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Cartas de Minas

Alexandra Mello: Querer é poder, custe o que custar, doa a quem doer?

20 de setembro de 2017 às 00h40

Querer é poder?

por Alexandra Mello, especial para o Viomundo

Se fosse, nós, os adultos, usaríamos menos o pretérito “eu queria” e mais o presente “eu quero”, como fazem as crianças.

Elas sim, apropriam-se dos seus desejos, independentemente da possibilidade ou não de satisfazê-los.

Quando uma criança se joga no chão berrando “eu quero, eu quero, eu quero!!!!”, é importante que a gente contenha o ato, mas não reprima o desejo.

Muitas vezes, palavras simples como “eu sei que você quer, não tem problema algum você querer, mas nem sempre pode ter o que quer” parecem mágicas para acalmá-la.

Ainda precisa de um adulto que a contenha com firmeza e que, aos poucos, vá mostrando a ela que aqui fora não é mais pleno como era lá dentro, no útero materno.

Ali sim, querer era poder.

Na verdade, nem ali. Porque era tudo junto. Uma coisa só. Não havia espaço entre uma e outra (desejo e satisfação dele). Não havia falta. E sem falta, não precisa haver desejo.

Quando aquela plenitude é rompida, depois do corte umbilical, o bebê vai levar anos pra entender que querer e poder são distintos. Que não tem mais aquele poder (o substantivo) que tinha lá dentro.

Se nossa reação aos quereres da criança for apenas autoritária e repressora, ela vai crescer sentindo e aprendendo que tudo está sendo reprimido.

Ação e desejo. Que desejos devem ser rejeitados, escondidos, proibidos. Mais pra frente, ela mesma começa a reprimi-los, até que nem apareçam mais, como se não existissem, de tão bem sucedidas que foram as repressões (as externas e depois, as internas).

Mas não aparecer, não significa não existir. É quando surgem os sintomas. É quando desejos reprimidos se transformam em sintomas manifestos. Em neuroses.

Também pode acontecer de ressurgirem com uma força tão grande que nos dá a sensação de que, de novo, querer seja poder.

Se eu quero, eu posso. Custe o que custar. Doa a quem doer. E nesse momento, depois de tantas maneiras encontradas para canalizar os desejos proibidos, seja por meio das neuroses, seja por meio de sintomas físicos, a tendência é procurar um culpado fora que justifique tantos anos de renúncia do querer.

Hora de se rebelar. De buscar tudo de uma só vez, com o apoio incondicional de um mundo cada vez mais movido pelo princípio do prazer.

A meta passa a ser encurtar de novo aquela distância que não havia no útero. Entre desejo e satisfação.

É uma busca frenética por satisfações imediatas. Pela plenitude perdida. Não importa o que a realidade venha a me mostrar. Desafio-a.

E nessa hora, posso ter a ilusão de que estou a caminho do paraíso. Talvez, eu tenha mesmo pego o caminho de volta. Mas certamente, serei barrada na porta. E ficarei ali berrando de novo que eu quero, eu quero, eu quero.

Só que dessa vez, na direção oposta. Tentando voltar e não seguir. Até que a realidade venha de novo nos indicar que viver é se afastar daquela porta e seguir em direção a uma outra.

E no meio do caminho, escolher, entre tantas que se oferecem, quais delas queremos abrir. E conscientes de que seja qual for a escolhida, uma boa parte de prazer (ou de segurança) será renunciada.

Em “O mal-estar da civilização”, Freud dizia que “o homem civilizado trocou um quinhão das suas possibilidades de felicidade por um quinhão de segurança.

E agora, mais de sessenta anos depois, em “O mal-estar da pós-modernidade”, Zygmunt Bauman nos diz:

“você ganha alguma coisa e, em troca, perde alguma outra coisa: a antiga norma mantém-se hoje tão verdadeira quanto o era então.

Só que os ganhos e as perdas mudaram de lugar: os homens e as mulheres pós-modernos trocaram um quinhão de suas possibilidades de segurança por um quinhão de felicidade.

Os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual.

Os mal-estares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais”.

O problema é que nem um nem outro caso garantem a felicidade. Porque apesar de ganhos e perdas terem mudado de lugar, parece que o que Freud disse a respeito da felicidade, lá atrás, continua valendo:

“aquilo a que chamamos ‘felicidade’, no sentido mais estrito, vem da satisfação repentina de necessidades altamente represadas, e por sua natureza é possível apenas como fenômeno episódico. Quando uma situação desejada pelo princípio do prazer tem prosseguimento, isto resulta apenas em um morno bem-estar; somos feitos de modo a poder fruir intensamente só o contraste, muito pouco o estado.”

O desafio é encontrar algum equilíbrio que nos mantenha civilizados e, ao mesmo tempo, nos permita algum grau de bem-estar.

Mas, hoje, este estado é o que se chama de morno. E vida morna é tudo que o homem e a mulher pós-modernos não querem.

 

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