Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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TIVE RAIVA DE BAURU

Atualizado e Publicado em 29 de março de 2008 às 07:32

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É sempre a mesma coisa. Deixamos para segunda-feira projetos adiados durante todo o ano. É como se a vida começasse de novo. Hábitos antigos costumam ser mais fortes que nossa vontade. Depois do Carnaval, voltamos a ser os mesmos. Algumas pessoas são diferentes. Não sei se é herança genética ou educação de berço. Eu estive diante de algumas delas. Parecem ter uma energia especial, uma força inexplicável.

Mikhail Gorbatchev, por exemplo. Quando o encontrei era o líder supremo da agora extinta União Soviética. Fiquei diante de Gorby – como era conhecido no Ocidente – dentro do Kremlin, em Moscou. Arranquei dele algumas respostas, numa rápida entrevista. Quando o papo acabou, eu pouco me lembrava do conteúdo da conversa. O que me impressionara era o magnetismo, a força de Gorbatchev. Se ele fosse um vendedor de carros usados, teria me empurrado facilmente um Lada – o extinto carro popular russo que não valia nada.

Outra pessoa que me deixou embasbacado foi a atriz Isabella Rosselini. Foi no relançamento do filme Casablanca, em Nova York. Juro que não foi pela beleza. Da atriz emanava alguma energia cósmica, que me fez sair dali e ir direto para uma livraria, comprar os livros escritos por ela sobre os pais – é filha do diretor de cinema italiano Roberto Rosselini e da lindíssima Ingrid Bergman.

Que o Émerson Fittipaldi, o grande campeão de automobilismo, não me leia. Pelos padrões convencionais de beleza, ele não é exatamente um cara bonito.
Talvez seja a autoconfiança, a segurança e a determinação que o tornem tão carismático. Trabalhei como repórter para uma empresa montada pelo piloto.
Acompanhei de perto alguns anos de vida dos Fittipaldi. Émerson chegava a qualquer lugar e logo dominava o ambiente. É energia pura.

Vejam só como minhas resoluções de Ano Novo são frágeis. Ainda estamos em 2005 quando escrevo a primeira crônica de 2006. Quando sentei diante do computador, tinha tomado a decisão de tratar de assuntos mais sérios e relevantes neste espaço tão nobre do jornal. Eu pretendia dizer que é um absurdo que Bauru simplesmente abandone o Bauru Atlético Clube, de tantas memórias. Passei por perto do BAC, dia desses. Tudo fechado.

Lugar de tantas alegrias, hoje assombrado. Ia lembrar, nessa crônica, que um dia, no Rio de Janeiro, fiz o caminho turístico de Machado de Assis. Era o único brasileiro no grupo. Os outros eram europeus e americanos. O guia da excursão, paga, nos mostrou os lugares onde Machado viveu e sobre os quais havia escrito. Naquele dia, caiu a ficha: parece que os gringos dão mais valor aos gênios brasileiros do que nós mesmos. Sofremos, como dizia Nélson Rodrigues, da síndrome dos vira-lata.

Incrivelmente, ainda não temos noção do que vai representar, um dia, o nome de Pelé na história do esporte mundial. Quando a gente se der conta, no lugar onde jogou Pelé, em Bauru, estaremos saboreando um BigMac. Quando comecei a escrever esse texto, eu também pretendia propor o tombamento do prédio da Noroeste do Brasil.

O que a nós, bauruenses, parece apenas o fantasma de uma empresa falida, foi um dos projetos mais importantes na história da expansão territorial do Brasil. Quando a gente se der conta, naquele lindo prédio da NOB – diante do qual, segundo consta, Pelé menino engraxava sapatos – surgirá outro shopping center. Nessa coluna eu pretendia sugerir aos bauruenses uma visita a São José do Rio Preto, onde um antigo galpão industrial foi transformado num centro de lazer e cultura.

Ia sugerir que visitassem a estação da Luz, em São Paulo, que foi restaurada e se transformou numa linda homenagem ao passado da cidade e do Brasil.
Ao entrar nela, a sensação é boa: faz mais sentido o presente quando conhecemos nossa origem. Fica até mais fácil descobrir caminhos para o futuro.
É muita pretensão de minha parte. Eu também havia pensado em escrever que os bauruenses deveriam visitar Campo Grande, em Mato Grosso do Sul.

Lá, o prefeito reservou uma enorme área verde, bem no centro da cidade, e aos poucos vai transformando o lugar no Ibirapuera ou Central Park da cidade.
É lindo e aconchegante. Mas aí, de repente, fui tomado por uma preguiça de Macunaíma. Resolvi escrever sobre gente carismática, dinâmica, determinada.
E só agora, depois de muito pensar, achei um jeito de desejar Feliz 2006 ligando assuntos tão diversos. Bauru deve ter dezenas, centenas, talvez milhares de empreendedores que estejam decididos a melhorar ainda mais a cidade. Por exemplo, deixando que os shopping centers contruam seus próprios prédios.

Gente que coloque o interesse público acima de tudo. Gente que não queira ser lembrada apenas por que passou a vida ganhando dinheiro ou eleições.
Gente que reconheça que Bauru vai crescer, sim, cada vez mais, até que um dia não haverá espaço para implantar uma área verde de verdade, com pista de bicicleta, lugar para exercício, para as mães passearem com os filhos – um lugar que faça, no futuro, o papel que a praça da Matriz fez no passado.

Caso contrário, a gente se encontra por aí, em algum corredor de shopping center. Ai, que preguiça...

Texto reproduzido pelo jornal Bom Dia Bauru no dia primeiro de janeiro de 2006


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
francine rosa (22/08/2008 - 11:12)
nasci em Bauru, mas não morro aqui....cidade feia, suja, fedida, abandonada, de gente arrogante...é, também sou bauruense. Me sinto a cada dia mais emburrecida por detonar meu carro em buracos, ter que explicar a "sinopse" de um livro técnico, que os vendedores não conhecem (livros tão raros como uma CLT)...pois é. Logo me formo e sumo daqui. Dizer em Campo Grande que se é Bauruense?rs..nunca mais. Já passei por isso em diversas viagens, e quando era mais nova, até suportava a "tiração de sarro". Chega. Como diz meu marido: isso aqui foi feito dentro de um buraco; só falta encher de terra". PS: hoje tem um mercado no lugar do BAC. Eu nadei lá, fiz "jazz", alguns colegas jogaram vôlei (timão!). É. Essa é nossa história. Um grande buraco.

Pedro Arruda (23/06/2008 - 12:27)
Também fiquei com raiva de Bauru... Lamentável, mas verdadeiro.



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