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A FLORESTA E O HOMEM DA FLORESTA

Atualizado em 19 de maio de 2008 às 18:12 | Publicado em 19 de maio de 2008 às 18:09

por George Felipe de Lima Dantas*
 
A existência de boa parte da região amazônica em território brasileiro certamente centraliza e intensifica a questão ecológica em nosso país. Padecemos historicamente da falta de políticas públicas claramente estabelecidas para essa região, local que hoje é o foco da atenção do resto do mundo sobre o Brasil. Uma das conseqüências de tal situação é a nossa permanente vulnerabilidade política, diante de movimentos internacionais de preservação ecológica, "watchdogs" (cães de guarda) sempre prontos a denunciar supostas crises da política conjuntural brasileira com impacto na hiléia, tanto em relação à exploração dos seus recursos naturais, quanto vis-à-vis problemas decorrentes do contato entre ´civilizados´ e grupos étnicos nativos.



Temos respondido positivamente, de alguma forma, aos anseios nacionais e internacionais em relação à preservação da amazônia brasileira, mas importantes questões, ainda invisíveis aos olhos da nação, continuam tragicamente negligenciadas. Se os princípios norteadores das políticas públicas nacionais para a Amazônia devem lidar com a dificuldade do trato de problemas complexos e dinâmicos (e até mesmo pouco conhecidos...) em relação à exploração dos formidáveis recursos naturais da região, não se pode dizer o mesmo em relação aos grupos étnicos lá existentes. Preservar os ´povos da floresta,´ ou promover sua aculturação, representa conceitualmente uma dicotomia bastante conhecida dos brasileiros, com sobejos precedentes históricos. Vale relembrar o enorme desastre ocorrido em tempos coloniais, época que marca o início do desaparecimento de vários grupos nativos após seus primeiros contatos com os colonizadores europeus.


Atualmente sabe-se da vulnerabilidade imunológica dos povos nativos em geral, realidade de conseqüências trágicas ao longo da história, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Uma vez expostas a doenças infecto-contagiosas trazidas ao seu meio ambiente por não-nativos, essas populações estão fadadas ao desaparecimento.


É sabido hoje que o conhecimento de boa parte das riquezas amazônicas está profundamente assimilado na cultura de seus povos nativos, remetendo a questão de sua exploração racional e econômica ao respeito e conservação do patrimônio ´étno-botânico´ dos povos da floresta. Tal conceito associa as riquezas locais ao conhecimento acumulado pelas culturas ancestrais da região, fazendo com que flora, fauna e cultura estejam intimamente ligados nessa relação sinérgica de conhecimento, respeito, uso e conservação. Mas se a preservação física e tangível dos ´povos da floresta´ é uma questão de caráter natural, imunológico e médico, sua preservação ´enquanto cultura´ possui um forte componente político, muito mais controlável e ameno à intervenção do Estado. Preservação cultural, em linguagem leiga, implica dar condições às populações indígenas de seguirem com seu próprio modo de vida, baseado em crenças e costumes milenares de seus ancestrais. Na base de tudo isso estaria a própria ´visão cósmica´ desses grupos, seus ´mitos teológicos´ inclusive.


É tocante a constatação de que a cosmologia Yanomame (ou Yanomamo) faça com que eles se auto percebam como ´o povo´ (tradução da expressão "Yanomame"). Acreditam viver num lugar da Terra que, literalmente, "caiu do céu," de acordo com aquela mesma visão cósmica... Assim como judeus e cristãos, budistas, islâmicos ou outro grupo religioso qualquer, os indígenas do que hoje é o Brasil possuem suas próprias divindades e as cultuam como vários outros povos...


Estudando o mito teológico de diferentes povos, o renomado antropólogo norte-americano Joseph Campbell [The Hero With a Thousand Faces (1973)] sublinha a importância desse conceito no referencial de diversos grupos, funcionando como um elemento básico de conservação cultural. É impossível proteger os nativos do Brasil, em sua expressão cultural única e singular, ao mesmo tempo que permitindo a destruição sistemática de seus valores culturais por "missionários profissionais" "novos cruzados" da era moderna.
 

Sob a alegação de conduzirem programas de ´caridade amazônica,´ algumas autoridades ainda permitem que grupos estrangeiros, ou mesmo brasileiros, promovam o endoutrinamento religioso de povos nativos da Amazônia, o que corresponde invariavelmente ao ´desmonte´ da identidade cultural de tais etnias. Em troca de alguns poucos medicamentos da cultura ocidental e eventuais cuidados médicos, bens e serviços que os indígenas brasileiros nunca esperaram ter, se permite que esses ´cruzados da era moderna´ terminem por tirar deles tudo que sempre tiveram e esperavam continuar tendo para sempre: sua cultura milenar. Em seguida, os nativos que logram sobreviver a esse verdadeiro etnocídio, vão juntar-se às hordas de brasileiros urbanos excluídos, passando a ser vitimas das mesmas ´enfermidades sociais´ de não-nativos: pobreza, violência e crime, prostituição, alcoolismo, desemprego, etc.. Como nativos, deixam de ter tudo aquilo que sempre tiveram, para serem convertidos numa subclasse de ´civilizados,´ senhores de quase nada do que nunca pretenderam ter.


A contra-partida disso é uma idéia equivocada de altruísmo e de dever cumprido. Alguns pseudo-messias pós-modernos, com uma agenda etnocêntrica da Europa e América do Norte (e até mesmo do próprio Brasil!), continuam a reeditar, no Brasil de hoje, o referencial de miséria estabelecido séculos atrás nas Américas, Ásia e África. É urgente a necessidade de conceber a Amazônia, em suas imensas possibilidades econômicas, como um amálgama de componentes indissociáveis e que inclui, necessariamente, o natural e o cultural: a floresta e o homem.
 


*do Núcleo de Estudos em Defesa, Segurança e Ordem Pública (NEDOP) da Universidade de Brasília


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Luiz Domingos de Luna (07/06/2008 - 16:51)
Alma de Cupim

Luiz Domingos de Luna
www.revistaaurora.com.


Adora a existência
Contempla o natural
O espaço sideral
Inteligência da potência


Muda a paisagem
Destrói a natureza
Maltrata a beleza
Em qualquer passagem

Dialética humana
Constrói o artificial
Dizima o natural
Da fumaça que emana

A construção de desertos
Na alma impregnada
Não pode sobrar nada
Em campos abertos

Qualquer jardim
Deve ser venerado
Aplaudido e aclamado
Querendo o seu fim

Luta demente
Não tem beleza
Não tem natureza
Não tem jasmim

Jardim da humanidade
Todos têm direito
Qual foi o defeito
Todos defendiam
Todos aplaudiam
Não tem mais jardim
Não tem mais culpado
O tempo rolado
Num mundo sem fim
Corpo humano
Alma de cupim.



Luiz Domingos de Luna (20/05/2008 - 14:21)
Diante do descaso com o meio ambiente, e por extensão para com o planeta terra, onde o poder de consumo dos seres humanos está acima da lógica existencial, "O homem como o grande construtor de desertos" e já disponível em literatura todo um "alertai" sobre as conseqüências desta agressão gratuita a biosfera, é que, disponibilizo o poema Planeta que Chora, para que, quem sabe? Esta forma de grito em defesa do meio ambiente possa ecoar nos mais diferentes recantos da bola, no momento azulada, mas que em breves dias ficará da cor agressão - poeira" marrom", Praza Deus que, caro leitor, esta simples mensagem possa ser uma gota de otimismo no oceano da humanidade e um grão de areia no novo edifico que teremos que construir para a nossa sobrevivência, a consciência de que ainda não temos um novo planeta para destruir e/ ou / preservar o velho habitat terrestre ou seremos expulsos, pois a natureza, não dá saltos, nem nós humanos podemos, saltar para trás.PLANETA QUE CHORA. LUIZ DOMINGOS DE LUNA Reflito sobre a vida, sobre o mundo rotativo, do universo exuberante, da beleza do ser pensante,do mundo mágico criativo. É o solo, é a existência roída, de um planeta que chora, exaurido.De uma fumaça de gás cumprimido.De um berço que faz sentido.De uma paisagem destruída que teimo em desfrutar, a reta um ponto vai ficar, o fim, o começo a externar. O espaço a gritar. O ambiente somente? A água. A selva? O mar ?E nós humanos ?O planeta chora, A inteligência ignora? Onde iremos morar? Sem terra, sem piso, sem ar sem fogo, sem água, sem mar?Por que a poluição ?O farelo da destruição O lixo cultural ?O rio é um esgoto, O mar está morto. O ar é aborto de quem quer abortar,assim, volto ao pó. Não tem reciclagem é uma viagem, mas viajo só? Luiz Domingos de Luna, Mestre de Ordem, Ordem Santa Cruz - Penitentes- forania de Aurora no estado do Ceará, aos 20 dias do mês de maio,2008-05-20Email:deuteronomioarte@ig.com.br
URL: http: revistaaurora.com

(20/05/2008 - 09:34)
Deveríamos tirar os sapatos cada vez que entramos na Amazônia. Enquanto isso não acontecer, o modelo atual se perpetua.

Carlos Barbosa (19/05/2008 - 19:47)
Aos homens da floresta... Todo o respeito!

Conceição Oliveira (19/05/2008 - 19:19)
"É urgente a necessidade de conceber a Amazônia, em suas imensas possibilidades econômicas, como um amálgama de componentes indissociáveis e que inclui, necessariamente, o natural e o cultural: a floresta e o homem".

Perfeito e não há como manter vivas essas culturas roubando-lhe as terras ou confinando as aldeias em pequenos lotes e ao redor soja, arroz, exploração mineral, destruindo nascentes de Rio, desmatando, acabando com a possibilidade de caça e coleta e/ou simplesmente matando-os como a invasão da 'civilização' levando as epidemias ou evangelização.
Falta a nós 'ditos civilizados' um pouco de civilidade, uma inteligência empática capaz de enxergar a alteridade sem estranheza e intolerância.



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