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Fávio Aguiar e Honduras: a lógica do golpe

Atualizado e Publicado em 01 de julho de 2009 às 14:16

Alguns dos argumentos utilizados para justificar o golpe militar em Honduras foram cantados em prosa e verso na nossa mídia brasileira e fora dela, em 1964. É a lógica do "ia":o presidente ia violar a Constituição, ia implantar uma ditadura de esquerda, ia, ia, ia... Fato, nenhum.

por Flávio Aguiar*, em Carta Maior

Não sei o que foi pior: ler sobre o golpe em Honduras, ou ler, nas seções de cartas da Folha de S. Paulo (deve haver em outros jornais também) na internete, leitores brasileiros justificando o golpe. Os argumentos centrais eram os mesmos de 1964 no Brasil: o presidente ia violar a Constituição, ia implantar uma ditadura de esquerda (pra esses leitores, ditadura de direita pode), ia virar um novo Hugo Chavez, ia, ia, ia. Só ia. Fato, nenhum. Ainda, de quebra, mais uma acusação, desta vez contra o governo brasileiro, que teria aplicado dois pesos e duas medidas ao não condenar a eleição no Irã e ao condenar o golpe em Honduras, como “mais uma prova” do “esquerdismo” da política externa brasileira.

Conceitualmente, nem vale a pena responder a esses argumentos, porque eles se desmentem por si próprios, pela sua incoerência, pela sua inconsistência, pela sua própria existência, enfim. Mas vale a pena recordar que argumentos desse naipe foram cantados em prosa e verso na nossa mídia brasileira e fora dela, em 1964. É o argumento do “ia”. Só pra recordar um pouco mais: historicamente esse argumento foi usado aqui na Alemanha para atenuar a culpa social-democrata pelo assassinato de Rosa Luxemburgo, de Karl Liebknecht, em 1919 e pela sangrenta repressão contra os trabalhadores exercida pelos para-militares dos Freikorps, que se tornaram um dos berços das futuras SS e SA. Eles (Rosa e Karl) “iam” implantar uma ditadura sangrenta, se eles chegassem ao poder a matança “ia” ser igual, só que para o outro lado, etc. Haja “ia”.

Outra semelhança com o Brasil de 64 foi o argumento do novo “presidente”, Roberto Micheletti, às pressas indicado pelo Congresso para legalizar o golpe. “Manuel Zelaya renunciou, então o cargo ficou vago”. Que argumento! Zelaya desmentiu a renúncia. Mas mesmo que tivesse renunciado, para salvar a própria vida e não virar um novo Allende, o ato seria juridicamente nulo, pois obtido sob evidente coação. É como se Pedro Carmona, o golpista venezuelano de 2002, dissesse: “Pois é, o palácio de Miraflores estava vazio, o presidente Hugo Chavez se fora, aí eu entrei e tomei posse”.

Em 1964 o Congresso, para legalizar o golpe, com o apoio de quase toda a mídia e muito mais, declarou a presidência vaga porque o presidente João Goulart “abandonara” a capital federal “sem autorização” do parlamento, e deu posse interina ao presidente da Câmara, Rainieri Mazzili. Também, que argumento notável! É a lógica do golpe: primeiro se dá o golpe, depois se busca alguma lógica que o justifique, para além de seus sórdidos interesses.

Algumas lembranças sobre Honduras. Na última metade do século XX o país abrigou uma série de operações militares de direita, organizadas/apoiadas/levadas a cabo pela CIA. Nos últimos 30 anos do século essas operações foram particularmente aprofundadas pelos governos republicanos. A partir de 1977 (quando Jimmy Carter era presidente e as operações da CIA estavam “congeladas”) instalou-se no país uma “operação Charly”, sob supervisão de militares argentinos ligados ao “Batalhão 601”, que, por sua vez, era diretamente ligado ao general Leopoldo Galtieri que, em 1981, assumiu a presidência com um “golpe dentro do golpe”. Os membros do “601” treinaram, em Honduras, o Batalhão 316, especializado em seqüestros, torturas, assassinatos e “desaparecimentos”. Honduras tornou-se, sobretudo em seu quartel de Lepaterique, um centro irradiador de ações militares anti-esquerdistas no próprio país e nos vizinhos, como em El Salvador e na Nicarágua. Essas operações também contaram com o apoio do governo de Pinochet, do Chile. A partir da posse de Reagan, em 1981, as operações desse tipo foram retomadas e aprofundadas. Nem mesmo a Guerra das Malvinas, em 1982, interrompeu essa “frutífera cooperação” entre a CIA e militares argentinos, ao que parece, durou pelo menos até 1984, e com as bênçãos do papa João Paulo II e o auxílio do embaixador John Negroponte, nomeado por Reagan para Tegucigalpa, que foi o cabeça-de-ponte de sua administração na América Central e depois foi indicado embaixador na ONU!O que colocou aquela colaboração na estante da história foi a restauração da democracia na Argentina, a partir de 1983.

Portanto, vê-se que o presente golpe em Honduras tem longas raízes. Não sei se os golpistas que invadiram a casa do presidente Zelaya foram ou são remanescentes do famigerado “316”, mas sem dúvida seu espírito ia com eles. O que os militares e os golpistas civis não souberam avaliar é que o mundo ao seu redor mudou bastante. A América Latina, a América Central, a América do Sul não são mais as mesmas. Nem mesmo a OEA e os Estados Unidos são os mesmos do ano passado. Já pensaram, caros leitores e leitoras, no que aconteceria se Bush filho e Rice pianista continuassem na Casa Branca?

* Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior.


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
francisco.latorre (02/07/2009 - 16:40)

honduras é cuba.

o zurro é livre.

mais. mais.


Willian (02/07/2009 - 11:10)
Esta suspensão dos direitos e garantias individuais pelos golpistas em Honduras é realmente grave. Com mais algumas suspensões Honduras vira uma Cuba da vida.

Bruno (02/07/2009 - 10:29)
Hudson, internet é igualzinho papel, aceita QUALQUER coisa. Não é porque existem sítios defendendo a ideia de que urnas eletrônicas são fraudes que isto é verdade. PODE SER VERDADE, mas até que alguém prove, não é.

Hudson Lacerda (01/07/2009 - 23:19)
GRAVÍSSIMO: Os golpistas suspenderam direitos civis fundamentais: http://www.telesurtv.net/noticias/secciones/nota/53215-NN/congreso-de-facto-suspende-garantias-individuales-en-honduras/

Hudson Lacerda (01/07/2009 - 23:17)
Antes de querer defender as urnas eletrônicas que impossibilitam conferência dos resultados, leia: http://www.votoseguro.org ---------- http://www.fraudeurnaseletronicas.com.br/

L@!r M@r 3$ (01/07/2009 - 19:15)
A nossa sorte é que temos urna eletrônica. Se não era golpe certo!

Fabio Passos (01/07/2009 - 19:13)
Falou e disse o trombeta.

E "elite mickey mouse" é engraçado pacas... é bem isso mesmo.

Antonio Dueto (01/07/2009 - 18:53)
VIVA A DEMOCRACIA HONDURENHA !!

Alcindo (01/07/2009 - 18:32)
Do Eduardo do Cidadania sobre a declaração de Reinaldo Azevedo em apoio entusiástico ao Golpe de Honduras:

"Bem, a ditadura dessa esquerda proxeneta, Honduras parece ter rejeitado. Tomara que rejeite qualquer outra. Por enquanto, as Forças Armadas exercem o seu papel constitucional e tiram Honduras da rota da bagunça bolivariana. Que as Forças Armadas dêem seqüência a seu papel institucional e declarem o triunfo da Constituição, uma vez que um civil tentou golpeá-la."

Honduras não rejeitou coisa nenhuma.
Como esse sujeito se atreve a dizer que "Honduras" rejeitou Zelaya? Ele fez alguma pesquisa de opinião para saber a opinião do povo? Bem, para quem acha que o povo se manifestar num plebiscito é "ditadura" e um grupelho de políticos usar soldados para derrubar um governo eleito legitimamente é "democrático", nada a espantar.
Mas bom mesmo é ver com quem o governador José Serra anda, não é mesmo? O Esgoto diz que suas idéias e a do tucano "batem". Aliás, o golpismo midiático engendrado por Serra contra Lula é apenas uma fase do processo "democrático" no qual parece que o tucano acredita exatamente como seu amiguinho da Veja, com quem curte andar abraçadinho por aí.

Lista de alguns dos que condenaram o golpe:
Barack Obama
Hillary Clinton
Bill Clinton
Hugo Chávez
Evo Morales
Lula
Cristina de Kirchner
Rafael Correa
Michelle Bachelet
OEA
ONU
U. Européia

Lista de alguns que apoiaram ou viram como "legal" o golpe:

Portal G1
UOL
Estadão
IG
Terra
Noblat
Reinaldo Azevedo

Ao Latorre... (01/07/2009 - 18:23)
"Keep your friends close, and your enemies closer."
"Mantenha seus amigos perto, e seus inimigos mais perto ainda" (*)

E vocês acreditam no Obama...

Eu também lembro de um leitor tempos atrás aqui no Blog que disse algo mais ou menos assim.

Obama vence as eleições, os generais do alto comando militar se reunem com ele e perguntam:

"E aí... Que nova Guerra o senhor vai arrumar para nós... Obama sua frio..."

(*) Apesar que isto geralmente é atribuído a Sun Tzu, deem uma olhada abaixo.

http://en.wikiquote.org/wiki/Sun_Tzu

"This has often been attributed to Sun Tzu and sometimes to Niccolò Machiavelli or Petrarch, but there are no published sources yet found which predate its use by "Michael Corleone" in The Godfather Part II (1974), written by Mario Puzo & Francis Ford Coppola: My father taught me many things here %u2014 he taught me in this room. He taught me %u2014 keep your friends close but your enemies closer."

O que o Corleone diz no começo é "Meu pai me ensinou muitas coisas aqui - ele me ensinou nesta sala. Ele me ensinou - ...."

----
Gustavo Eduardo Paim Pamplona

trombeta (01/07/2009 - 17:11)
Acompanhando as notícias do golpe em Honduras pelos sites de lá, parece que o tempo voltou 40 anos à época em que era moda uma quartelada. Imprensa, militares, Igreja, políticos de direita e empresários se uniram para "restabelecer a normalidade".
É indisfarçável o entusiasmo da mídia amiga do Brasil com o golpismo da elite mickey mouse hondurenha, afinal o sonho de consumo dos barões midiáticos é tomar o poder na mão grande e botar a culpa no presidente deposto.
Um doce para quem advinhar os únicos dois países que se mostraram simpáticos e dispostos a reconhecer o governo de araque:... Taiwan e Israel.

francisco.latorre (01/07/2009 - 15:17)

pra quem ainda acredita em obama.

e acha que a cia tirou férias...
___

leiam a confissão no nyt...

http://www.nytimes.com/2009/06/30/world/americas/30honduras.html?_r=1&scp=2&sq=honduras&st=cse

detalhe...

"On the one instance, we"re talking about conducting a survey, a nonbinding survey; in the other instance, we"re talking about the forcible removal of a president from a country," the official said, speaking on the condition of anonymity during a teleconference call with reporters.

outro detalhe...

... administration officials said that they did not expect that the military would go so far as to carry out a coup. "There was talk of how they might remove the president from office, how he could be arrested, on whose authority they could do that," the administration official said. But the official said that the speculation had focused on legal maneuvers to remove the president, not a coup.

___

obama é a dialética do império...

depois do tira "malvado" e cínico...

o tira "amigo" e hipócrita.

até o próximo malvado.

já vimos esse filme...

___

viram a cara de obama ao lado de uribe... como olhou pra baixo, pros lados... prá dizer que desautorizava o golpe. eu vi.

ora... testaram o balão... e viram que não apitam mais... melhor fingir que concordam com a gente... a outra america.

___

se obama fosse tudo isso, não chegava lá. básico.

que a extrema direita americana está estrebuchando de ódio a obama também é fato.

império cadente.

vai dar trabalho ainda...


Leider Lincoln (01/07/2009 - 14:32)
O que essa gente do "ia" [ah, como o Bastos já utilizou o futuro do pretérito para justificar a ditadura deles] se esquece é que desde Hume e _de uma maneira muito enfática_ a partir de Popper, é intelectualmente desonesto utilizar utilizar este tipo de argumento para justificar seja o que for.



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