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Cicero: O fenômeno Barack Obama

Atualizado e Publicado em 25 de janeiro de 2009 às 09:20

Folha de São Paulo, sábado, 24 de janeiro de 2009

ANTONIO CICERO

O fenômeno Barack Obama

As ideias de que o mundo mudou e devemos mudar irritam direitistas e esquerdistas

NEM OS representantes da direita cínica nem os da esquerda dogmática conseguem esconder seu rancor contra a alegria com que tanta gente saudou a posse de Barack Obama. Tanto uns quanto os outros debocham da "ingenuidade" dos que pensam que, com o novo presidente, alguma coisa possa melhorar nos Estados Unidos ou em qualquer outra parte do mundo. Segundo eles, nada pode mudar senão para pior.

Acontece que as pessoas que conheço e que ficaram admiradas e alegres com a eleição e a posse de Obama estão longe de ser tão ingênuas quanto eles supõem. Elas não acreditam em milagres ou messias ou "grandes timoneiros"; são conscientes de que o presidente dos Estados Unidos não pode fazer tudo o que quer; percebem que Obama ainda não se provou como administrador; sabem que vivemos um momento de crise econômica mundial sem precedentes; entendem a gravidade das guerras no Oriente Médio e no Afeganistão; compreendem que vivemos um momento instável de imprevisíveis transformações nas correlações internacionais de forças econômicas, políticas e militares etc. etc.

Apesar disso, os que celebram a posse de Obama -entre os quais me incluo- acreditam que já há bastante razão para fazê-lo. Em primeiro lugar, é extraordinário que um homem negro, filho de imigrante, com um nome de origem árabe, tenha sido eleito presidente dos Estados Unidos. Em segundo lugar, é maravilhoso que tal homem deva sua eleição, em grande parte, à superioridade do seu brilho, do seu carisma, das suas ideias. Em terceiro lugar, é esplêndido que, ao eleger Obama, os eleitores americanos tenham claramente repudiado o governo mais vil de que se tem memória nos Estados Unidos, que foi o da extrema direita do Partido Republicano, na figura lamentável de George W. Bush. Em resposta aos que afirmam que nada poderá mudar no novo governo, pode-se dizer que esses três fatos já representam uma imensa mudança.

Mas há mais. Curiosamente, sob influência de comentaristas das grandes redes de televisão norte-americanas, muitos afirmam que Obama nada disse de novo no seu discurso de posse. Isso é uma falsidade. De modo educado, porém firme, ele deixou bem claras as suas diferenças em relação ao antecessor. Entre outras coisas, falou de restaurar ao devido lugar a ciência (que foi vilipendiada, como se sabe, pelo apoio ideológico e material dado por Bush à charlatanice do "design inteligente"); declarou ser falsa a oposição entre os princípios e a segurança (quando Bush, em nome desta, sacrificou aqueles); ressaltou a necessidade de abandonar dois dogmas: o primeiro, quanto ao tamanho do Estado (que o governo Bush pretendeu tornar mínimo no que diz respeito à segurança social, mas não no que diz respeito às forças de repressão e guerra); e o segundo, quanto ao papel do mercado (que o governo Bush quis maximizar por meio, entre outras coisas, de uma desregulamentação cujas consequências se manifestam na atual crise econômica); observou, contra o fanatismo religioso (que Bush sempre cortejou), que o povo dos EUA não se compõe apenas de crentes, mas também de incréus; e afirmou, contra os conservadores, que "o mundo mudou e nós devemos mudar com ele".

As ideias de que o mundo mudou -que o próprio Obama não só afirma mas encarna- e de que devemos mudar com ele são, no fundo, as que mais irritam tanto os direitistas cínicos quanto os esquerdistas dogmáticos. Outra ideia que lhes é inaceitável -e que constitui o próprio teor do discurso de posse- é a de que a sociedade aberta é melhor do que a fechada.

Quanto à direita, ninguém ignora que ela se define exatamente em oposição às ideias de mudança para melhor e de sociedade aberta. Já para a esquerda dogmática, a situação é um pouquinho mais complexa. O que ela é incapaz de admitir é que possa haver qualquer melhora real ou substancial no mundo antes da superação do capitalismo, isto é, antes da "Revolução". Sendo assim, dado que qualquer mudança real desmentiria suas teses, não lhe resta senão crer que toda mudança e todo projeto de mudança que se apresente como tal seja um mero engodo. Assim lhe parece ser também a sociedade aberta, que ela descarta como "democracia burguesa".

A meu ver, o que não consegue mudar são as ideologias. As coisas reais mudam o tempo todo, ora para pior, ora para melhor e, embora não possamos saber o que acontecerá daqui para frente, a verdade é que, no momento em que escrevo, o fenômeno Obama já representa uma mudança real para melhor.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2401200918.htm


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Lucas Cardoso (28/01/2009 - 15:23)
Josilda, comparado ao Bush 99% da população mundial são enviados dos céus.

Josilda Campelo (26/01/2009 - 21:34)
Gente, comparando-se com Bush, Obama é um enviado dos céus. Bom e gostoso como um maná dos deuses. E deixemos de firulas

Carlos Henrique Simões da Costa (26/01/2009 - 18:01)
É verdade que a eleição de um negro, oriundo de movimentos sociais e com um nome árabe, na nação mais reacionária do planeta, com um histórico de prática das mais horrendas truculências, é um grande avanço. Como também é verdade que, além da direita que não quer que nada mude, alguns membros da esquerda, cegos em seu dogmatismo, acabando não percebendo que, para chegar-se à Revolução, tem-se que construí-la progressivamente, com avanços gradativos, e que acreditar em mudanças extremas é ser ingênuo. Todavia, também é certo que ainda é muito cedo para concluirmos se Obama, além das mudanças na aparência, modificará também a essência das coisas. Temos prececedentes positivos; o fechamento de Guantánamo, a sua indicação de que mudará os critérios de ajuda aos Bancos; mas também temos negativos: as acusação absurdas que fez, através de Hillary Clinton, à Venezuela; a sua afirmação de que manterá o exército do Império no Afeganistão; o seu Gabinte, recheado de neocons ou de gente da direita democrata. É cedo ainda, lembremos que os conservadores aceitaram Obama( é verdade que foram também obrigados a fazê-lo), mas também podemos ter certeza de que, como Lula, Obama teve que fazer várias concessões aos reacionários para atingir o poder, lembremos que a máquina propagandista Republicana foi pouco usada contra ele, e temos que esperar para ver até que grau foram esses acertos.

Luiz Monteiro de Barros (25/01/2009 - 23:34)
Ora bolas, os de esquerda dogmáticos e os já pessimistas então prefeririam Mckein?. O verdadeiro Socialismo nunca existiu. É o continuo aperfeiçoamento e participação da Maioria na gestão do orçamento público. Não é teorico, mas mesmo que fosse, só a Esquerda autentica discursa a participação popular. Então o caminho é longo, mas poderia começar no capitalismo com a cogestão empregada por empresarios brasileiros e uma educação sem fins lucrativos e que tem funcionado. Tudo se resume na partição dos lucros. Através da Internet como disse o Edu faremos frente a eles e aos de direita. Até serem ASSIMILADOS, digo eu. É o alvorecer de uma Nova Era.

Marcos D. (25/01/2009 - 23:32)
Excelente texto do Antonio Cicero. Para aqueles que dizem que Obama não irá mudar nada, eu respondo o seguinte: Se isso acontecer, mesmo, se Obama não mudar nada, então pode ter certeza de que os EUA e o Mundo ainda irão piorar muito mais do que já piorou.


Vejamos o caso da economia norte-americana, por exemplo:

Se um país que é o maior importador do mundo e que representa 25% da economia mundial não mudar e não melhorar, isso afetará negativamente ao mundo todo e não apenas aos EUA.

Então, é melhor torcermos muito para que Obama realmente mude os EUA, pois o mundo inteiro irá se beneficiar com isso.

Madá (25/01/2009 - 20:53)
E como tem gente com ares alucinados por aqui. Penso que Obama se eleger já valeu. Enterrou as sandices de Bush, de vez. Implodiu o reinado do fundamentalismo. Foi demais Bush e o Papa juntos era dose pra leão. O mundo se livrou de um. É isso que quase todo o mundo festejou. Festejou o significado de expulsar Bush e colocar em seu lugar um tipod e gente que desperta confiança. Agora minha gente, não vamos esquecer que Obama se elegeu presidente dos Estados Unidos e vai cuidar prioritariamente e sempre dos Estados Unidos. Jamais vai se posicionar contra os interesses dos Estados Unidos. Mais nada. Ou esperamos que um presidente da repúblcia seja contra os interesses do seu país? Ora me compre um bode! Que Obama não seja cruel com os outros povos já será muito.

Vera (25/01/2009 - 20:18)
Para quem peefere a empiria à futurologia, aqui vai o link de um site indicado pelo Idelber Avelar: o Obâmetro http://www.politifact.com/truth-o-meter/promises/

Murilo Valadares (25/01/2009 - 17:25)
Uma análise real excelente. Antônio Cícero acertou na mosca. Retratou um momento. Repito, o artigo é um retrato fiel do momento. O futuro ainda vai acontecer. Não sabemos o que Obama fará com este legado. O resto é esquizofrenia pura.

Marco Antônio Leite (25/01/2009 - 17:14)
Vera saber que Obama é o homem da moda atual não é nenhum bicho de sete cabeças, basta ver o terninho bem cortado, camisa discreta com gravata folgada para evitar um enforcamento momentâneo e inesperado, os sapatos do melhor couro existe na praça. Porém, dona Vera na teoria tudo é muito fácil e moleza fazer isto, aquilo ou aquilo outro, mas na prática a situação é bem diferente, as cobranças são muitas, como também as pressões são tantas que fica difícil fazer isso ou aquilo, o enforcamento do presidente ficará mais para o final de seu mandato. O Obama tem que encarar um Senado conservador, uma elite retrógada, como também aqueles que não votaram nele. Portanto, como você pode notar falar é fácil, fazer é complica, pois ele deverá atender as necessidades da elite dominante Norte Americana, para depois pensar em fazer para a multidão de pobres e miseráveis. Não se iluda dona Vera, na primeira pisada de bola do Obama, a imprensa defensora da escol cairá de pau sobre a cabeça dele, neste momento como o Obama joga no meio campo, acabará recuando ainda mais para defender seus interesses particulares, esse jogo terminará com um placar elástico, ou seja, 10 para o time dos RICOS, zero para o time dos POBRES, como se percebe se trata de um jogo viciado, onde somente um lado ganha o campeonato.

Marco Antônio Leite (25/01/2009 - 16:57)
Os Estados Unidos elegeu o primeiro presidente da República NEGRO. Esse foi um momento histórico para o continente Africano e para todos os negros que de há muito sofrem todo tipo de discriminação, ou seja, através de ser o primeiro degrau na ascensão social a serem pisados de forma a mantelos ainda na escuridão da escravidão. Saliento que a fome não tem cor, as guerras também não tem cores, os países que sofrem com o Exército Norte Americano caso especifico do Iraque e do Afeganistão não tem cores. As crianças, bem como as mulheres e os inocentes não tem cores, o estomago necessita do feijão mulatinho, do arroz branco, da carne vermelha, como também do verde das verduras e saladas, a humanidade pede socorro. Senhor Obama vossa senhoria tem que agir com rapidez e determinar o fim das guerras ora em andamento, liberarem o bloqueio contra o povo Cubano para que ele possa ter uma vida mais digna, punir aqueles que são culpados com relação ao terror e, liberar os inocentes do presídio de Guantánamo. Ajudar os negros Norte Americanos que vivem na miséria, sem emprego e os sem tetos, ou seja, por a casa em ordem. O choro de fome de uma criança não tem COR.

Lucas Cardoso (25/01/2009 - 16:57)
Quanto ao Obama, eu sou ateu, mas certamente não me me entristeceria se ele acabasse me convertendo (com milagres, não profecias).

Eduardo Guimarães (25/01/2009 - 14:37)
Ary, o que me preocupa é o exercício de futurologia. Como você pode ter certeza do que acontecerá daqui a dois anos? Se a vida fosse assim como você diz, com base no histórico de ações na Bolsa poderíamos todos ficar ricos. Eu fico com aquilo que está no post, o que Obama já deu ao mundo e com as possibilidades que gera. Eu não apostaria que Obama será mais do mesmo ou uma revolução. Você corre tantos riscos quanto a Vera. Talvez mais, porque despreza indícios cada vez mais fortes de que Obama romperá com muita coisa que preicsa ser mudada nos EUA. Mas seu comentário é bom, porque ilustra bem o que o autor do texto do post quis dizer

Paulo (25/01/2009 - 14:31)
Obama vai ser um Clinton.
Avanço óbvio em relação a um governo Bush, mas nada de inovador ou que sinalize um periodo de maior paz.
Vão continuar mandando bala na cabeça de quem não os entende como lideres naturais de um mundo melhor.
É só ver o absurdo que esse infeliz falou sobre a Venezuela, logo após eleito, para saber que não muda muita coisa.

Ary (25/01/2009 - 13:27)
Vera, guarde o teu comentário e o meu. Daqui a dois anos veremos quem engole qual. As minhas desconfianças são políticas e datam de mais de 200 anos na longa trajetória do "fazer política nos EUA". Pesquise e você saberá de todas as fraudes alternadas por republicanos e democratas (duas faces da mesma moeda). Obama foi fabricado para o tempo certo. Em plena época de apelo à paz e preservação ambiental, os republicanos escalam para a disputaum ex-combatente e uma predadora ambiental. Por qual motivo seriam tão ingênuos?

Vera (25/01/2009 - 12:25)
O texto do Antônio Cícero é muito bom, objetivo, claro e de análise apurada. Mas parece que tem gente que lê, lê, e não entende nada, provavelmente enquadrável na categoria da "esquerda" dogmática e cega, ou no que eu chamaria de ceticismo fatalista, de direita ou de esquerda, como o leitor Ary. Paciência, um dia entenderão.

Eduardo Guimarães (25/01/2009 - 10:07)
Assino embaixo

Ary (25/01/2009 - 10:05)
"Em primeiro lugar, é extraordinário que um homem negro, filho de imigrante, com um nome de origem árabe, tenha sido eleito presidente dos Estados Unidos". É exatamente aqui que reside o golpe, Azenha. Guardadas as proporções de dimensões amazônicas, só faltou ele se apresentar como "caçador de terroristas". Assim: dois partidos se alternam no poder. Ambos de direita. Em quase nada diferem. Pouquíssima diferença entre o republicano que "perdeu" e o democrata que ganhou. Vendem isso como democracia



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