
Atualizado em 18 de junho de 2009 às 16:45 | Publicado em 18 de junho de 2009 às 13:35
A história iraniana não caminha em linha reta
Preservar a Revolução
por Afshin Rattansi, em Counterpunch
Tradução: Caia Fittipaldi
A BBC está convertida em perfeito barômetro, tanto quanto a maioria dos noticiários ocidentais, no que tenha a ver com notícias do mundo: basta interpretar as notícias ao contrário.
Todos os noticiários de televisão nos EUA chamaram de "bem-vindo retorno à democracia" o golpe de Estado orquestrado pelos EUA contra Hugo Chávez, presidente eleito da Venezuela; felizmente, o golpe teve vida curta. Depois que o partido Trabalhista extirpou a coluna vertebral da BBC, a rede passou a pregar, diariamente, irrestrito apoio à parte inglesa do complexo industrial-militar norte-americano – que já custou milhões de vidas humanas no Oriente Médio.
Hoje, é muito fácil saber de que lado está a BBC, no que tenha a ver com a República Islâmica do Irã. O candidato da BBC é privatista, pró-'mercado', por mais totalmente desconhecido que seja o candidato; simultaneamente, a BBC faz oposição a um presidente internacionalmente conhecido, populista, assistencialista que crê em caridade e no iminente retorno de um Imam que se mantém longe dos holofotes.
No estreito espaço público iraniano, que é tão labiríntico, que só o traçado das ruas determina os fluxos de multidões, a mídia corporativa crê que os eleitores só tenham duas vias de escolha. Ou você crê em um Vladimir Nabokov superinflado e apoia o FMI... ou você crê que o destino humano é predeterminado e não há resistência possível.
Muitos jornalistas aprenderam o que sabem sobre Teerã num romance best-seller orientalista, “Reading Lolita in Tehran” [Lendo Lolita em Teeran[1]]. A maioria vive de repetir informes de enciclopédia sobre a família de Mousavi, que seria família "de intelectuais".
A verdade é que os revolucionários modernizantes que enfrentaram e derrotaram um ditador apoiado pelos EUA em 1979 ficaram mais velhos e mais sábios. Aquela geração não apostará seu prestígio num candidato derrotado, Mir-Hossein Mousavi, boneco de ventríloco de um dos empresários mais bem-sucedidos do Irã, o neoliberal Aiatolá Rafsanjani.
Em 1979, o povo lutou por uma revolução que seria depois habilidosamente administrada por um comissariado brilhante. Os que lutaram por mudanças em 1979 não apoiarão uma oposição, em 2009, sobre a qual nada se sabe; dentre outros motivos porque há muitos que lamentam já ter cometido esse erro... em 1979.
Dessa vez, os pobres estão com Máhmude Ahmadinejad e as classes médias estão rachadas. O Aiatolá Khamenei e o Conselho dos Guardiães deliberam, nesse momento, sobre quem será encarregado de manifestar o discurso da revolução iraniana e, também, sobre quem será o melhor negociador possível, consideradas as novas nuvens do novo governo em Washington.
Não se deve esquecer que o Aiatolá Khamenei não é o Líder Supremo – e jornalista que escreva que é, noticia, primeiro, a própria ignorância.
No que tenha a ver com política externa, é relativamente bem claro que o Conselho dos Guardiães deseja que o Irã chegue às negociações numa posição de poder. O presidente Ahmadinejad desempenhou brilhantemente a função de expressão do Irã, viajando pelo planeta, fazendo tremer de medo todos os apoiadores da hegemonia dos EUA no planeta. Vantagem extra é que, quando o presidente Ahmadinejad erra ou se excede... o povo o culpa pessoalmente; ninguém culpa o verdadeiro líder político iraniano.
Não há nem o que discutir: em nenhum caso, seja qual for o eleito, haverá qualquer modificação no programa nuclear da República Islâmica. O programa nuclear satisfaz todos os grupos, exceto uns poucos intelectuais que só falam de energia solar. Como já se disse, um programa de energia nuclear faz salivar os corruptos mais ricos, já antegozando a perspectiva de nadar em lucros ainda maiores da exportação de petróleo. As usinas nucleares fornecerão energia para uso local e doméstico; e sobrará petróleo a ser exportado, para gerar dólares fora do Iran. Quanto ao restante da sociedade civil, a energia nuclear é motivo de orgulho nacional e abre caminho para criar algum tipo de arma nuclear, que será útil quando Israel e suas ogivas atômicas afinal partirem, das ameaças, ao ataque.
No campo da política econômica, a crise das finanças internacionais não parece ser o momento ideal para meter-se outra vez em pára-Reaganomias Tatcheristas. O "Expediency Council"[2]conhece todos os mantras da escola de negócios de Mousavi – que comanda uma falange de teeraneses do norte, de classe média, com MBAs obtidos no ocidente, gente que em nenhum caso receberá a incumbência de pilotar o futuro do Iran. O povo do Iran sabe reconhecer a veracidade das acusações de corrupção que Máhmude Ahmadinejad pôs sobre a mesa, nos furiosos debates eleitorais pela televisão, os primeiros da história do Iran.
Há no Irã uma classe de industriais – o Irã abriga o maior parque industrial de produção de veículos do Oriente Médio – e os sindicatos são cada vez mais ativos, no trabalho de agitar as fábricas da República Islâmica. Redes complexas mantêm em equilíbrio a oposição desses grandes industriais. O Expediency Council tem de ser extremamente cauteloso, porque a ninguém interessa romper esse equilíbrio, já bastante pressionado por movimentos grevistas, com sindicatos cada vez mais nervosos ante as ameaças de recessão que pairam sobre o planeta.
Os membros da pequena-burguesia e da elite iraniana, a classe dos Bazaari – cuja atuação foi determinante para delinear os rumos do país antes e depois de 1979 – não admitirão nenhum tipo de revolução nas políticas de impostos. O presidente Ahmadinejad bem que tentou, mas foi imediatamente contido. A falange dos MBAs pró Mossavi ativamente encorajará as loucuras de praxe da 'globalização' e enfrentarão a oposição de vários poderosos Bazaaris que querem mercado fechado, nunca mercados abertos.
Os subalternos do interior do país e das periferias urbanas estão tão longe dos debates metropolitanos que se travam em cidades como Shiraz e Isfahan, que se pode dizer que só se preocupam com suas questões locais, com as quais Ahmadinejad foi o primeiro a preocupar-se (vez ou outra). Assim se explica por que um iraniano Azeri, como Mousavi, perdeu as eleições também nas províncias onde predomina a etnia Azeri.
Mousavi na presidência significaria também grandes e repetidos levantes e protestos durante todo o seu mandato, por causa da importante votação que receberam, nas eleições parlamentares do ano passado, vários candidatos "anti-reformistas". O "Expediency Council" deseja conservar o seu poder constitucional e não prevê que possa ser muito estável um parlamento que viva em confronto tão direto com a presidência. Em todos os casos, o mais decisivamente importante é salvaguardar o poder político dos clérigos.
O Conselho tem trabalhado e continuará a trabalhar para promover a soberania do Estado iraniano, mesmo que isso implique que o Iran não importe a tecnologia necessária para explorar as enormes reservas nacionais de gás e petróleo. Esse é um sacrifício gigantesco. Só poderá ser atenuado se Washington e Wall Street atenuarem as sanções ainda vigentes contra o Iran.
O primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, manifestou preocupação com os atuais eventos no Irã, em termos ainda mais bushistas que se viessem do próprio Bush. Anunciou a formação de comissão secreta para investigar a participação dos ingleses no Iraque, que deverá apresentar suas conclusões depois das próximas eleições gerais na Inglaterra. As palavras de Brown e de outros líderes ocidentais cujos nomes são vistos como sinônimos da ganância imperial, só fazem unir cada vez mais os iranianos sob sua própria bandeira.
O presidente Obama foi muito mais habilidoso, entendendo bem o efeito que suas palavras teriam em Teerã. Uma palavra mal pensada, de um oficial do Departamento de Estado, produzirá reações e manifestações gigantescas de união nacional no Irã, contra qualquer intervenção. Demitir Dennis Ross da função de enviado dos EUA ao Irã será um grande passo na direção de construir melhores relações entre EUA e Irã, em governo de Ahmadinejad.
Muitos talvez estejam sentindo a pressão genuína, apaixonada, da burguesia iraniana que aspira a liberdades liberais. Mas, como já aconteceu outras vezes, a história iraniana não andará em linha reta.
Eleições – como tantos jornalistas parecem ainda não ter entendido – são disputa política, não são questões de Riso (ou chororô) no Escuro[3].
NOTAS
[1]Ver n. 2, adiante, para entender a referência irônica a jornalistas que fizeram campanha a favor de Mossavi.
[2]Sobre isso, ver http://www.iranonline.com/iran/iran-info/Government/Expediency.html: O "Expediency Discernment Council of the System (EDCS)" foi criado em 6/2/1988, por decisão do Aiatolá Ruhollah Khomeini, com a função de conciliar divergências que surjam entre a Assembléia Islâmica Consultiva e o Conselho dos Guardiães (ou dos Sábios, ou dos Anciãos. No endereço acima encontram-se traduções para todas essas expressões).
[3]Referência a outro romance de Nabokov, anterior a Lolita (sobre o livro, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Laughter_in_the_Dark; sobre edição brasileira desse romance ("Riso no Escuro", 1998, São Paulo: Companhia das Letras), há matéria em http://biblioteca.folha.com.br/1/01/1998111401.html.
Nesse ponto do artigo, o autor faz uma referência crítica a outra jornalista, que fez campanha a favor de Mossavi, autora de "Ler Lolita em Teeran". Sobre essa jornalista, não por acaso, há matéria em UOL News, traduzida do New York Times de hoje, em http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2009/06/16/ult574u9438.jhtm
* Afshin Rattansié jornalista. Escreve para BBC Today, CNN International, Bloomberg News, Al Jazeera
Arabic, Dubai Business Channel, PressTV e The Guardian. Desde 2008, vive no Iran.
O artigo original, em inglês, pode ser lido aqui.
Jornalismo é isso, o resto é papel higiênico usado. Parabéns, Azenha, por publicar um artigo tão esclarecedor.