Atualizado em 28 de fevereiro de 2008 às 14:06 | Publicado em 28 de fevereiro de 2008 às 13:35
João Pacheco Fernandes quer voltar a andar. Há oito anos, quando saía do mar no litoral de São Paulo, decidiu dar um último mergulho. Foi levado por uma onda, bateu a cabeça no chão e ficou tetraplégico. Mas o João é de luta. Hoje é ativista em defesa das pesquisas com células-tronco embrionárias.
É importante fazer a distinção: as células-tronco adultas existem na própria medula óssea das pessoas. Já existem tratamentos experimentais com elas. O paciente toma uma droga para acelerar a produção das células, o sangue é recolhido, centrifugado e o "concentrado" de células-tronco resultante é aplicado diretamente na região que se pretende regenerar. Já houve bons resultados experimentais no tratamento do coração, por exemplo.
EM NENHUM LUGAR DO MUNDO EXISTEM TRATAMENTOS OFICIALMENTE APROVADOS COM CÉLULAS-TRONCO, SEJAM EMBRIONÁRIAS OU ADULTAS.
Por enquanto, esses tratamentos são parte de estudos científicos. Os pesquisadores acreditam que melhores resultados poderiam ser obtidos com pesquisas envolvendo células-tronco embrionárias, recolhidas de embriões humanos. Entre outros motivos, porque são células mais novas e, portanto, teoricamente mais maleáveis para assumir novas funções no organismo.
O objetivo de longo prazo é permitir que tetraplégicos voltem a andar, é combater as doenças degenerativas, quem sabe até regenerar tecidos do cérebro. As pesquisas foram autorizadas no Brasil pela Lei da Biossegurança. Ela foi aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente Lula. Nesse caso, faça-se justiça: a bancada da igreja Universal votou a favor. Mas a Igreja Católica se opõe.
O ex-procurador geral da Justiça, Cláudio Fonteles, entrou com uma ação de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal. A decisão final do STF pode ser tomada na semana que vem. A Campanha da Fraternidade da Igreja Católica, este ano, é voltada para o combate ao aborto. Os católicos consideram que os embriões não devem ser usados em pesquisas, que cada um deles representa uma vida.
Argumentam que a lei criará um "mercado negro" de embriões, ou seja, casais estocariam embriões em clínicas de fertilidade para vender a pesquisadores no futuro. Porém, a lei brasileira prevê: só poderão ser usados em pesquisas embriões que estiverem há mais de três anos congelados e, ainda assim, só com o consentimento por escrito do casal responsável. Hoje, depois que conseguem a reprodução assistida, muitos casais optam por descartar os embriões que "sobraram". Nesse caso, esses casais são "assassinos" de embriões? Se os embriões vão para o lixo, não poderiam ser usados em pesquisas? O João acha que os embriões descartados deveriam ser destinados à pesquisa. E você?
Casais inférteis tem o direito de ter seus filhos, já que a Ciência lhes dá essa oportunidade. E o que a Igreja Católica diz sobre o que é feito com os embriões não implantados? Que os "pais" devem implantar todos e ver se a natureza lhes dá um ou seis filhos (dependendo de quantos vingarem)? Ou vai chamá-los de assassinos por conta do descarte? Existe uma coisa que se chama liberdade de escolha e eu sempre a defendo. E me parece muito mais coerente que essa escolha possa ser acompanhada pela contribuição com a ciência, se for da vontade desses casais. Quem for católico e concordar com o que a Ingreja prega, que não doe embriões para pesquisas ou, melhor ainda, que não faça inseminação artifical.