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As verdades por trás das mentiras

Atualizado em 14 de janeiro de 2009 às 16:32 | Publicado em 14 de janeiro de 2009 às 12:23

Temos de ser capazes de ver a verdade por trás das mentiras

Norman Finkelstein, Counterpunch, 13/1/2009 http://www.counterpunch.org/neumann01132009.html


Norman Finkelstein é autor de cinco livros, entre os quais Image and Reality of the Israel-Palestine Conflict, Beyond Chutzpah and The Holocaust Industry, traduzidos para mais de 40 idiomas. Esse artigo está publicado também em sua página internet, em www.NormanFinkelstein.com

Os registros existem e são muito claros. Qualquer pessoa encontra na internet, na página do governo de Israel e, também, na página do ministério de Negócios Exteriores de Israel. Israel desrespeitou o cessar-fogo, invadiu Gaza e matou seis ou sete (há controvérsia quanto ao número de assassinados, não quanto ao crime de assassinato) militantes palestinenses, dia 4/11. Depois, o Hamás respondeu ou, como se lê nas páginas do governo de Israel "o Hamás retaliou contra Israel e lançou mísseis."

Quanto aos motivos, os documentos oficiais também são claros. O jornal Haaretz já informou que Barak, ministro da Defesa de Israel, começou a planejar o massacre de Gaza muito antes, até, de haver acordo de cessar-fogo. De fato, conforme o Haaretz de ontem, a chacina de Gaza começou a ser planejada em março.

Quanto às principais razões do massacre, acho, há duas. Número um: restaurar o que Israel chama de "capacidade de contenção do exército" e que, em linguagem de leigo, significa a capacidade de Israel para semear pânico e morte em toda a região e submetê-la mediante a pressão das armas, da chantagem, do medo. Depois de ter sido derrotado no Líbano em julho de 2006, o exército de Israel entendeu que seria importante comunicar ao mundo que Israel ainda é capaz de assassinar, matar, mutilar e aterrorizar quem se atreva a desafiar seu poder pressuposto absoluto, acima de qualquer lei.

A segunda razão pela qual Israel atacou Gaza é culpa do Hamás: o Hamás começou a dar sinais muito claros de que deseja construir um novo acordo diplomático a respeito das fronteiras demarcadas desde junho de 1967 e jamais respeitadas por Israel.

Em outras palavras, o Hamás sinalizou que está interessado em fazer respeitar exatamente os mesmos termos e conceitos que toda a comunidade internacional respeita e que, em vez de resolver os problemas a canhão e com campanhas de mentiras por jornais e televisão, estaria interessado em construir um acordo diplomático.

Aconteceu aí o que Israel poderia designar como "uma ameaçadora ofensiva de paz chefiada pelos palestinenses". Imediatamente, para destroçar a ofensiva de paz, o governo e o exército de Israel desencadearam campanha furiosa para destroçar o Hamás.

A revista Vanity Fair publicou, em abril de 2008, em artigo assinado por David Rose, baseado, por sua vez em documentos internos dos EUA, que os EUA estavam em contato estreito com a Autoridade Palestinense e o governo de Israel, organizando um golpe para derrubar o governo eleito do Hamás, e que o Hamás conseguira abortar o golpe. Isso não é objeto de discussão: esse fato é estabelecido, documentado e há provas.

A questão passou a ser, então, impedir o Hamás de governar, e ninguém governa sob bloqueio absoluto, bloqueio que desmantelou toda a atividade econômica em Gaza. Ah! Vale lembrar: o bloqueio começou antes de o Hamás chegar ao poder (eleito!). O bloqueio nada tem ou jamais teve a ver com o Hamás. Quanto ao bloqueio, os EUA despacharam gente para lá, James Wolfensohn especificamente, para tentar pôr fim ao bloqueio, depois de Israel ter invadido Gaza.

O xis da questão é que Israel não quer que Gaza progrida, sequer quer que viva, e Israel não quer ver nenhum conflito encaminhado por vias diplomáticas, que tanto os líderes do Hamás em Damasco, quanto os líderes do Hamás em Gaza têm repetidas vezes declarado que buscam, sempre com vistas a resolver o conflito relacionado às fronteiras demarcadas em 1967, fronteiras que Israel jamais respeitou. Tudo, até aí, são fatos registrados e comprovados. Não há qualquer ambigüidade: tudo é bem claro.

Todos os anos, a Assembleia da ONU vota uma resolução intitulada "Solução pacífica para a questão da Palestina". E todos os anos o resultado é o mesmo: o mundo inteiro de um lado; Israel, EUA, alguns atóis dos mares do sul e a Austrália, no lado oposto. Ano passado, o resultado da votação foi 164 a 7. Todos os anos, desde 1989 (em 1989, o resultado foi 151 a 3), é sempre a mesma coisa: o mundo a favor de uma solução pacífica para a questão da Palestina; e EUA, Israel e a ilha-Estado de Dominica, contra.

A Liga Árabe, todos os 22 Estados-membros da Liga Árabe, são favoráveis a uma chamada "Solução dos Dois Estados", com as fronteiras determinadas em junho de 1967. A Autoridade Palestinense é favorável à mesma "Solução dos Dois Estados" e às mesmas fronteiras determinadas em junho de 1967. E o Hamás também é favorável à mesma "Solução dos Dois Estados" e às mesmas fronteiras demarcadas em junho de 1967. O problema é Israel, patrocinado pelos EUA. Esse é o problema.

Bem... Há provas de que o Hamás desejava manter o cessar-fogo; exigiu, como única condição, que Israel levantasse o bloqueio de Gaza. Muito antes de começarem os rojões do Hamás, os palestinenses já enfrentavam terrível crise humanitária, por causa do bloqueio. A ex-Alta Comissária para Direitos Humanos da ONU, Mary Robinson, descreveu o cenário que testemunhou em Gaza como "destruição de uma civilização". Isso, durante o cessar-fogo.

O que se vê nos fatos? Os fatos mostram que nos últimos mais de vinte e tantos anos, toda a comunidade internacional procura um modo de resolver o conflito das fronteiras de 1967, com solução justa para a questão dos refugiados. Será que 164 Estados-membros da ONU estão sempre errados, e certos e pacificistas seriam só EUA, Israel, Nauru, Palau, Micronésia, as ilhas Marshall e a Austrália? Quem é pacifista? Quem trabalha contra a paz?

Há registros e documentos que comprovam que, em todas as questões cruciais discutidas em Camp David; depois, nos parâmetros de Clinton; depois, em Taba, em cada ponto discutido, os palestinenses sempre fizeram concessões. Israel jamais concedeu qualquer coisa. Nada. Os palestinenses repetidas vezes manifestaram decisão de superar a questão das fronteiras de 1967 em estrito respeito à lei internacional.

A lei também é claríssima. Em julho de 2004, a Corte Internacional de Justiça, órgão máximo da ONU para questões de direito internacional, declarou que Israel não tem direito de ocupar nem um metro quadrado da Cisjordânia nem um metro quadrado de Gaza. Israel tampouco tem qualquer direito sobre Jerusalém. O setor Leste de Jerusalém, os bairros árabes, nos termos da decisão da mais alta corte de justiça do planeta, são território da Palestina ocupado ilegalmente por Israel. Também nos termos de decisão da mais alta corte de justiça do planeta, nos termos da lei internacional, todas as colônias de judeus que há na Cisjordânia são ilegais.

O ponto mais importante de tudo isso é que, em todas as ocasiões em que se discutiram essas questões, os palestinenses sempre aceitaram fazer concessões. Fizeram todas as concessões. Israel jamais fez qualquer concessão.

O que tem de acontecer é bem claro. Número um, EUA e Israel têm de se aproximar do consenso da comunidade internacional e têm de respeitar a lei internacional. Não me parece que trivializar a lei internacional seja pequeno crime ou pequeno problema. Se Israel contraria o que dispõe a lei internacional, Israel tem de ser acusada, processada e julgada em tribunais competentes, como qualquer outro Estado, no mundo.

O presidente Obama tem de considerar o que pensa o povo dos EUA. Tem de ser capaz de dizer, com todas as letras, onde está o principal obstáculo para que se chegue a uma solução para a questão da Palestina. O obstáculo não são os palestinenses. O obstáculo é Israel, sempre apoiada pelo governo dos EUA, que, ambos, desrespeitam a lei internacional e contrariam o voto de toda a comunidade internacional.

Hoje, o principal desafio que todos os norte-americanos temos de superar é conseguir ver a verdade, por trás das mentiras.


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Fellpe (18/01/2009 - 07:33)
Você pode fazer direito, fazer bem feito, mandar que façam. Mas se não fizer o bem pelo mundo não fazerá nada.

Barack Obama - A Caminho da Casa Branca - Edição Especial Comemorativa da Revista TIME americana, importada, em inglês, traz a trajetória da Jornada de Obama com os principais textos e fotos do início da campanha até a Vitória de se tornar o presidente dos EUA. formato 20,5×27,5cm - 96 páginas.
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Amilcar (18/01/2009 - 04:02)
Azenha,
não sei o que é pior: o que Israel está fazendo em Gaza ou suas análises, parcialérrimas, ou ainda certoscomentários nada iluminados. Jornalismo engajado, está aqui.

joão sal (15/01/2009 - 09:29)
Altamiro Borges: Repórter da Globo é do exército de Israel?


Uma informação bombástica circula na globosfera: a jornalista Renata Malkes, correspondente da Globo News e do jornal O Globo em Gaza, seria uma sionista militante. A denúncia foi feita pelo blog Cloaca, que monitora as práticas do ''jornalismo esgoto''. Ele vasculhou e descobriu alguns textos da repórter da Globo, postados no seu blog pessoal Balagan - que, curiosamente, já foi deletado. No topo da página, a imagem de um palestino, associado à figura de um terrorista, e a chamada: ''Não lhes dê um estado''. Os textos revelam o mais abjeto preconceito racista.


Por Altamiro Borges



Entre outras sandices, Malkes escreveu: ''Parece piada! Eles querem criar um Estado Palestino independente e ainda entupir Israel com seus milhares de refugiados mortos de fome. Faça-me o favor''. Noutra postagem, considera ''patética'' até uma declaração de FHC favorável à criação do Estado Palestino. ''Tupiniquim tem mais é que cuidar de dengue''.



Ele também ataca o MST, que enviara uma delegação de solidariedade à região, e ridiculariza a Venezuela por ser ''amiga dos brimos''. Vários artigos tratam os árabes e os palestinos como ''burros'' e ''mentirosos''.


O ''sonho'' de ingressar no exército


O Balagan cumpriu um papel tão pernicioso que recebeu do jornal israelense Yediot Aharonot o epíteto de ''warblog'' por sua ''excelência na propaganda sionista''. Cloaca também traz a tona outras duas histó..

Marcia Costa (15/01/2009 - 08:57)
Hoje vi Gaza pegando fogo. Triste também as fotos das ruínas e das pessoas resgantando o que lhes resta. Ontem (14/1/) vi o Secretário de Direitos Humanos da ONU de cabeça baixa falando do estado psicológico das crianças... Esta é política para os excluídos do poder e do dinheiro - extermínio. Se não servem à máquina capitalista de produção, no pensamento deles, melhor exterminá-los. Essa é a crueldade do nosso mundo que só pensa em produzir lucros. Enquanto isso, vaga o espírito humano pela terra em busca de um lugar para descansar...

Gabriela (15/01/2009 - 01:40)
Quem quiser boicotar os produtos de israel, não compre nada com código de barra começando em 729, leia mais no site http://www.bdsmovement.net/?q=node/9

Daniel Carneiro (15/01/2009 - 00:32)
Ao meu ver, os demais países árabes precisam se armar mais para enfrentar o imperialismo norte-americano/sionista.Não haverá paz enquanto não houver equilíbrio de forças, o que é impossível nas atuais circunstâncias. Honestamente, não acredito que o Obama poderá fazer muito, por razões internas e externas.Mas os árabes, a meu juízo, devem aproveitar este eventual intervalo de política externa belicosa norte-americana para se armar. Agora eles devem enxugar as lágrimas, pressionar a ONU para punir Israel pelos crimes de guerra, de lesa humanidade, mas fundamentalmente, se aramar até os dentes. Paciência, mas é a realidade.

Marko (14/01/2009 - 21:27)
Entrevista esclarecedora c/o historiador Judeu Ilan Pappe à respeito da limpeza étnica q caracteriza o Estado Israelense. Detalhe: além d Judeu, Pappe cuja família escapou do holocausto na Alemanha imigrando p/a Palestina foi testemunha ocular daquilo q relata aqui e é tema d livro d sua autoria: http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM944425-7823-SILIO BOCCANERA ENTREVISTA ILAN PAPPE,00.html

E, embora o futuro ninguém possa prever espero q Pappe esteja correto em suas previsões otimistas declaradas no final da entrevista.

olhosdonorte.wordpress.com (14/01/2009 - 19:13)
Artigo bastante esclarecedor que traz à tona um dos itens omitidos pela grande mídia. Israel ocupa a território palestino, militarmente. Esta fora da lei. Este e outros pontos devem ser firmados nesta disputa. (http://olhosdonorte.wordpress.com/2009/01/14/comentarios-a-guerra-de-gaza/) Israel não tem carta branca para fazer o que quiser, a Palestina possui os mesmos direitos, os quais vêm sendo muito mais des-respeitados.

Luiz Henrique (14/01/2009 - 18:54)
Grécia barra saída de armas dos EUA que iam para Israel
da Folha de S. Paulo

O governo grego impediu nesta terça-feira um navio militar americano carregado com 325 contêineres cheios de munições e armas de zarpar do porto de Astakos em direção a Israel, segundo porta-voz de Washington.

"Estamos procurando uma solução alternativa para que o carregamento chegue a seu destino", disse o porta-voz. Ele negou que o navio fosse a Israel para entregar armas ao Exército local, que ataca a faixa de Gaza há 19 dias.

Os EUA são o maior aliado político e o principal fornecedor de armas a Israel.

A Casa Branca alegou que o material embarcado em Astakos estava em uma base da Marinha americana na Grécia e iria para um depósito que os EUA mantêm em Israel.

Segundo o "Jerusalem Post", vários carregamentos militares americanos chegaram de navio a Israel nas semanas que antecederam o início da ofensiva contra Gaza.


Fernando antonio Moreira Marques (14/01/2009 - 17:33)
Acho que a maior mentira que praticam é se apresentarem como exportadores da "democracia" para o mundo (no caso dos EEUU) ou como sendo a única democracia do OM (no caso de Israel)

Só esqueceram de levar em conta a opinião (e o voto) dos moradores do Iraque e da Palestina..

Quando Inglaterra e Sionistas decidiram que a palestina seria o local adequado para abrigar o Lar Nacional Judaico, se esqueceram de perguntar qual a opinião dos moradores da Palestina!!!!! Decidiram e pronto. Bela democracia... Resultado: mais de dois milhões de moradores palestinos desalojados e outros tantos prisioneiros de guetos a céu aberto sendo constantemente massacrados por expedições punitivas.

Quando Bush, com o pretexto mentiroso das armas de destruição em massa, resolveu trocar o ditador iraquiano por outro mais ameno aos americanos, não perguntou o que o povo achava desta aventura. Na verdade sabia que todos eram contra. Respeitou????

É tanta mentira descarada que nem inocente útil engole mais...

carlos anselmo-eng°-fortaleza-ce (14/01/2009 - 17:08)
o artigo vem se juntar, pela importância, à entrevista que o historiador israelense ilan pappe concede a sílio boccanera da globo, disponibilizada no sítio amalgama.blogspot, na qual tece considerações importantíssimas sobre o processo de conquista da palestina pelos sionistas, baseado no seu livro, recem lançado "the ethnic cleansing of palestine".
imperdível, moçada!
abçs

Leider Lincoln (14/01/2009 - 15:48)
Destas provas, acho que nem o Bastos e o Dvorak juntos dão conta...

juçânia de Campos Facchin (14/01/2009 - 13:48)
Que Aula!!!!!Parabéns por colocar a nossa disposição este documento, sim é um documento que deveria ser distribuido pelo mundo inteiro, a exemplo do que faz o exército de Israel qdo lança mensagens aos Palstinos para fugirem(para onde) dos bombardeios. Salvemos a PALESTINA!!!!

Lucas Cardoso (14/01/2009 - 13:30)
A maior parte dos estadunidenses é a favor da paz no Oriente Médio e da solução dos Dois Estados. Mas, infelizmente, para que a vontade do povo se transforme em política do Estado, seria necessária uma democracia.



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