Atualizado em 23 de março de 2008 às 14:18 | Publicado em 23 de março de 2008 às 14:15

Passei o domingo, dia 14 de janeiro de 2007, acompanhando a espera de Thais e dos familiares dela.
Thais tem 20 anos de idade. Está grávida de nove meses. O filho deve nascer até o dia 5 de fevereiro. O marido, de 22 anos, é cobrador do microônibus que estava sob os escombros da obra do metrô que desabou, em São Paulo.

Quando a entrevistei, Thais estava animada.
Antes de sair do apartamento do pai, para acompanhar as buscas, fez a mochila com as roupas do marido: calça, camiseta, desodorante e uma escova de cabelos. Era para que Wescley da Silva, de 22 anos, trocasse de roupa assim que fosse resgatado.

No meio da tarde daquele domingo, surgiu em um site da internet e numa emissora de tevê o furo: os bombeiros tinham chegado ao microônibus e resgatado quatro corpos. Na verdade, foi o que conhecemos no meio jornalístico como barriga. Uma informação inverídica.
Pensei no terrível sofrimento de Thais. Pensei na irresponsabilidade dos colegas. Eram pequenas as chances de Wescley ser encontrado com vida. Ainda assim, um dos princípios elementares do Jornalismo é não dar informação sobre casos de morte antes que os parentes da vítima tenham sido oficialmente avisados. Isso evita que você, leitor, fique sabendo pelo rádio ou pela tevê que perdeu alguém da família.

Fiquei pensando nos pais de Thais.
Na manhã de domingo, dois dias depois do desabamento, o pai ainda acreditava que o genro tinha escapado com vida.
Ele disse acreditar que Wescley, àquela altura, estava "caminhando pelo túnel do metrô".

A mãe disse que a Thais e Wescley estavam começando a vida de casados. Perguntei: "Thais, você está preparada para receber uma notícia que não seja boa?"
Ela não respondeu. Firme e forte, levantou-se e foi com a família para mais um dia de vigília no "acampamento" ocupado pelos parentes das vítimas perto do lugar da tragédia.

E lá foi Thais, com a mochila azul nas costas, acompanhar o trabalho de resgate. A família estava chateada. Os parentes reclamavam do descaso das autoridades. Só tinham recebido apoio da cooperativa dos donos de microônibus.
Logo que aconteceu a tragédia, um desses burocratas - mais preocupado em retomar as obras do que com a perda de vidas humanas - havia duvidado do sumiço do microônibus. Thais estava certa de que, se não fosse fazer pressão pessoalmente, o resgate ficaria em segundo plano. A prioridade das autoridades, acreditava ela, era de limpar a cratera e reiniciar a obra.

Diante do prédio onde mora o pai de Thais, no bairro paulistano de Pinheiros vimos um microônibus azul. Ela nos disse que era similar àquele em que o marido Wescley trabalhava.
Em geral, ela acompanhava o marido na primeira viagem do turno de trabalho. No dia do acidente, no entanto, algo de anormal aconteceu. Já no portão de casa, Wescley disse que a mulher deveria ficar. Ele queria um agasalho e combinou com Thais que ligaria mais tarde para encontrá-la, talvez na segunda ou terceira viagem.
Pressentimento? Ela acha que foi. E disse mais: na noite em que a mãe recebeu, por telefone, a notícia do sumiço do microônibus, dona Edileuza evitou contar à filha a notícia, temendo pela gravidez. Thais, mesmo sem saber do que havia acontecido, disse que o bebê "começou a chutar na barriga como nunca havia feito antes".

A esperança de que um bolsão de ar tivesse dado a Wescley a chance de respirar não se confirmou. Um bombeiro que subiu na carcaça me disse que o veículo ficou como uma sanfona metálica. Thais ficou como símbolo de bravura das mulheres que amam. Que o menino Cauã nasça firme e forte, para dividir com ela as alegrias e os momentos difíceis da vida.
Publicado em 15 de janeiro de 2007 e atualizado em 19 de janeiro de 2007