Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
Não dá pra mostrar tudo na tv.
Home Receba as últimas notícias via RSS [ Leia + ] Fale Comigo
Você escreve Utilidades

A LIÇÃO DE ANTÔNIO JOSÉ DA SILVA, O PIAUÍ

Atualizado em 22 de julho de 2008 às 13:16 | Publicado em 21 de julho de 2008 às 10:46

piaui.JPG

por Conceição Oliveira, em seu blog

Hoje, na Avenida Paulista, encontrei o Brasil que admiro e me orgulho. Ele não vestia gravatas. Era formado por jovens, velhos, homens e mulheres, pretos e brancos que se juntaram espontaneamente para lutar por uma Justiça decente e transparente.

De todos os brasis que vi e ouvi no democrático megafone do Movimento dos Sem Mídia, quero falar do Brasil representado pelo "Piauí", um criativo artista de rua. Ele viu nossa 'muvuca', cuja organização começou pela rede, com informes trocados a partir do Edu Guimarães do Cidadania.com. Éramos cerca de 200 internautas que indignados acordamos cedo neste sábado para sair às ruas e protestar contra um certo Gilmar.

Piauí tem uma história de vida rica que se a gente parar para ouvir se enternece, emociona-se e aplaude. Antes de convidá-lo para se juntar à manifestação ouvi suas considerações. Falávamos da Justiça Brasileira, quando uma senhora passante se juntou a nós e perguntou quem era Gilmar (o Dantas ela sabia que era uma bandido rico).

O Gilmar mais conhecido dos brasileiros é o dos Santos Neves, o goleiro que segurava todas, autor de defesas memoráveis na seleção brasileira e que nos garantiu o bi-campeonato nas Copas de 1958 e 1962. Já o Gilmar que nos indigna na atualidade não guarda semelhança alguma com o seu xará espetacular, que nos enchia de orgulho cada vez que defendia a camisa verde-amarela.

Este que nos envergonha é o Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal. Este Gilmar não agarra uma bola, é juiz, mas só entra em campo para jogar contra a camisa. Lá da Corte maior da Justiça Brasileira, na calada da noite, ele dá serão para soltar banqueiros que enriqueceram sugando recursos públicos, corrompendo políticos sem caráter e lavando dinheiro em paraísos fiscais. Este Gilmar, motivo de nossa repulsa, passa por cima de craques como o juiz De Sanctis e o Grandis e só defende aqueles com muito dinheiro, mesmo que amealhado de modo ilícito e criminoso.

Voltemos ao nosso encontro com o Brasil, representado pelo Piauí. Segurávamos, eu, Mamá, Clóvis e outro internauta indignado cartazes com palavras de ordem que nós produzimos ali no vão do Masp enquanto a moçada se organizava. Buscávamos chamar a atenção dos passantes para a nossa manifestação, ampliar o apoio à indignação.

Piauí mora em um bairro pobre da zona Norte, Jardim Vista Alegre, e me contava dos seus inúmeros amigos, pais de família que, por motivos bobos, (como roubar um shampoo, um pote de margarina ou mesmo sem cometer crime algum como o Sandro) mofam nas cadeias de nosso país, enquanto seus filhos são criados soltos nas ruas.

Piauí é um homem negro, bem magro, seu corpo mostra o preparo daqueles que tentam ganhar a vida nas ruas, caminhando longas distâncias de onde vivem para os centros onde buscam vender suas mercadorias. Os fiscais da prefeitura (aqueles mesmo envolvidos em uma máfia que recentemente tomou os noticiários) tomaram todos os seus apretechos de trabalho, porque ele não ganha o suficiente para lhes pagar as proprinas exigidas.

Ele já morou embaixo da ponte e hoje contrariando o senso comum e preconceituoso de que os pobres abandonam seus filhos à própria sorte e não se preocupam com a educação deles (reproduzido por uma classe média alienada que ocupa as instituições privadas e públicas e que não conhece a periferia) participa da associação de Pais e Mestres da Escola República da Colômbia, no Jardim Vista Alegre.

Ele quer fazer a diferença na escola em que sua filha estuda, ele deseja que ela e as crianças do Jardim Vista Alegre tenham garantido o direito de ter acesso à boa educação. Sua contribuição é ensinar às crianças como se expressarem a partir da arte, mas ele quer mais, ele quer que as crianças tenham direito de dançar, cantar, aprender bem o seu idioma e uma língua estrangeira e tudo que lhes dê chance de continuar a batalha da sobrevivência.

Piauí encantou a todos e deveria dar curso à classe média que abriu mão de seu papel cidadão. Uma dada hora ouvi ele dizer a uma advogada encantada: sabe qual é o grande problema? Os seus filhos vão para uma boa escola, crescem, se formam, os meus não. Pode ser que se encontrem em um farol, um dentro do carro e o outro pedindo esmola e um mate o outro.

Pode parecer hardcore a constatação nua e crua de Piauí, mas ela não está longe da verdade. Piauí não apenas vê e sente em sua pele negra os problemas que afetam a comunidade onde vive. Ele busca cotidianamente resistir, ser sujeito de sua história e agir contra a sistemática exclusão destinada a ele e todos os demais Piauí e seus filhos.

Convidei Piauí pra se agregar a nós com o 'troféu' que ele confeccionou para entregar aos representantes corruptos nos Três Poderes.

Foi sobre as desigualdades a tônica do discurso de Piauí que se apropriou do megafone dos Sem Mídia e abriu sua fala dizendo: Vocês sabem por que o Cacciola desceu rindo do avião? Por que ele sabe que vai ficar pouco tempo na cadeia e em cela especial. Eu sou contra as pessoas educadas terem celas especiais. As pessoas educadas, como o juíz Lalau, sabem o que estão fazendo, conhecem a lei, tem informação e formação, seus crimes são, assim, maiores que dos ladrões de galinha. Os mais bem educados tinham obrigação de agir bem. Por que então quando cometem um crime (e raramente são presos) têm acesso à cela especial?

Piauí e todos os brasileiros pobres de nosso país sabem que nossa Justiça é classista no corpo da lei: ela pune duplamente os pobres, os sem instrução superior, os sem equipes de advogados que já ocuparam os altos postos da Corte Suprema como o ex-ministro do STF, Luis Carlos Lopes Madeira, um dos inúmeros advogados de Daniel Dantas.

A Justiça classista brasileira confina os pobres como bichos em jaulas super lotadas, sem condições mínimas de higiene e saúde, sem chance alguma para reabilitação e os esquece para mofarem, 'mortos em vida'.

Já para os Dantas, Nahas, Cacciolas ela é pródiga em benefícios e benesses e, muitas vezes, incapaz de puni-los e devolver aos cofres públicos os recursos lesados por esses bandidos de colarinho branco.

Piauí sabe que a escola de sua filha não tem os recursos que poderia ter, porque existe corrupção e porque os que estão no poder e desejam combatê-la são boicotados, em contra-discursos pautados nas redações para confundir e não informar a população.

Piauí sabe que os mesmos que, há décadas, roubam os cofres públicos em operações complicadas neste país, querem empurrá-lo para marginalidade, mas ele resiste e diz: 'eu não quero ser como eles'. E amplia sua voz no megafone argumentando: se a corrupção existe da forma que existe é porque permitimos, é porque não exercemos nosso poder de cidadania; é porque nos próximos mega showmícios tem gente lá pra aplaudir e eleger aqueles que só conhecem a periferia em época de campanha. Por isso, essa manifestação não pode parar aqui, a gente tem de continuar, ampliar, até sermos ouvidos.

Piauí em nossa festa democrática ensinou a muita gente o que é cidadania, o que é ver e ser visto sem preconceitos, o quanto é importante exercer o direito de se manifestar livre e pacificamente. Ensinou até ao cinegrafista da Globo que, ouvindo a nossa conversa, depois comentou: "Quem olha pra esse cara não dá nada por ele".


Indique esta Matéria
ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Boletim 1428 [BECE-REBIA] Calunias e Difamações (23/07/2008 - 20:09)
Eduardo Guimarães, por divergências de ordem ideológica, estão atacando na sua pessoa o MSM -- Movimento Sem Mídia. Você tem o direito de ser defendido pelo jurídico da ONG, assim como é dever da ONG proteger a imagem da instituição e de todos os que subscreveram o manifesto, principalmente a imagem de seu presidente. Desqualificar as lideranças para enfraquecer as causas e desestabilizar as organizações sociais é uma tática muito comum. Sempre atacam, acusam e ofendem quem está a frente da instituição. Conosco não tem sido diferente. Essa gente se desqualifica perante à opinião pública, pois não têm argumentos. São covardes que se ocultam atrás de pseudônimos. Não têm peito de encarar um debate público, nariz a nariz. São - e serão! -- sombras. Umas almas penadas, praguejando em seus próprios infernos, presos a armadilhas que armaram contra si próprios. É assunto para a polícia. Procure registrar este caso com um Boletim de Ocorrência. O tempo revelará a você as verdadeiras identidades. Amyra El Khalili - Movimento Mulheres pela P@Z! "Aprende a pagar o bem com o bem e o mal com a justiça. Se pagares o mal com o bem, com o que pagarás o bem?" (Confúcio)

JOSE A.LIMA (23/07/2008 - 02:31)
Ô José! Se algum texto neste caso é um malogro, esse texto é o seu. Metido a intelectual, mas todo desconexo, sem eira nem beira. Mostrando que voce apenas acha que está preparado... Pelo contrario, o texto do Piaui está excelente,. Parabens ao Piaui e a Conceição.

José (23/07/2008 - 01:17)
Ei, Azenha, por que não publicaste o que escrevi após o almoço? Andas de conluio com o Gilmar, não querendo divulgar a livre expressão das verdades. Publica, meu nobre, não tem nada de mais chamar atenção e ensinar como faz, aprende-se com os erros. É preferível errar mesmo errando, a nada fazer pelo medo de errar. A fleXa descrita mesmo tendo a grafia errada não perdeu o alvo, não é mesmo meu caro? Foi proposital, veja que outros erraram na dúvida, é uma questão de influência, e tu sabes influenciar Azenha, ajude o pessoal dos sem mídia. Quando falo em ajudar, não é dispor o espaço do teu sítio somente, é orientar no planejamento, articulação, engenho, divulgação no meio jornalístico através de emails, tu sabes meu caro. Se é para ajudar, ajude, inclusive postando os meus comentários. Um abraço.

João Aguiar (22/07/2008 - 16:43)
"Seu" Zé,a imagem que vc usou de que uma porção de flexas não se quebra é a imagem do facismo, facci, feixe de varas, que juntas não se quebram. Tudo bem que vc usou esta imagem por ignorância do seu significado histórico, mas chamar a galera dos sem-mídia de fascista, mesmo sem querer, é uma baita sacanagem, kkk É triste quando nos deparamos com esses combativos mas hermeticamente convencidos que uma porção de flexas não se quebra, ora, todas fora do alforje, sem reciprocidade, são fáceis de dobrar,

Rogerio (22/07/2008 - 12:33)
É Sr. José, se vc estivesse lá, seria mais um na pequena multidão, como escreves bem, pra que ir às ruas??? É melhor ficar em casa e aguardar os acontecimentos como fazem maioria dos brasileiros...

Daci Vieira (22/07/2008 - 12:00)
Falar o que do Piaui, eu estava lá e fiquei pasma com tanta sabedoria em uma pessoa que ao primeiro olhar não nos mostra toda sua sabedoria... um exemplo de cidadão!! A Conceição meus parabéns pelo texto, pela iniciativa de ver em pessoas menos privilegiada a sua esencia e não o seu terno e gravata ou o seu poder aquisitivo. Lamento não ter falado com vc lá no MASP, sei que não faltara oportunidades de nós conhecermos. Já visitei o seu blog e add aos meu favoritos abraços

Manuel Gavidia (22/07/2008 - 10:10)
Do texto um problema me chama a atenção: o tratamento especial à quem tem diploma. Alguem alguma vez tentou derrubar essa lei no congresso ou a contestar no supremo? Quando foi criada a lei, que argumento usaram para justificar esse direito? Se um direito tem que ter como contrapartida um dever, qual seria esse dever?

João Maurício (22/07/2008 - 07:50)
Olha, sem querer sem ranzinza, mas pelo teor do texto, o Sr. Piauí não surpreendeu somente ao cinegrafista da Globo. Afinal, terá sido por acaso que autora do texto - um bom texto, por sinal - o escolheu como personagem símbolo???

Francine (22/07/2008 - 06:41)
Impressionante o que aconteceu com a pífia manifestação de certo indivíduo que lê, mas não entende, mas também o que esperar dessa pequena burguesia, podre, nojenta, que só sabe reproduzir palavras e tão somente palavras da dita "intelectualidade", aí quando se depara com um primor de relato, como de Conceição, o que dizer? Quanto recebeu para escrever tanta besteira?

José (21/07/2008 - 22:17)
Impressionante o que aconteceu com a pífia manifestação, usaram um sujeito esquálido, humilde, sem entendimento e o manipularam, sem saber o que fazia, sequer o esclareceram, ou se esclareceram o fizeram com a pompa de seus primados conhecimentos inalcançáveis. De um mero coadjuvante o transformaram em comediante principal. É triste quando nos deparamos com esses combativos mas hermeticamente convencidos que uma porção de flexas não se quebra, ora, todas fora do alforje, sem reciprocidade, são fáceis de dobrar, como se dobraram a um sujeito que não sabia o que fazia, vez que pelo texto não se reproduziu nada que se pudesse destacar. Esse discurso é ultrapassado e sem repercussão, como deveras aconteceu, nenhuma linha nos noticiários, nenhuma guarida popular, um vexame. Eu pergunto, quanto foi que deram para o Piauí fazer o show de pilhéria, e não me venham me dizer que fora ato de cidadania. O Piauí não merece ser usado como instrumento de manipulação por aqueles que não souberam interagir com a sociedade e alcançar o esprado respeito do povo, um fracassado encontro. É coisa o que fizeram... Não estou critcando o propósito, o assunto sério, que nos afeta a todos, a contestação da espetacularização do despotismo da pena, que ridiculariza o direito e o povo brasileiro, e traz insegurança jurídica e o mascarar sem máscara dos interesse mais espúrios, que corrompe homens e emporcalham instituições sérias, mas ficaram na superficialidade.Sem falar do deplorável texto, um malogro.

Henrique Campos Souza Moura (21/07/2008 - 18:27)
Realmente a hora que o Piaui falou foi uma lição de vida que todo mundo deveria ouvir! Enquanto as pessoas ricas e corruptas continuarem a comandar as ações no Brasil vão continuar a livrar seus comparsas dos crimes que cometem.. A população não pode mesmo se calar! Sábado foi realmente muito bom ouvir pessoas comuns indignadas e exercendo a democracia da forma que deve sempre ocorrer!! O texto ficou ótimo Azenha...

Guilherme Silva Araújo (21/07/2008 - 17:28)
Existem sangrias piores que a corrupção e que nos tiram a dignidade. Basta ver que enquanto se estima que a corrupção nos sangre em R$40 bi, os especuladores do mercado financeiro, através de atividades legais e imorais, se abocanharam de R$ 180 bi (dados de 2006). Enquanto Dantas, com a complascência das inatâncias de justiça que ele diz ter "facilidades", vai abocanhar US$ 1 bi, Warren Buffet, sem contribuir em nada para a geração de riqueza em nosso país, abocanhou em 6 anos US$ 40 bi achacando legalmente nossos recursos. Sem desprezar a corrupção, mas porque não dar mais foco a este achaque?

Eduardo Patriota Gusmão Soares (21/07/2008 - 14:48)
Vale lembrar o final do discurso do Piauí: "E sabe por que estes políticos estão aí roubando? Porque 'nóis' deixa". Realmente. A reduzida quantidade de pessoas para protestar contra a parte corrupta do sistema, como foi no MASP, mostra que sim... nós deixamos.

Eduardo Guimarães (21/07/2008 - 12:34)
Beleza esse texto da conceição. Reproduz exatamente o que aconteceu. O homem, apesar da aparência - que induz muita gente a erro -,sabia exatamente contra o que protestar. Além dele, mais alguns "desvalidos" abordaram-em exatamente no momento em que eu lia o manifesto ao megafone. Veio uma moça negra, aparentemente alcoolizada, com jeito de moradora de rua que, igualmente ao piauí, sabia que havia que protestar contra o Estado, porém não sabia por que. Ela ocupou também o megafone e foi aplaudida. E vieram, ainda, uma idosa praticamente arrastando um rapaz que, como minha filha, tem paralisia cerebral. Achou que eu era político e veio pedir alguma ajuda. O rapaz é maior do que a mulher, que parecia ter por volta de seus setenta anos, boca desdentada, franzina... Ela carrega o rapaz daqui para lá e de lá para cá, sem Estado, sem sociedade, sem ninguém, contou-me depois quando, na falta de o pessoal atender meu pedido para dar uma "ajudinha" a ela, fui lá cumprir o que prometi para que me deixasse fazer meu discurso. Aquela situação me deixou um gosto amargo na boca. Eu comprei o silêncio da mulher com 20 reais, mas não comprei tranquilidade. Fui para casa pensando no que eu deveria ter feito para ajudar uma mulher que enfrenta o mesmo problema que eu com um filho, porém sem nem um por cento dos meus recursos. Mas a manifestação foi um sucesso, a Conceição é uma simpatia, grande redatora e tem uma filha que é uma graça. Beijo, Conceição. O link para seu blog está lá no meu

Stella (21/07/2008 - 12:19)
Beleza de texto Conceição!! Parabéns a você e ao Piauí que apesar de apanhar tanto da vida não perdeu a ternura!! Abraço carinhoso!!

joão paulo (21/07/2008 - 11:31)
Sabem porque o Piauí sabe claramente quais os problemas da nossa população e por onde as soluções? Elementar, meu caro Watson, por não estar submetido ao massacre diário da rede roubo e do PIG!



Comente este Texto
Email: viomundoteve@msn.com Receba o conteúdo do site via RSS developed by: webmasters online design by: kallore design