Atualizado em 02 de fevereiro de 2008 às 16:21 | Publicado em 02 de fevereiro de 2008 às 16:19

A grande mesquita de Casablanca domina a paisagem da cidade marroquina. Ela ficou famosa por causa do filme com Humprey Bogart e Ingrid Bergman. Como a Casablanca de Hollywood foi inventada num estúdio, é mínima a ligação entre a cidade e o grande clássico do cinema. Casablanca, a verdadeira, é muito mais interessante que a versão fictícia. Pode se passar um dia todo só testemunhando a balbúrdia dos mercados ao ar livre. A cidade marroquina é um exemplo da diversidade do mundo muçulmano. Há mais diferenças do que semelhanças entre países islâmicos.

Difícil acreditar, mas a mesquita que aparece na foto acima fica no coração dos Estados Unidos. Perto de Toledo, Ohio, numa região em que existe uma grande população de origem árabe. Há seis milhões de muçulmanos no país. Os muçulmanos americanos são moderados.
O número de fiéis cresce rapidamente porque os muçulmanos prestam muitos serviços de assistência em penitenciárias. Existe uma vertente radical, liderada por Louis Farrakhan. Ele acredita que os negros americanos devem buscar as raízes islâmicas na África e já chegou a pregar a criação de um país negro independente em território americano.
O mundo islâmico é muito mais diverso do que aquele que nos é apresentado na televisão. Em Amã, na Jordânia, de onde partimos para uma viagem ao Iraque, acordávamos todos os dias às cinco da manhã com o lindo canto anunciando a primeira oração do dia. Ele ecoava pelas mesquitas da cidade, transmitindo uma agradável sensação de vida comunitária.

Na praça central de Amã, conversei com jordanianos sobre a invasão americana do Iraque, que estava prestes a acontecer. À esquerda na foto aparece nosso guia e tradutor, Mazen. Apesar da condenação quase unânime aos Estados Unidos, há opiniões divergentes sobre Osama bin Laden e o uso do terror como instrumento político.
Há tantas diferenças quanto as que vemos entre os cristãos, num país como o Brasil, que abriga católicos, evangélicos, metodistas e presbiterianos. Mazen, que foi nosso guia e tradutor em Amã, era de uma família de refugiados palestinos. Tinha parentes no Brasil. Ele nos contou do esforço que fez para conseguir casamento. Juntou cerca de 15 mil dólares para pagar o dote à família da noiva.

Em Bagdá, eu e o cinegrafista Sherman Costa posamos para fotos com fiéis, diante de uma mesquita xiita. O lenço cobrindo a cabeça é sinal de que as mulheres são peregrinas iranianas. As xiitas iraquianas usam aquela roupa preta que cobre todo o corpo, a burqa.
Quando visitamos Bagdá, estava em construção a maior mesquita do mundo, com dinheiro injetado pelo governo de Saddam Hussein. O ditador fazia pose de religioso para ganhar apoio político, mas nunca misturou governo com religião. O Iraque tem uma antiga tradição de governos seculares.
Nos anos 30, uma mulher foi indicada para comandar um ministério, a primeira na história dos países árabes. Confirmei no Iraque o que já havia visto em outros países muçulmanos. Desemprego, saúde e educação tiram o sono de mais gente do que o destino de Osama bin Laden. A batalha cotidiana para garantir o sustento da família e melhorar de vida é a mesma entre cristãos brasileiros ou muçulmanos da Jordânia, do Iraque ou do Marrocos.

No Marrocos, com o cinegrafista Luiz Carlos Novaes e o produtor Fábio Golombek, gravamos diante da grande mesquita de Casablanca. Foi lá o meu primeiro contato com o mundo muçulmano. Estávamos na França, acompanhando a Copa do Mundo, quando recebi a boa notícia. Minha tarefa seria a de visitar os países adversários do Brasil no campeonato.
Assistimos à vitória brasileira contra a seleção do Marrocos na casa de uma família de Casablanca. Foram muito cordiais. Estranhamos que havia apenas homens na sala. As mulheres só entravam para servir chá de hortelã e comidas deliciosas. Eu, Novaes e Fábio atacamos a comida e mal vimos a partida.
O Brasil ganhou mas consolamos os anfitriões dizendo que a seleção marroquina tinha jogado bem. Passamos por uma situação assustadora. O Marrocos, que tem um governo liberal para os padrões da região, é lindo - mas miserável. As favelas de Casablanca são cercadas por altíssimos muros brancos.
Decidimos fazer uma reportagem sobre poligamia para o SBT Repórter, aproveitando o tempo livre. Algum dedo-duro do governo notou nossa presença e chamou a polícia. Fomos levados para uma delegacia. Depois de idas e vindas, um policial disse que só poderíamos trabalhar no país com uma autorização especial. Para conseguí-la, teríamos que viajar até a capital, Rabat, a 300 quilômetros de distância.
Depois de cumprir os trâmites burocráticos, pudemos completar a reportagem. O povo festejava nossa presença nas ruas, assim que éramos identificados como brasileiros. O Brasil é amado fora do Brasil.
A poligamia está prevista no livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão. Pela lei islâmica, um homem pode ter até quatro mulheres, desde que seja capaz de sustentá-las. A poligamia não é obrigatória. Na rua, entrevistamos alguns casais jovens. Um rapaz resumiu porque havia optado pela monogamia: "Mal posso sustentar uma mulher, já pensou quanto custaria ter quatro em casa?."
Publicado originalmente em 2005