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Mino Carta: Vazamentos da PF para a mídia provam que trabalha a favor da casa-grande, conspirando contra o governo

15 de janeiro de 2016 às 16h25

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Delegado Leandro Daiello, diretor da Polícia Federal, e ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Foto Marcelo Camargo/Agência Brasil

Conspiração policial

Vazamentos de informações sigilosas para a mídia nativa provam que a polícia trabalha a favor dos interesses da casa-grande

Mino Carta, em CartaCapital,publicado 15/01/2016 06h04

Já tivemos um exército de ocupação, convocado pela casa-grande em 1964.

O gendarme indispensável ao golpe, a favor dos senhores com a bênção, não somente metafórica, de Tio Sam.

De mais de uma década para cá, somos forçados a colher fortes indícios de que contamos com uma polícia para cuidar dos interesses da minoria privilegiada.

Aquelas Forças Armadas derrubaram o governo. Esta polícia, ou pelo menos alguns de seus núcleos, conspira contra o governo.

O tio do Norte está aparentemente mais distante, mas não desgosta de um satélite em lugar de um país independente.

A postura conservadora da caserna, em momentos diversos francamente reacionária, sempre arcou com um papel poderoso, quando não decisivo, na história do Brasil.

Hoje, graças também a um comando firme e responsável, mantém a atitude correta na moldura democrática, a despeito dos esforços da mídia nativa para oferecer eco a vozes discordantes de reduzido alcance. A defesa do status quo ficou para a Polícia Federal?

A PF não foi treinada para a guerra, dispõe, porém, de armas afiadas para conduzir outro gênero de conflito, similar àquele da água mansa que destrói pontes.

Um dos instrumentos usados para atingir seus objetivos com a expressão de quem não quer coisa alguma é o vazamento, a repentina revelação de fatos do seu exclusivo conhecimento, graças ao fornecimento de informações destinadas ao segredo e, no entanto, entregue de mão beijada e por baixo do pano a órgãos midiáticos qualificados para tanto, sem descaso quanto à pronta colaboração do Ministério Público.

Na manhã de terça 12 sou atingido pela manchete da Folha de S.Paulo: Cerveró liga Lula a contrato investigado pela Lava Jato”.

O delator, diz o texto, declara ter sido premiado com um cargo público pelo então presidente da República por quitar “um empréstimo de 12 milhões de reais considerado fraudulento pela Lava Jato”.

Logo abaixo, com título em corpo bem menor em duas colunas, o jornal informa que o mesmo Cerveró “cita Renan Calheiros”.

Finalmente, no mesmo corpo e extensão de texto, anuncia-se: “Delator fala em propina sob FHC”.

Incrível: na mesma manhã, o Estadão me surpreende ao se referir apenas ao envolvimento do governo de Fernando Henrique. O jornalão, é evidente, não foi beneficiado pelo vazamento de todo o material disponível.

Estadão redime-se aos olhos dos leitores no dia seguinte e na manchete declama: “Cerveró cita Dilma”. E no editorial principal da página 3, sempre fatídico e intitulado “No reino da corrupção”, alega a abissal diferença entre o envolvimento de Lula e de FHC.

Em relação a este “a informação é imprecisa, de ouvir dizer”. No caso de Lula, a bandalheira é óbvia e desfraldada. Patéticos desempenhos do jornalismo à brasileira. Inúmeros leitores não percebem, carecem da sensibilidade do quartzo e do feldspato.

Nada surpreende neste enredo, próprio de um país medieval, indigno da contemporaneidade do mundo civilizado e democrático. O vazamento de informações sigilosas tornou-se comum há muito tempo nas nossas tristes latitudes, como diria Lévi-Strauss.

Mesmo assim, seria interessante descobrir as razões desta conspirata policial. Inútil, está claro, dissertar a respeito dos comportamentos da mídia. Dos seus donos, o mesmo pensador belga observava: “Eles não sabem como são típicos”.

O cargo de diretor da PF é da exclusiva competência do Palácio do Planalto, que o subordina ao seu ministro da Justiça, no caso, José Eduardo Cardozo.

Foi ele quem indicou o delegado Leandro Daiello, aquele que em julho passado proclamou, a bem da primeira página do Estadão: “A Lava Jato prossegue, doa a quem doer”. E a quem haveria de doer?

Nos bastidores da PF, Cardozo é apelidado de Rolando Lero, personagem inesquecível criado por Chico Anysio, o parlapatão desastrado que diz muito para não dizer coisa alguma.

Tendo a crer que Cardozo aplica seu lero-lero em cima da presidenta Dilma e consegue deixar tudo na mesma. De fato, o nosso ministro é tão incompetente no posto quanto vaidoso.

Achou, porém, em Daiello o parceiro ideal. O homem foi capaz de tonitruar ameaças, dentro da PF, contudo,  carece de verdadeira liderança. A situação resulta, em primeiro lugar, dessas duas ausências.

Da conspirata em marcha, vislumbro de chofre três QGs, em recantos distintos.

Número 1, escancarado, em Curitiba, onde três delegados dispõem da pronta conivência do Ministério Público e da vaidade provinciana do juiz Sergio Moro, tão inclinado a se exibir quando os graúdos lhe oferecem um troféu.

Os representantes locais da polícia não hesitaram, ainda durante a campanha eleitoral, em declinar suas preferências pelo tucanato, sem omitir referências grosseiras a Dilma, Lula e PT.

De onde haveriam de sair os vazamentos se não desses explícitos opositores chamados a ocupar cargos públicos?

Há algo a se apontar no Paraná: a falta de liderança, também ali, de superintendente. Não é o que se dá em São Paulo, onde o chefão recém-empossado decidiu prender um filho do presidente Lula na mesma noite da festa de aniversário do pai, debaixo do olhar indiferente de Cardozo e Daiello. Diante de cenas como essa, o arco-da-velha desmilingue.

O novo superintendente substituía outro da mesma catadura, brindado por serviços prestados por uma das mais cobiçadas aditâncias, como se diz na linguagem policial, em embaixadas localizadas nos mais aprazíveis recantos, Paris, Roma etc.

As aditâncias fazem a felicidade de alguns, destacados delegados, espécie de prêmio à carreira. Tal seja, talvez, o sonho do superintendente em Belo Horizonte, que se distingue sinistramente por seus desmandos em relação ao governador Fernando Pimentel.

Passou por cima da lei e do decoro para torná-lo seu perseguido em nome de uma autoridade de que carece, como é fácil provar.

Até que ponto haveria um comprometimento político e ideológico entre esses policiais e os partidos da oposição? Vale imaginar que, egressos da chamada classe média, alimentem o descabido ódio de classe de quem acaba de sair do primeiro, ínfimo degrau, e atingiu um patamar levemente superior.

Donde, ojeriza irreversível em relação àqueles que nutrem preocupações sociais. Existem, também, claramente detectáveis, umas tantas rusgas, a soletrar a diferença salarial entre delegados e advogados da União, consagrada a favor destes pela presidenta.

É possível, entretanto, que quem vaza informações sigilosas não se dê conta das consequências? Os conspiradores atuam à vontade, com o beneplácito silencioso dos chefes.

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Gomes

16/01/2016 - 21h49

Esse artigo e reportagens publicadas no Tijolaço, DCM e outros blogs indicam que a presidenta do país não manda em mais nada. Quem manda nesse país é a Republica do Paraná.

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Francisco

16/01/2016 - 21h06

Não sei se faço mais questão que Dilma termine o mandato.

Pronto, falei.

Acho que essa frase esta na garganta de muita gente da esquerda.

Acredito inclusive que a esquerda pode vir a se interessar no futuro por pedir o impeachment de Dilma.

Motivos não faltam e nenhum tem qualquer relação com peculato (roubo por parte dela, Dilma).

Me refiro aqui a prevaricação.

Dilma já deveria estar cumprindo pena pelo genocídio de DUAS nações indígenas que sequer foram tratadas na Comissão da Verdade (tudo documentado…).

Dilma deveria estar cumprindo pena por permitir que graves crimes contra o patrimônio fiquem impunes: Furnas, Privataria, Metrô, etc…

No dia em que cairmos na real e pedirmos a cabeça dessa covarde para quem demos os nossos votos, o seu Ministro da Justiça (aquele de quem não digo o nome pois sinto ânsia de vômito) vai se safar com “domínio do fato” e delação premiada.

Uma coisa será certa: Dilma vai ter merecido. De esquerda sim, otário – NUNCA.

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    André

    16/01/2016 - 23h25

    Faço suas palavras as minhas, infelizmente.

    Hirlan

    18/01/2016 - 00h15

    Francisco que pena, mas vc tá certo. Parece que a Dilma vive um mundo irreal. E a auditoria da divida. Ela vetou a realização. Vc sabia. O dep. Do PSOL. Edmilson Rodrigues conseguiu colocar no plano plurianual votado no congresso. Que surpresa. Essa Dilma veta. E o direito de resposta que a parte principal ela vetou. Dá uma raiva dessa Dilma. Covarde.

Marcio Ramos

16/01/2016 - 11h14

Estamos em uma ditadura democrática muito bem armada.

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Ramon

15/01/2016 - 22h45

Azenha, lamento dizer mais a Dilma vai cair. Porque digo isso, ontem mais um escandalo da nossa grande estadista. Ela vetou a auditoria da dívida ( Principal fonte de renda do sistema financeiro), fato previsto na Constituição. Cade a opção pelos mais pobres que esse governo está fazendo?
E a Reforma da Previdência, ela vai mexer mesmo. Não me surpreendo mais com uma mulher imposta pelo Lula e sem coração de militante social como um Suplicy, um Tarso Genro, um Paulo Paim da vida…
Lamentável!!!!

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José de Pindorama

15/01/2016 - 20h30

Caros Comentaristas, boa noite!
Existem coisas que são simples; uma investigação não deve ser interrompida sem se chegar a uma conclusão(ões) e gerar provas ou não; inquérito(s) se assim se fizer necessário; encaminhando o produto desse trabalho ao Judiciário.
Os Agentes Públicos, enquanto cidadãos e podem professar sua posição e preferências por este ou aquele candidato; isso é legítimo, é Democrático.
O que é terminantemente vedado ao Agente Público, no exercício pleno de suas atribuições, usar de seu cargo e/ou posição, para abertamente, promover a ‘esculhambação de um candidato e/ou de um Partido Político, apontando favorecimento à outréns’. Também pautar investigações com forte viés político promovendo perseguições a desafetos. Isso não Republicanismo, nem Democracia; isso é abuso de amplo espectro! Portanto, passível de punição. Se o Ministério da Justiça tivesse bom senso, iria afastar esses que praticaram ilicitudes no exercício da função; preservaria até a lisura da investigação que não poderia ser contestada; e o mais importante preservaria e valorizaria àqueles que trabalharam dentro da Lei. Isso é ser Republicano.

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Mauricio Gomes

15/01/2016 - 18h11

O triunvirato PIG-PF-(in)Justiça é a cabeça de ponte do golpe, sem eles os demotucanos e assemelhados não seriam absolutamente nada. A última capa da veja foi uma das coisas mais grotescas e repulsivas jamais vistas no jornalixo brasileiro, nem o pior dos bandidos mereceria um tratamento nazista daqueles. Enquanto isso, o covarde e bundão Zé da justiça diz que abriu uma sindicância para apurar os vazamentos. Bastava perguntar ao japonês bonzinhos e seus comparsas que ele descobriria, se quisesse e fosse homem. Bota o Ciro ou o Requião no lugar desse frouxo que rapidinho acabam as molecagens desses safados.

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FrancoAtirador

15/01/2016 - 16h44

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OLJ é uma OC/PPP, que significa Operação Lula na Jaula,
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preconcebida para enquadrar o PT na Tipificação Penal
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de Organização Criminosa (OC) da qual Lula seria Chefe.
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É a Evolução da Tese do Domínio do Fato do Mentirão.
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Todos os que tiveram algum Vínculo Direto ou Indireto
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com o Ex-Presidente da República serão Presos no Paraná,
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até que consigam elementos, ainda que fictícios, suficientes
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para, ao final, processá-lo, julgá-lo e encarcerá-lo até 2018.
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Responder

    FrancoAtirador

    15/01/2016 - 16h47

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    Mídia Jabáculê, PPSDemB, PF/MP/JF-PR & CIA
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    adoram uma Parceria Público-Privada (PPP).
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    FrancoAtirador

    15/01/2016 - 16h57

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    Detalhe
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    Só não Prenderam Dilma Rousseff, que foi, primeiro, Ministra de Minas e Energia
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    e, depois, Chefe da Casa Civil, nos Governos do ex-Presidente Lula (2003-2010),
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    porque ela ainda está exercendo o Cargo de Presidente da República do Brasil.
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    No momento em que for afastada, via Congresso ou TSE, será também Indiciada
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    como o foram, são e serão [email protected] @s [email protected] da Casa Civil dos Governos Petistas.
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    FrancoAtirador

    15/01/2016 - 17h10

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    Entrementes, a Classe Média ‘Revolucionária’ se distrai na Mídia Jabáculê
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    com o sangue jorrando da Cara dos Estudantes do Estado de São Paulo,
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    pela Ação Policial Genocida do Esquadrão da Morte do GenerAlckmin,
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    ouvindo o Discurso do Imperador do Mundo, em Tradução Simultânea.
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    FrancoAtirador

    15/01/2016 - 17h20

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    De outro lado, a Classe Trabalhadora, Esgotada e Exaurida,
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    pois furtada do Tempo de Lazer, porque roubada do Salário,
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    correndo atrás do Prejuízo para pagar as Contas Atrasadas
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    e sem acesso algum à Informação sobre o Brasil e o Mundo.
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