Atualizado em 02 de março de 2008 às 08:27 | Publicado em 02 de março de 2008 às 08:27
State of denial é um estado de espírito. Vou usar uma metáfora futebolística para explicar: o Santos perde para o São Paulo por 5 a 0 na primeira partida decisiva do Campeonato Brasileiro. Na segunda, perde por 6 a 0. Aí eu saio do Morumbi culpando o juiz. O presidente do Santos culpa o gandula. E a torcida do Santos culpa a torcida do São Paulo. Tudo fica exatamente como está.
O casal Clinton está hoje em state of denial. Ou seja, ainda não caiu a ficha de que a campanha de Hillary Clinton, inclusive a candidata, e o ex-presidente perderam o pulso do eleitorado americano. Simples assim. O senador Barack Obama descobriu que poderia entusiasmar os jovens com um discurso que prega mudança e esperança. O que faz a turma de Clinton? Culpa a mídia, por exemplo.
Faz muito tempo que não assisto televisão consistentemente no Brasil, ou seja, várias horas em vários dias. Tenho outros afazeres. Eu me informo basicamente pela internet. E, pelo que leio na FolhaOnline, a TV Record anda incomodando a Globo, especialmente aos domingos e, durante a semana, de manhã.
Conheço um pouquinho da cultura da Globo. Dizem que os repórteres de televisão se dividem entre aqueles que acham que são deuses e os que tem certeza. Na Globo todo chefe é gênio. E o falso gênio, se você já teve a oportunidade de conviver com algum, carrega um ego desproporcional ao corpo. Hoje eu entendo melhor o que levou os grandes estúdios de cinema e as emissoras de TV a construir aqueles estúdios que parecem verdadeiros hangares. É para acomodar egos enormes em um mesmo lugar.
O problema começa quando a genialidade não combina com a audiência. Aí a emissora entra em state of denial. Fica um jogando a batata no colo do outro. O gênio culpa o chefe, que culpa o sub-chefe, que culpa o subordinado, que culpa o sub-subordinado. Aí eles se reúnem e demitem o faxineiro, que é terceirizado.
Ninguém imagina, por um segundo sequer, que a empresa pode ter perdido o pulso da audiência, feito aconteceu com o casal Clinton aqui nos Estados Unidos. A Globo não é uma empresa que convida à inovação. A emissora tem uma estrutura muito cara, que não sobreviveria a uma perda consistente da fatia que detém do mercado publicitário.
Por isso, os funcionários não são incentivados a inovar. Pelo contrário, ninguém quer mudar nada, com medo de perder o emprego. Criticar? Deus me livre. Quem critica é visto como ameaça, é satanizado, "não veste a camisa", é ranzinza, coisas do gênero.
Existe um sistema de incentivo financeiro interno que convida à letargia. Os chefes querem economizar para atingir as metas de orçamento das quais dependem a remuneração e as promoções que recebem. A Globo não incentiva seus funcionários a assistir outras emissoras ou a fazer autocrítica. Crítica interna é vista como deslealdade. É nesse caldo de cultura que os medíocres sobem na hierarquia e se agarram aos seus cargos. Dependem do compadrio e não da própria capacidade para sobreviver.
Vocês se lembram do Bozó, aquele personagem criado pelo Chico Anísio? É mais ou menos aquilo, tirando o crachá. O crachá é impresso no cérebro de algumas pessoas. De algumas. Da minoria. A maioria faz que acredita no universo paralelo, mas assim que chega em casa morre de rir das situações bizarras que vive na empresa. Não é diferente em outras empresas do ramo, mas na Globo algumas pessoas se levam muito a sério, como se a Globo fosse o mundo e o mundo fosse a Globo. O Brasil mudou muito. Mudou muito rápido. E quem não acompanha as mudanças perde o pulso. Quem fica na ponte aérea Rio-São Paulo perde o pulso. Quem não vai mais à periferia de São Paulo perde o pulso. Quem não sobe o morro perde o pulso. Quem não manda repórter viajar perde o pulso. Quem não ouve repórter perde o pulso.
Recentemente, recebi duas mensagens através deste site. Uma veio de um telespectador que reclamou de uma reportagem da Globo sobre o aumento do IOF. Ele disse que ficou com raiva porque a reportagem dizia que um consumidor tinha desistido de fazer uma compra por causa do aumento do IOF. O autor da mensagem achou a situação artificial. Teria sido por causa de um daqueles personagens que o Jornalismo da Globo arranja? Eles perguntam ANTES para o personagem: você pensa isso? Ok, então temos interesse em ouví-lo: o personagem se encaixa na reportagem que se pretende fazer.
Ou seja, a "tese" da reportagem está pronta antes mesmo da equipe ir à rua. É lógico que isso não vale para todos os telejornais e todos os repórteres. Mas esse é o modelo que a Globo adotou desde 2006, ou seja, os repórteres perderam importância e o aquário - que é onde ficam os chefes - centralizou tudo.
A outra mensagem que recebi reclamava de uma reportagem sobre Cuba que foi ao ar no Fantástico. O leitor disse que a reportagem foi parcial, que mostrou só um lado e omitiu informações.
As reclamações que mencionei acima não são as únicas. Na verdade, leio centenas de críticas aqui e ali, na internet, em relação ao Jornalismo da Globo. Reclamações em relação a assuntos bem específicos: cotas raciais, economia, governo Chávez, Cuba, governo Lula e assim por diante. Pessoalmente, acredito que toda empresa jornalística tem sua linha editorial. Porém, deve acima de tudo ter compromisso com a verdade factual, com a diversidade de opiniões e com o contraditório. Ainda mais em se tratando de uma concessão pública, ou seja, de um serviço concedido por todos nós, brasileiros, através do estado.
Serei específico: as cotas raciais. Eu já escrevi que sou contra as cotas decididas de cima para baixo. A Globo é institucionalmente contra as cotas. E ponto final. Não há debate. Não há contraditório. Não há opinião divergente. Parece o Pravda dos tempos da União Soviética. Ou o Granma, de Cuba, que a Globo tanto critica. Será que já ocorreu a um dos irmãos Marinho que a maioria dos brasileiros é de negros, mulatos e mestiços? Será que, nos tempos da internet, eles não perceberam que assumir INSTITUCIONALMENTE uma posição destas, sem dar oportunidade ao contraditório, equivale a suicídio editorial?
É a esse tipo de comportamento que me refiro quando falo em state of denial. O problema não está apenas na concorrência. Está na própria letargia interna, no incentivo ao puxa-saquismo e na supressão das críticas e dos críticos. A Globo ainda está na fase de achar bodes expiatórios. Não perdeu ainda mas já está culpando os gandulas.
Publicado originalmente em 8 de janeiro de 2008
Lendo seu texto me lembrei da história duma empresa de ônibus que opera aqui no bairro onde moro, como monopolista. A empresa fez o que quis, nunca respeitou os horários, um serviço péssimo. Aqui no Rio a entrada do transporte pirata no fim dos anos 90 foi tão ou mais forte que na maioria das cidades, e exatamente em áreas aonde havia a operação monopolista como aqui, a força do "alternativo" foi muito maior. Áreas em que as empresas sabiam concorrer se adaptaram melhor. A população também tinha uma visão mais positiva do sistema e das empresas, o que não ocorre aqui. A empresa quase faliu, fora a baixa qualidade seus carros ainda acabaram ficando muito velhos, perdendo a frota, manutenção deficiente. Acabou vendida pra outro grupo, que está dando um gás nela, mas incrivelmente uma parte enorme da população aqui (inclusive eu) mantém péssima imagem da empresa. É o mesmo que a Globo está fazendo, e entrou numa de esticar a corda de 2005 pra cá, uma tática que a revista Veja também decidiu fazer e que já vem amargando bastante perda de anunciantes e assinantes. A Globo tem até um serviço de qualidade razoável, mas as pessoas sabem que ela tenta empurrar todo o "filé" pros seus canais a cabo, e por ser praticamente monopolista, isso causa antipatia no público. O tratamento agressivo e mentiroso que cada vez fica mais claro com novos exemplos todos os dias, divulgados com a facilidade da internet, ampliaram o leque dos que torcem pra Globo se ferrar, e basta que uma outra emissora ofereça algo parecido em qualidade ou até um pouco inferior, a tendência é ganhar. Há um sentimento bastante intenso de orgulho em parte cada vez maior da população de boicote e de que vendo uma outra opção, quando ela existe, você estaria um pouquinho se vingando da manipulação da Globo e da corja mafiosa que a cerca, de escala internacional. O maior boicote sabemos que está em desligar a TV e vir pra internet de vez, coisa que cada vez mais gente faz. Perder o hábito de ver TV é a maior destruição que a Globo pode ter, porque aqui ela é fraca (até porque sempre investiu sem muita ousadia, e sempre achando que tudo que a Globo faz tem que ser em torno de suas novelas, como se o mundo se limitasse a isso. Por mais que a Globo passasse de hoje em diante a mudar sua forma de tratar o público, esse processo acredito que já é irreversível. A rejeição e insatisfação é bastante grande e muitas pessoas só não largaram ainda por inércia ou por real falta de opção, ou ainda alguns que acham que "eles precisam mudar pra ficar como eu quero", na verdade, você que precisa mudar de veículo e achar um que te respeite, porque sabemos que por tradição quase secular eles sempre foram e sempre serão os mesmos.