Roberto Amaral: Para enfrentar a política de terra arrasada da direita, é preciso já uma Frente Ampla das esquerdas

Tempo de leitura: 5 min

Frente ato

Roberto Amaral: As frentes Brasil Popular e a Povo sem Medo promoveram a resistência mais consequente ao golpe

O avanço do atraso e o desafio das esquerdas

Para enfrentar a direita, é preciso lucidez doutrinária, coragem política e eficiência organizativa. O ponto de partida é a Frente Ampla

por Roberto Amaral, em CartaCapital, publicado 04/11/2016

As esquerdas e o pensamento progressista não podem ficar atônitos, fitando os céus à espera de sinais de alento no momento em que sofre aquela que pode ter sido sua mais profunda derrota em nossa curta e acidentada história republicana. Impõe-se, isto sim, aprender com os revezes, se formos capazes de interpretá-los.

Trata-se, o processo em curso, de verdadeira debacle não apenas do ponto de vista eleitoral-aritmético (por certo aquele que mais dói, embora não encerre toda a questão), tão festejado pela grande mídia, mas principalmente pelos indicadores ideológicos, bactérias não isoladas e que permanecerão desgastando o desgastado tecido político.

Com poucas e não significativas exceções, o eleitorado brasileiro votou, nestas eleições, preponderantemente pela direita ou pela alienação reacionária do antipoliticismo, que vai dar no mesmo. As esquerdas perderam substância eleitoral graças a erros crassos e reiterados, cuja responsabilidade a ninguém pode transferir.

Perdeu o apoio do centro político-eleitoral, que migrou para o conservadorismo e para a direita, como gritam para ouvidos assustados os números das eleições do dia 30 de outubro. Eles revelam uma derrota ao mesmo tempo previsível e surpreendente em sua contundência.

Do esvaziamento eleitoral do PT nenhum outro grupamento do mesmo campo logrou beneficiar-se. A maior decepção deve ter ficado com o PSOL, anunciado em prosa e verso como seu beneficiário ao lado de outros candidatos de menor torque. Espera-se que o partido compreenda o papel histórico que as circunstâncias lhe ofereceram nessas eleições, aderindo à política de Frente.

O eleitorado independente e grande parte daquele que sempre optou pela esquerda ou pelo pensamento progressista migraram para constituir o maior ‘partido’ dessas eleições, a dramática e preocupante, embora claramente compreensível, emergência do desânimo (abstenção), do desencanto (voto em branco) e do protesto (voto nulo).

Perfazem quase a metade do eleitorado, e em grande número de casos alcançam votação superior àquela dos prefeitos eleitos. Esse discurso precisa ser ouvido e entendido: a derrota do PT foi acachapante, mas nenhum outro partido, exceto o ‘não-partido’, credenciou-se para sucedê-lo.

Como toda e qualquer derrota eleitoral, essa não é definitiva, como as vitórias tampouco o são (terá finalmente o lulismo descoberto essa verdade acaciana?).

Pode, contudo, perdurar se as esquerdas, a começar pelo PT, que perde a hegemonia sem ter a quem passar o bastão.

Os petistas não tiverem a coragem e a humildade de proceder uma profunda e transparente autocrítica, que deve ao País e ao nosso povo há muito tempo.

Uma autocrítica que se espera de igual forma e com igual desprendimento do governo da presidente Dilma e do presidente Lula.

Não se trata de auto-flagelamento. A autocrítica é devida aos trabalhadores, aos setores populares e, mais do que que nunca, à juventude. É preciso passar a limpo o feito e o recusado, como as transformações estruturais na sociedade, como a reforma politica, a reforma do Judiciário, a reforma tributária, a reforma agrária e a democratização dos meios de comunicação de massas.

É preciso passar a limpo os últimos 13 anos de política de centro-esquerda e o papel nela desempenhado pelos partidos e instituições sindicais e populares.

As esquerdas têm muito a cobrar do Partido dos Trabalhadores, mas nada ganham com a sua imolação. O PT precisa entender que está diante de algo mais importante do que seu umbigo, de suas avenças e desavenças internas, das tricas entre facções e tendências, da redução do mundo real a uma disputa interna de um poder fátuo, que, se não foram a causa (e não foram), foram porém um agente desestabilizador no governo e na vida partidária, na vida política e institucional do País.

Por tudo isso, o pensamento progressista aguarda e cobra a reorganização do PT. Espera que seu fundador e principal líder assuma o papel que lhe cabe nessa contingência. O desafio que aguarda o partido, hoje, é maior do que o de sua criação em 1980.

Entre as muitas causas explicadoras da tragédia de hoje, para ser revisitada, destrinchada, entendida, há a crise de governança representada principalmente pelo segundo governo Dilma – é preciso assumi-la com coragem.

Existe uma crise política de governo, uma enciclopédia de erros cometidos em face das relações entre governo e sindicatos e movimentos sociais.

Há erros clamorosos na construção das alianças partidárias e eleição de aliados. E o erro central da ilusão da conciliação de classe na qual o lulismo ingressou, sem a companhia da classe dominante.

Conhecer e identificar esses erros é a conditio sine qua non para nossa recuperação, pois ignorá-los é a certeza de sua repetição, aí então fatal.

A esquerda precisa revisitar o significado e as consequências da opção eleitoral e do pragmatismo que não poderiam ser confundidos nem com eleição a qualquer preço nem com governo de qualquer jeito.

O movimento social, quando não compreendido, gera surpresas, quase sempre desagradáveis para os condutores políticos. Os que não tiveram olhos para ver e instrumental teórico para compreender as jornadas de 2013 também não entenderam o claro discurso político representado pelas dificuldades das eleições de 2014.

Adicione-se o fato de, eleitos contra a promessa do neoliberalismo conservador, havermos, no governo, tentado implantar a política econômica do adversário – e que tomou livre curso com a consumação golpe. O que se segue é história lamentável, conhecida e recente, que não carece de relembrança.

Diante dos fatos objetivos, porém, as forças populares, com os partidos e para além dos partidos, souberam reagir e em seu melhor momento compreenderam que os desafios impunham, acima de nossos desencontros menores e quase sempre irrelevantes, a política de Frente.

Foram as frentes, como a Brasil Popular e a Povo sem Medo, agrupando movimentos como o MST e o MTST, sindicatos como a CUT a CTB, e partidos do campo das esquerdas que promoveram a resistência mais consequente ao impeachment.

Havia clareza de que estávamos diante de desafio maior: um golpe de Estado que caminhava para além da deposição de Dilma Rousseff (meta ostensiva e imediata), porque, mais profundo que o golpe de 1964, o golpe parlamentar-mediático-judicial de 2016 prescindiu da violência militar e se julga, hoje, em condições de colher nas urnas o respaldo para a consolidação de seu projeto: um governo neoliberal-conservador, anti-nacional, anti-popular, anti-trabalhista, antidesenvolvimentista e profundamente anti-democrático.

As lições deixadas pela política de Frente não podem ser relegadas a plano secundário. A ameaça do golpe em curso é maior que a de 1964 e tem raízes protofascistas: não podemos dar as costas ao pronunciamento eleitoral de 2016 e deixar de perscrutar o que pode ser, nesse sentido, 2018.

São exemplares as votações de São Paulo e do Rio de Janeiro. Na capital fluminense, de tradição rebelde, o voto popular migrou para o pentecostalismo de direita, levando a esquerda para um gueto de classe-média e alta nos bairros da Zona Sul.

Para a integralização do golpe, sem atos institucionais, sem tanques, tornou-se fundamental destruir as organizações políticas de esquerda, a começar pelo PT (processo em curso). Além disso, sem mandá-las para o exílio, é preciso destruir nossas lideranças, e a bola da vez é, consabidamente, o ex-presidente Lula, vítima de processo mediático-judicial-policial de desconstrução jamais visto entre nós.

O golpe, repitamos mais uma vez e não pela última vez, não se esgota no impeachment. É pura e simplesmente uma etapa necessária para a repressão e a desconstrução de um projeto de desenvolvimento nacional autônomo, fundado no aprofundamento das franquias democráticas, no avanço das conquistas sociais, na emergência das massas, na produção da riqueza nacional e na distribuição de renda.

O projeto do golpe, com Temer ou sem ele, mas impossível com Dilma ou Lula, é essa política de terra arrasada contra a democracia, a independência e a emergência das massas.

Para enfrentar o programa da direita, de exacerbação da dominação de classe, precisamos de lucidez doutrinária, coragem política e eficiência organizativa, o que passa pela unidade das forças de esquerda, ponto de partida de uma política de Frente a mais ampla possível.

Já.

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Comentários

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Mineiro

No meu modo de ver as coisas, o Pt e principalmente o ultimo mandato do poste Roussef foi os principais responsáveis pelo golpe. Nao a menor dúvida disso , ela não poderia ser candidata nessa última eleição, pela atual conjuntura que viria e o Pt, o Lula, o pc do b sabiam muito bem,nao adianta querer tirar da reta porque sabiam sim. Mas nao a arrogância dos mesmos citados e a famigerada aliança com desgraçado do pmdb nao quiseram enxergar a realidade e deu nisso. O Lula e o Pt viviam dependurado no pmdb e faziam tudo que eles queriam e também achavam que por causa dos acórdãos nao dava em nada. Tá certíssimo o Roberto Amaral o Pt e principalmente o poste Roussef tem que dar muitas explicações para o povo. E ainda tem a cara de pau de querer ser chamada de querida?

Mineiro

O pior disso tudo é que o Pt não aprendeu a lição e pode ter certeza, esse mesmo partido covarde ,bundao quer fazer o mesmo pacto desgraçado de governabilidade com esses golpistas se os mesmo fdp quiser. Não é absurdo não, é mais fácil o Pt fazer isso do que uma autocrítica profunda que é o certo. O Pt nao quer fazer autocrítica, não quer mudar nada , o pt quer ficar do jeito que está e em consequência levar todos nós juntos.

Marcelo simba

Que saco! Eu não sou petista apesar de votar bastante no PT. Voto mais no PCdoB, mas já votei nessa gama da esquerda, PSOL, PSB (antigo). Até em reuniões do PCO eu fui…

Eu não sei se é oportunismo, ressentimento ou o q…. Lógico q houve erros sérios “nos 13 anos de PT”. Lógico. A começar por não ter encampado a discussão sobre uma “lei de meios”.

“Os petistas não tiverem a coragem e a humildade de proceder uma profunda e transparente autocrítica, que deve ao País e ao nosso povo há muito tempo”. Esse papo vc tem com a sua namorada, com o seu cônjuge.

Lembrem-se, as 85 pessoas mais ricas do mundo têm um patrimônio de US$ 2 trilhões, o mesmo que os 50% mais pobres do mundo. Certamente nós não estamos em nenhum dos dois grupos. É disso q estamos falando. É simples assim.

A esperança é com a juventude q poderemos criar táticas de guerrilha atrelada e carcomer essa estrutura.

Luiz Carlos P. Oliveira

Uma Frente Ampla das esquerdas é possível? O Psol já mostrou que isso não é possível, pois atacava o PT e esquecia dos reacionários de direita. E as urnas provaram que o discurso deles é vazio. A esquerda precisa encontrar

Alex

Para combater o avanço antiprogressista a maioria das pessoas deve saber isso:

http://novoexilio.blogspot.com.br/2016/11/o-gol-da-alemanha-e-revanche-dos-vira.html?m=1

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    Khagan Ovasso

    Alex, que texto longo e tedioso! Enxugue 80% disso aí, senão é pregar no deserto! Sdd

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