais, é um tabu um mestiço se assumir como tal - ele apanharia dos dois lados por assumir o que ele realmente é, se é que tem consciência disso -. Os mestiços de brancos com negros são "acolhidos" pela sociedade negra e tem de se assumir como negros.

Na África, por sua vez, como acentua Mia Couto em seu texto, Obama não seria considerado negro por ter sangue branco - é a mesma coisa do racialismo americano, só que ao contrário e piorado -, mas isso é uma crítica à intolerância e ao racismo presente naquele continente, nada mais.

rodolfo (20/11/2008 - 21:12)
Acho engraçada toda essa controvérsia sobe o Obama ser ou não negro. É evidente que se o seu pai era negro, e a mãe branca, ele, em termos biológicos, não é totalmente nem um, nem outro. E se é verdade que nos Estados Unidos ele sempre deve ter sido considerado negro, talvez na África - como o texto bem diz - tivesse sido diferente, mas aí já estamos deixando o campo puramente científico e adentrando em considerações sociológicas. E, por melhores que sejam as intenções, a negação de verdades científicas em nome de posturas políticas nunca conduz a nada realmente positivo, visto que sempre estará maculado por essa falha lógica. De modo que essa "grande constatação" ( a b = ab ) não deveria simplesmente ser taxada como expressão do racismo.

Norma Nalu (20/11/2008 - 20:51)
Ora Mia Couto, como africano branco fica sem chão, apesar de se congratular com Obama. Por isso lascou um multao eheheeh eu acho é bom

Mateus Ferreira (20/11/2008 - 20:15)
Mia Couto é de uma clareza que assusta sobre a situação política do Continente Africano, porém acredito que classificar Obama como mulato é um equívoco, pois Obama se identifica como negro. E é isto o que vale.

Marcus (20/11/2008 - 19:37)
Valiosas reflexões. E se fosse no Brasil?

marcelo - curitiba (20/11/2008 - 18:05)
Bem, à parte a coerência e realismo do texto, vamos ver quanto Obama ajuda a África que morre de AIDS e de fome, quando através do poder público e do Estado, legitima empresas e laboratórios a, além de realizarem experiências incríveis com seres humanos daquele continente sob os conlúios absurdos com seus governos igualmente corruptos; e legitima também os mesmos laboratórios a não reduzirem o preço dos coquetéis já que são uma fonte bárbara de dinheiro numa terra onde cerca de 40% da população é soropositiva.
Vamos ver se Obama se lembra que é negro quando vierem bater à sua porta pedindo socorro por causa das ditaduras eternamente suportadas pela covarde política além-mar da CIA com total apoio da Casa Branca que já dizimou milhões de pessoas (normalmente inocentes) ao longo de tantos anos.
Vamos ver por fim, se Obama lembra de onde vieram seus ancestrais quando se aperceber (levando em conta que nunca soube disso) que as armas que seu país produz (mas não só elas, é verdade) são as mesmas que abastecem os ditadores e seus inimigos naquele lugar perdido do planeta Terra. Ou que peçam que ele assine, como Bush se negou a assinar, o tratado de banimento das minas terrestres que ceifa a cada dia, a vida e a metade do corpo de crianças e adultos condenados a viver num lugar que ao que parece, até Deus esqueceu...

Sinceramente, quero ver quanto Obama é negro!

Gabriel Macedo (20/11/2008 - 17:16)
Não é muito bom o artigo de Mia Couto. É interessante, mas a parte em que ele escorrega e se omite de dizer que Obama é negro, é péssimo. Esse negócio da mulatice é sempre péssimo

Luiz Carlos (20/11/2008 - 16:45)
E se fosse brasileiro? São muitas as perguntas que podem ser exploradas pelo ilustre xará Jornalista, titular deste blog.Faço apenas uma: Como seria a atuação de revistas como a Veja, Isto É, Época e jornalões do tipo Estadão e Folha?

Hugo Albuquerque (20/11/2008 - 16:06)
Texto definitivo, nada a acrescentar.



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