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Fátima Oliveira e o racismo na Medicina

Atualizado em 30 de julho de 2008 às 19:39 | Publicado em 22 de julho de 2008 às 17:36

NÃO BASTA PEDIR PERDÃO; URGE ADOTAR A EQÜIDADE

por Fátima Oliveira, médica

A notícia não repercutiu na mídia como deveria, caso o racismo fosse visto como uma chaga a eliminar. Falo do pedido de perdão da Associação Médica Americana (AMA), assumindo que adotou por mais de um século práticas racistas contra médicos e pessoas negras - atitudes que se refletem no "irrisório número de médicos negros e no alto índice de doenças entre negros e outras minorias".

Nos Estados Unidos, 3% dos médicos são negros; das médicas, só 1% - explicável pela soma do racismo à história mundial da medicina, que registra até há meio século a exclusão feminina. Até 1960, raros hospitais nos EUA aceitavam negros como internos - condição sine qua non para exercer a medicina no país. Há mais de 40 anos, médicos negros insistiam para que a AMA condenasse as "políticas de Estado e sociedades médicas locais que usavam regras do século XIX para barrar negros" na profissão médica e na assistência à saúde; e parte expressiva do aparelho formador de profissionais de saúde, como no Brasil, que não acolhe os robustos dados da medicina baseada em evidências sobre as singularidades do recorte racial/étnico na saúde.

Até 2005, a AMA jamais condenara práticas racistas, quer do Estado (Caso Tuskegee, Alabama, 1932-1972) ou dela; e nem adotara comportamentos éticos e políticos anti-racistas na medicina diante de dados comprobatórios, como os do "Estudo do Canto" (Universidade do Alabama, 2000) e da pesquisa com pais de crianças negras e hispânicas em hospitais (Baltimore-Maryland, 1990).

O Caso Tuskegee foi uma pesquisa sobre sífilis em 600 negros, 399 deles com a doença, a quem o uso de penicilina foi proibido! Eram oito sobreviventes em 1997 quando o presidente dos EUA lhes pediu perdão! O "Estudo do Canto" revelou: negros têm menos chances do melhor tratamento para infartos - para cada cem brancos adequadamente tratados, foram apenas 85 negros. A segunda pesquisa constatou que pais negros e hispânicos têm medo do racismo nos hospitais; bebês negros e hispânicos, acima de seis meses, têm 70% menos de probabilidade que os brancos de boa assistência médica; e a disparidade de qualidade de saúde entre negros e brancos não diminui, mesmo quando os negros têm educação e renda razoáveis. É cruel, ou não?

Nos EUA, negros são 12,8% da população; antes do furacão Katrina (2005), exibiam os seguintes dados: eram 32% dos pobres; em 2004, 19,7% não acessavam nenhuma assistência médica, contra 11,3% dos brancos; 24,2% dos que recebiam menos que US$ 25 mil/ano não possuíam garantia de assistência médica, pois lá não há acesso universal ao direito à saúde; e dos 433 professores contratados, em 2003, pelas universidades de elite (Yale, Harvard, Princeton e Columbia), apenas 14 eram negros.

O Katrina desnudou os indicadores sociais e raciais dos EUA, obrigando o presidente da AMA, John Nelson, a abordar o racismo no seminário "Cuidados de saúde e como eliminar disparidades" (2005). No pós-Katrina foi noticiado, sob a manchete "Diferenças raciais matam 84 mil nos EUA", artigo de Ernest Moy e David Atkins (Britsh Medical Journal, 21.10.05), que concluiu: o racismo nos EUA causa um "virtual furacão Katrina" semanalmente (!), traduzido em maior incidência de diabetes, cardiopatias, câncer, Aids, abuso de drogas e álcool, sobretudo em negros, além de desemprego, pobreza e alienação - os mesmos fatores que deixaram o povo de Nova Orleans a mercê do Katrina "contribuem para as diferenças na saúde de grupos pobres e minorias raciais". A lição é: a eqüidade na atenção à saúde é arma de combate ao racismo.


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Jomar dos Santos (30/07/2008 - 21:10)
Ela escreve muito bem e articula as idéias de modo que o que escreve a gente entende. É uma grande qualidade para quem escreve. Gostei do artigo e aprendi tanto

Elza Godoy (30/07/2008 - 20:23)
Ler sobre racismo e as crueldades dele causa-me sempre mal-estar. A Dra. Fátima Oliveira é incansável ao denunciá-lo. E assim vamos ficando cada vez mais espertos para identificá-lo. Grata

Romualdo Lima (28/07/2008 - 16:03)
O artigo é firme que dói. Mas precisamos ser impiedosos contra o racismo. É preciso nunca silenciar

Noris (23/07/2008 - 22:54)
Excelente. É preciso saber cada vez mais sobre as práticas racistas e denunciá-las. É um absurdo como se destrata a vida humana tendo como ponto d epartida o racismo. Há muito disso no Brasil também

Almir Teixeira (23/07/2008 - 20:51)
O que mais gosto dos artigos da Dra. Fátima Oliveira é o estilo que garante uma maior compreensão dos assuntos dos quais ela trata. Um outro ponto alto dos artigos dela é que ela emite com firmeza suas opiniões. Não deixou pedra sobre pedra do racismo na medicina nos Estados Unidos

Josélia Brito (23/07/2008 - 00:51)
Juliano, releia o artigo. Seu raciocínio está indo no caminho certo. mas faltou dar o pulo do gato. Nos EUA negros formados em medicina, até 1960 não encontravam lugar onde "praticar" medicina, porque a maioria dos hospitais nãoa ceitavam receber negros como médicos residentes. Impedidos de fazerem residência, por conta dor acismo, não poderiam exercer a profissão depois. Ora, não se trata de que negros médicos eram formados de forma inferior, eram menos sábios. O babado era outro, cara!

Fábio (23/07/2008 - 00:45)
O racismo em qualquer lugar do mundo é é condenável, é nojento. Mas tendo a pensar que nos Estados Unidos a coisa é mais doq ue arraigada. Quero ver é se Obama ganhar as eleições. Tenho medo que le não ganhe porque pode ter uma maioria racista totalmente silenciosa que não vote nele

Juliano (22/07/2008 - 19:08)
Uma vez eu ouvi uma frase que dizia o seguinte: "se hoje o ser humano está em sua forma final de evolução, que bela porcaria nós nos tornamos!" Pior que nem dá pra discordar, né? Uma prova de que o homem tem muito a evoluir ainda é isso de procurar inferioridades em outros homens por causa da sua cor de pele (citando apenas este exemplo dentre os vários tipos de discriminação). Tá certo que dar emprego de médico para uma pessoa despreparada (no caso, aprendizado ruim e/ou perfil psicológico instável) é com certeza algo irresponsável. Mas se todo mundo ali tem as mesmas qualidades, os mesmos princípios, a mesma ética de trabalho.. negros, brancos, hispânicos, asiáticos, todos serão ótimos profissionais da mesma forma! Na mesma situação está o cuidado médico com pessoas negras e hispânicas: se a tal luta contra o racismo é assim tão importante como diz o governo, por que estas pessoas continuam sendo tratadas com todo esse descaso? Por estas e outras é que o racismo sempre será um dos pensamentos mais vergonhosos e inaceitáveis da história da humanidade, que infelizmente usou em muito desse pensamento pra ser moldada.



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