
Atualizado em 04 de julho de 2009 às 03:29 | Publicado em 02 de julho de 2009 às 12:52
Em 1975, Elder teve o "privilégio" de passar um tempo no hospital psiquiátrico para "desintoxicação". Conhece, ainda, muito bem o que é ter um familiar com esquizofrenia. O artigo da doutora Fátima Oliveira sobre o que é a loucura levou-o a dar este depoimento destemido.
por Elder Pacheco
Em certa medida (e nesses casos em que se fala da mente humana e seus possíveis transtornos, é imprescindível relativizar as opiniões), há uma dose de razão e grandes doses de emoção em Ferreira Gullar, quando relata o drama de seus dois filhos (e em decorrência, da família).
Contudo é criticável sua opinião sobre a desospitalização. Aliás, o termo em que se intitula os "transtornos mentais" (uma das variações de correntes da "nova" psiquiatria) como "doentes mentais" (características clínicas de doença sócio-genética") teve fortes contestações pelos defensores da Antipsiquatria, corrente cuja influência teve seu apogeu na década de 60 e que, da Inglaterra, espalhou-se mundo afora.
Ora, é bastante compreensível, seu desabafo, particularmente de alguém que teve sua vida desintegrada por duras perseguições políticas, tanto em seu estado natal Maranhão, bem como no resto do país e no exílio.
Temos em nossa família um dos irmãos com o transtorno classificado como esquizofrenia, que passou pela experiênca do Hospital Dia, com um espetacular resultado, no Hospital Psquiátrico Raul Soares em BH. Entretanto, a equipe de especialistas problematizou que, de nada adiantaria liberá-lo definitivamente para o pleno convívio familiar (e boa parte da família acompanhou seu processo de recuperação pois sem isto nada adiantaria), se ele não arrumasse uma atividade laboral ou que o tornasse de novo um cidadão. E isto não aconteceu. Qual o resultado? Voltou tudo à estaca zero.
Mas desta vez houve um agravante. Seu quadro foi se complicando e seu grau de transtorno se alterando para ações mais, digamos "violentas". Lembro-me de tê-lo convidado para jantar em minha casa e pedir-lhe para cortar uma determinada verdura e lhe dei as costas e ele com aquela faca enorme trabalhando e conversando comigo e com a Denise numa boa, porque nos respeitávamos mutuamente. Outros irmãos e irmãs que se reuniam no Hospital Dia com sessões em grupo (parte da família não aderiu) também eram sempre respeitados por ele. Mas os surtos estavam aumentando de intensidade.
Certo dia houve um episódio em que ele ameaçava a vizinhança e os de casa, ficando completamente transtornado. Eu e um falecido irmão (Elias Pacheco Fº) acorremos para o local e a Polícia já havia sido chamada por vizinhos. Coube a ele e a mim a decisão de autorizar sua imobilização e a consequente internação no Hospital Galba Veloso. Para se ter uma idéia da descomunal força que se apoderou dele, foram necessários NOVE homens para amarrá-lo e colocá-lo na viatura sem machucá-lo FISICAMENTE. Foi duro tomar tal atitude, mas não havia outra solução imediata, tanto para preservar-lhe a integridade corporal e a vida, quanto das pessoas à sua volta.
Em resumo, não é fácil, num sistema de saúde falido, com casos graves na família, sem o devido suporte após o término do tratamento, inserindo estas pessoas no mercado de trabalho, dando apoio sistemático com atendimentos às famílias no próprio habitat dentre outras possibilidades, cobrar uma firme opinião sobre a desospitalização, qando se convive no dia-a-dia com tal situação. Gullar, como Homem de vasto reconhecimento público tem um peso enorme quando emite tais opiniões.
No entanto, faz-se míster relativizar seu desabafo e trabalhar para que ele seja convencido que o movimento antimanicomial, capitaneado por Basaglia (e introduzido no Brasil pela Lei Paulo Delgado) aprovada em 2001, foi um grande passo para que a questão psiquiátrica viesse a público com todas as suas mazelas. Não fosse esse movimento, não seria possível que a opinião pública visse que estas instituições, do modo que funcionam, são masmorras que mais agravam do que solucionam a questão do transtorno mental no país. Estes depósitos de gente são repugnantes.
Tive o "privilégio" de passar um mês (três dias de triagem no Galba Veloso) na Pinel, para "desintoxicação" em novembro de 1975. Quem assistiu o "Bicho de 7 cabeças" conheceu uma ínfima parte destes presídios. Me senti dentro da obra, estrelada por Santoro. O filme retrata bem esta situação, mas mesmo assim só tocou em parte de como vivem os SERES HUMANOS confinados nestas sucursais do inferno. Aprendi a escrever poesia durante o período em que lá fui hóspede para, desta maneira, realmente passar o tempo e não ficar de fato "louco".
Coincidentemente o que inspirou o filme foi um Poeta, que morreu o ano passado AUSTREGÉSILO CARRANO BUENO e tudo que ele relata em seu livro "Canto dos Malditos" e o que se vê na na película é a mais pura verdade.
O debate tem que continuar.
O que é loucura - Fátima Oliveira
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/fatima-oliveira-o-que-e-loucura/
A internação psiquiátrica necessária não é crime - Fátima Oliveira
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/a-internacao-psiquiatrica-necessaria-nao-e-crime/