
Atualizado em 08 de novembro de 2009 às 19:31 | Publicado em 08 de novembro de 2009 às 19:24
June 16, 2003, U.S. Edition
Exagerando as ameaças
Iraque faz parte de uma padrão. Assumimos que Saddam estava trabalhando em um vasto programa armamentista até o fim por ser um homem diabólico
Por Fareed Zakaria, na Newsweek
É cedo para concluir que o Iraque não tinha armas de destruição em massa. Um pouco de História pode dar uma perspectiva. Desde 1991, os inspetores das Nações Unidas encontraram e destruiram o seguinte no Iraque: um supercanhão; 40 mil munições químicas; 500 mil litros de agentes químicos; 1,8 milhão de litros de precursores químicos e grande quantidade de equipamentos ligados à guerra biológica.
Ainda assim, os inspetores estavam certos de que grandes quantidades de armas estavam faltando. Em julho de 1998, por exemplo, os inspetores da ONU descobriram um documento mostrando que o Iraque tinha exagerado -- em 6 mil -- o número de bombas químicas que usou na guerra contra o Irã. (O documento foi tomado das mãos dos inspetores por um agente iraquiano). As 6 mil bombas químicas -- construídas mas não utilizadas -- ainda não foram encontradas.
Mas também está claro que o governo dos Estados Unidos exagerou a ameaça representada pelo Iraque. Exagerou o que sabia e fez declarações definitivas quando as informações eram duvidosas. Richard Butler, o inspetor-chefe da Nações Unidas durante o fim dos anos 90 e um apoiador da guerra, escreveu na semana passada no jornal Australiano, "claramente, uma decisão foi tomada de bombar o caso contra o Iraque".
Isso não deveria nos surpreender. Por décadas alguns conservadores, inclusive muitos que têm grande influência, tem uma tendência de exagerar vastamente a ameaça representada por regimes tirânicos.
Tudo começou com o agora famoso Team B. Durante o início dos anos 70, conservadores linha-dura castigaram a CIA por ser mole com os soviéticos. Como resultado disso, o diretor da CIA George Bush concordou em permitir que um painel externo de especialistas analisasse a inteligência e chegasse às suas próprias conclusões. O Team B -- que incluiu Paul Wolfowitz -- produziu um relatório devastador, alegando que a ameaça soviética havia sido profundamente subestimada pela CIA.
Em retrospectiva, as conclusões do Team B estavam longe do alvo. Descrevendo a União Soviética, em 1976, como dona "de uma grande PIB e em expansão", previu que o país iria modernizar e expandir suas forças armadas em um ritmo impressionante. Por exemplo, previu que o bombardeiro Backfire "provavelmente será produzido em números substanciais, com talvez 500 aviões prontos em 1984". Na verdade, os soviéticos tinham 235 aviões do tipo em 1984.
A verdade é que mesmo as próprias estimativas da CIA -- atacadas como muito baixas pelo Team B -- eram, em retrospectiva, grandes exageros. Em 1989 a CIA publicou um relatório interno sobre suas avaliações de risco entre 1974 e 1986 e chegou à conclusão de que em todos os anos "superestimou substancialmente" a ameaça soviética em todas as suas dimensões. Por exemplo, em 1975 a CIA previu que dentro de 10 anos a União Soviética substituiria 90% de seus bombardeiros e mísseis de longo alcance. De fato, em 1985, a União Soviética tinha sido capaz de substituir menos de 60% deles.
Nos anos 90, alguns dos mesmos conservadores decidiram que a China era o novo inimigo. O único problema é que a China ainda era um país de Terceiro Mundo e não poderia ser vista como grave ameaça aos Estados Unidos. O que se seguiu foi especulação sobre o tamanho das forças armadas chineses e acusações de que o país tinha engajado em roubo maciço de segredos nucleares dos Estados Unidos. Isso veio num crescendo até a publicação do relatório da Comissão Cox de 1999, que sustentava que os militares chineses estavam gastando duas vezes mais que o estimado pela CIA. O relatório Cox é cheio de especulação, estimativas frágeis e erros factuais. O livro citado na bibliografia como base para os números sobre gastos militares, por exemplo, não diz o que está contido no relatório.
O Iraque é parte de um padrão. Em cada um dos casos, argumentos sobre a ameaça representada por um país se sustentam em grande parte no caráter do regime. O relatório do Team B explica que as análises da CIA estavam erradas por se basearem muito nos "números" -- ou seja, fatos -- e por negligenciarem as intenções soviéticas. O regime chinês é considerado um perigo mortal por ser leninista. Saddam estava trabalhando num vasto programa armamentista por ser um homem diabólico.
Nunca devemos esquecer que esses regimes são perigosos, e isso importa. Mas as avaliações de risco não podem ser baseadas simplesmente nas intenções de um adversário, mas também em suas capacidades. Isso é uma lição importante quando nos movemos para lidar com regimes repressivos como os da Coreia do Norte, Irã, Líbia e Síria. Eles são diabólicos e podemos ser obrigado a confrontá-los. Mas façamos isso baseados num retrato claro e correto da ameaça que representam, não em nossa imaginação fervorosa.
O que descobrimos sobre a União Soviética depois da guerra fria é que era tão diabólica quanto havíamos imaginado -- talvez até mais -- mas que era muito menos poderosa do que nós temíamos. É o que provavelmente vamos descobrir sobre o Iraque de Saddam Hussein.
Nota do Viomundo: Pois é. Cadê as armas de destruição em massa?
Vai João Bastos, diz alguma coisa ai........................
não tem nada p dizer né...