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Cartas de Minas
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Guilherme Boulos: Os donos do transporte em São Paulo

22 de janeiro de 2015 às 13h39

Ruas

  José Ruas Vaz, também conhecido como “barão do asfalto” ou “papa das catracas” é o maior

Os donos do transporte em São Paulo

por Guilherme Boulos, na Folha de S. Paulo, sugestão de Antônio David 

O novo reajuste das tarifas de ônibus, metrô e trem em São Paulo recolocou na agenda o tema do transporte público. As manifestações contra o aumento têm demonstrado vigor logo no início do ano. O prefeito Fernando Haddad (PT) justificou que não poderia aumentar subsídios para arcar com os custos do sistema. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) —que também aumentou a tarifa do metrô, trens e ônibus intermunicipais— nem justificativa deu, até porque nele nada cola.

A questão dos custos do sistema não é apenas técnica, é também política. A CPI aberta na Câmara Municipal de São Paulo após as mobilizações de 2013 concluiu que as empresas estabelecem os custos por estimativa —naturalmente aumentados para arrancar mais subsídios públicos— além de obterem aditivos indevidos.

A auditoria realizada nas planilhas das viações apontou ainda para uma série de irregularidades. A principal delas, as viagens programadas e não realizadas, representa cerca de R$1 milhão por dia de sobrelucro. A auditoria também constatou que os lucros na operação do sistema estão acima da média de mercado. Os empresários descumprem contratos e fraudam planilhas para pressionar o aumento da tarifa.

Além disso, os controladores do transporte em São Paulo colecionam histórias mal contadas, formação de cartéis e extensas fichas criminais.

O maior empresário de ônibus da cidade é José Ruas Vaz, também conhecido como “barão do asfalto” ou “papa das catracas”. É o fundador e dono do Grupo Ruas, que controla nada menos que 53% da frota e recebe 56% dos repasses públicos. Controla também o transporte em Guarulhos e outras cidades da região metropolitana.

É um homem de vários negócios, curiosamente inter-relacionados. É sócio do consórcio que administra a publicidade nos pontos de ônibus e dono da Caio Induscar, que fornece carrocerias de ônibus para suas próprias empresas e para os concorrentes. Se é que se pode falar em concorrência num ramo tão monopolizado.

O Grupo Ruas também é conhecido pela prática de falir empresas endividadas e recriá-las com novo nome para dificultar a cobrança de suas dívidas. Em 2013 somava nada menos que 242 processos de execução fiscal. Só com contribuição previdenciária ao INSS sua dívida chegou a ultrapassar R$750 milhões.

É essa turma que tem supremacia no transporte público da maior cidade do país.

Outra figura forte no ramo é Belarmino Marta, dono do Grupo Belarmino, com mais de 20 empresas que controlam o transporte em várias cidades paulistas além de abocanhar parte da capital.

Junto com Ruas, Belarmino é sócio-proprietário de várias concessionárias da Mercedes Benz, que fornece 65% dos ônibus da cidade. O diretor comercial da Mercedes, convocado para depor na CPI do transporte, soltou a seguinte pérola: “Eles realizam a venda de chassis de ônibus e micro-ônibus para eles mesmos”. Espertinhos, não?

Mas um dia a casa cai. O filho de Belarmino foi preso em 2011 por formação de cartel no setor do transporte urbano de Campinas após uma investigação do Gaeco.

O triunvirato é completado pelo grupo da família Saraiva, que controla também o transporte em várias cidades e tem a presidência do Conselho Metropolitano de Transportes de São Paulo, que reúne 45 empresas do ramo.

Fica evidente o nível de cartelização e malandragem no setor. Transparência zero. Fazem da concessão pública um mecanismo de extorsão da sociedade.

A tarifa pode e deve baixar. De onde cortar? Do lucro dos empresários. E isso deve vir junto com uma mudança profunda na gestão do transporte urbano. A criação de uma empresa pública de transportes que faça a gestão direta do sistema é uma decisão urgente e necessária.

Rentabilidade não combina com qualidade. Um sistema de transporte voltado para o lucro onera os usuários com ônibus lotados e tarifas elevadas. Um exemplo disso é a bizarrice de pagar as viações por número de passageiros transportados e não por quilômetros rodados. Ou seja, trata-se de carregar mais gente com menos custo. O resultado é a superlotação.

A mobilização popular e o novo edital dos contratos de transporte previsto para março representam uma oportunidade de enfrentar esta lógica e passar a tratar o transporte público como um direito. Resta saber se haverá coragem.

Guilherme Boulos, 32, é formado em filosofia pela USP, professor de psicanálise e membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). Também atua na Frente de Resistência Urbana e é autor do livro “Por que Ocupamos: uma Introdução à Luta dos Sem-Teto”.

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Entre os participantes, Eugênio Aragão, Deborah Duprat, Enio Streck e reitor Emmanuel Tourinho

 

15 Comentários escrever comentário »

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Antonio

26/01/2015 - 10h36

Essa bandalheira piorou quando o Maluf foi prefeito e durante seu mandato extingui a CMTC que servia de referência para custos de transporte.
O prefeito Haddad acertou com os corredores exclusivos, mas pilotado pelo Tatto da “famiglia” Tatto com muitas histórias por esclarecer na Câmara fica a dever.
A bandalheira na CET continua, basta ameaçar chuva e os semáforos param, Roberto Freire continua no Conselho, as ciclovias como foram feitas é um absurdo.
Quem está levando a comissão da empresa que pinta as faixas com tinta que se vai na primeira chuva.
O pior, o prefeito Kassab gastou uma fortuna para reformar a Paulista e o atual prefeito está quebrando tudo para fazer ciclovia. Na Paulista!!!!!!!!
Como meu dinheiro não é capim, teve meu voto para se eleger. Não o terá se tentar a reeleição.
O prefeito Haddad é um excelente Ministro da Educação!

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Sérgio Vianna

26/01/2015 - 10h14

Prezado Luiz Carlos Azenha, já que você abriu em seu portal a discussão sobre o controle do transporte de passageiros, fica a sugestão de investigar também o mesmo serviço nas linhas intermunicipais e interestaduais.
Tenha certeza que vai encontrar uma rede de empresas formando cartéis mais intrincados que as organizações mafiosas – daqui ou de qualquer lugar.
Só pra comparar e para efeito de compreensão da grandeza dos números desse negócio, a empresa Itapemirim – propriedade de Camilo Cola e das mais conhecidas do Brasil – é fichinha perto dos oligopólios formados pelos empresários Nenê Constantino e Jacob Barata, por exemplo, pois há outros controladores do mesmo porte.
A “prática de falir empresas endividadas e recriá-las com novo nome para dificultar a cobrança de suas dívidas”, conforme citado pelo articulista Guilherme Boulos, é uma tecnologia antiga e há muito praticada pelos mesmos empresários citados. Por isso que suas empresas são fatiadas em muitas pequenas ou médias empresas, para facilitar a fraude e não chamar a atenção de usuários e governos, surgindo “novas” empresas para substituir as “falidas”. E tudo continua na mesma situação.
Outra coisa que não se entende: No Brasil, qualquer empresário que queira pode montar uma empresa aérea e explorar a linha São Paulo a Brasília, ou qualquer outra, mas em se tratando de transporte rodoviário de passageiros há os donos das linhas que são eternos – os donos e as linhas – sendo impossível a concorrência.

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    Sérgio Vianna

    26/01/2015 - 10h34

    Uma pesquisa na internet e acha-se 34 (trinta e quatro) empresas do grupo de empresas de Jacob Barata. Note-se que não são todas, pois a Viação Brisa, que faz parte do grupo, não aparece na relação a seguir: Auto Viação Jabour, Viação Nossa Senhora da Penha (Mesquita), Tel Transportes Estrela S.A., Viação Vila Real, Viação Ideal, Viação Nossa Senhora das Graças (antiga Viação Saens Peña), Viação Jabour, Viação Normandy do Triângulo (Linhas Rodoviárias municipais), Auto Viação Alpha, Viação Verdun, Fácil Transportes e Turismo, Transurb S/A, Auto Viação Tijuca, Viação Nossa Senhora do Amparo, Empresa de Transportes Braso Lisboa, Viação Nossa Senhora de Lourdes S/A, Rodoviária Âncora Matias, Viação Sampaio, Viação Normandy do Triângulo, Transportes Única Petrópolis, Empresa de Ônibus Guarulhos, Guarulhos Transportes, Belém Rio Transportes, Transportadora Arsenal (Castanhal urbanos), Expresso Modelo, Real Expresso, UTIL – União Transporte Interestadual de Luxo, Rápido Federal, Expresso Guanabara, Via Urbana, Auto Viação Dragão do Mar, Viação Metropolitana (ViaMetro), Viação Fortaleza, Empresa Vitória (Caucaia).

    Antonio

    26/01/2015 - 16h37

    Não precisam ir muito longe. A maracutaia existe na linha especial para e do Aeroporto de Cumbica, cujos ônibus pertencem à Pássaro Marrom.
    Na época da inauguração a Secretaria dos Transportes Metropolitanos criou a linha e definiu os horários.
    Naquele tempo, como o aeroporto era pouco utilizado, subsidiava 15 assentos para cada uma das viagens feitas.
    Quer dizer em bom português: Se não houver lotação, o valor de quinze assentos cobre os custos da viagem, por outro lado, se a lotação for completa, a empresa recebe o valor de 15 assentos a mais.
    Essa prática vale para os horários criados e determinados pela Secretaria dos Transportes Metropolitanos naquela época.
    Se a empresa criar outros horários, os novos horários não terão esse subsídio.
    É por isso que temos os horários mais estúpidos possíveis naquelas linhas.
    Isto tudo é fácil de ser comprovado por quem quer que seja.

abolicionista

24/01/2015 - 17h56

É, Haddad, chegou a hora de mostrar pra que lado sua bússola aponta. Ou vai novamente procurar abrigo sob as asas do governador?

Responder

    Antonio

    26/01/2015 - 16h38

    E há alguma dúvida nisso!
    O atual prefeito de São Paulo foi um excelente ministro da educação.

Christian Fernandes

23/01/2015 - 14h23

Nenhuma novidade: cerca de sete segundos depois do Haddad (ou qualquer um) pensar em talvez considerar uma alteração, mínima que seja, nessa patranha e os pelegos sobre rodas cruzam os braços.

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J. Alberto

23/01/2015 - 13h19

Para dar nome aos bois pra quem mora em São Paulo ou entorno, o sr. Ruas é dono das empresas Campo Belo, Cidade Dutra, Via Sul, tem parte na Ambiental e na VIP.
Belarmino é dono da Sambaíba, a maior da cidade sozinha, mas menor que as empresas do Ruas combinadas.
Saraiva é dono da Santa Brígida e, no entorno de São Paulo, da Urubupungá e Caieiras.
O restante é composto por empresários menores e pelos cooperados (ou, popularmente, “cooper manos”). Entre estes últimos o PCC deita e rola lavando dinheiro com a operação de micro-ônibus.

E, para que todos já saibam, a licitação que vem por aí na cidade de São Paulo já está praticamente definida entre os barões. Fica tudo como está, a menos que alguém queira sair de livre e espontânea vontade.

As coisas só mudarão nas aparências. Podem anotar.

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    Jadson

    28/05/2017 - 19h47

    Exatamente isso que vc falou meu caro temos a pequenina Tupi a Gato preto e a Gatusa como empresas independentes depois vem as Ex-coopers sabemos que não é verdade. O senhor pandora doo da cooperpam hoje transwolff malaco grande dentro do PCC e o paulo farias da A2 são malacos antigos e conhecidos no crime todo mundo sabe disso só a Justina cega não vê o óbvio

Lucas

23/01/2015 - 13h06

engraçado como uma pauta universal como a tarifa do transporte só ganha legitimidade de acordo com a equipe de futebol que a levanta.
Assim é que a esquerda fica unida…

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    abolicionista

    24/01/2015 - 17h55

    Toma vergonha na cara e para de defender criminoso, tucano corrupto!

Vivi

22/01/2015 - 21h47

Boulos desmontando uma realidade que sempre é vista como pronta e acaba, por isso imutável.

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    Jair

    23/01/2015 - 09h17

    Não existe a concepção de lucro com qualidade, como bem disse numa passagem da matéria, pois a necessidade do lucro é incompatível com um serviço à altura do merecimento dos usuários. É um princípio fundamental do capitalismo. Transporte de massas é competência de Estado, fundamentado em conceito estratégico público. Mas isso não foi considerado, na sanha privatista da CMTC, para as mãos privadas. Agora, somente com muita e ampla conscientização da população, se poderá reverter esse drama.

Christiano Almeida

22/01/2015 - 16h36

Nada tão parecido com a Cidade onde nasci e moro: Campina Grande (PB), uma pequena quantidade de empresas, uma – no máximo duas – exercendo o monopólio e MANDANDO no setor e – de certa forma – na cidade.

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Rodrigo Carvalho

22/01/2015 - 15h57

Em Belo Horizonte é bem parecido. E o atual prefeito é mais amigo ainda das empresas de transporte.

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